setembro 30, 2011

Novas paragens

Como tudo na vida, este blog tem data de validade. Todos estes posts servem como um histórico virtual de muitas histórias, sensações vividas por uma "sobrevivente da crise".
O ciclo deste blog fechou-se com o meu retorno ao Brasil.
Se quiserem, acompanhar as minhas escritas e fotografias, tenho outro endereço :-)


http://viverliterariamente.blogspot.com/

Abraços a todos(as).

Nenhum ser feliz pode saber que o é



"Com a felicidade  acontece o mesmo que com a verdade: não se possui, mas está-se nela.  Sim, a felicidade não é mais do que o estar envolvido, reflexo da  segurança do seio materno. Por isso, nenhum ser feliz pode saber que o  é. Para ver a felicidade, teria de dela sair: seria então como um  recém-nascido. Quem diz que é feliz mente, na medida em que jura, e peca  assim contra a felicidade. Só lhe é fiel quem diz: fui feliz. A única  relação da consciência com a felicidade é o agradecimento: tal constitui  a sua incomparável dignidade."
Theodore Adorno, in "Minima Moralia"


Agradeço pelos momentos que vivi em Algés. Saudades.

fevereiro 26, 2011

A magia da vida

O lado mágico da vida, ao meu ver, é a mudança. Nem um dia é igual ao outro. A paisagem muda, os problemas se diluem, as expressões transformam-se, a vida ensina-nos que nada como um dia após o outro para olharmos o mundo com outros olhos. Os mesmos olhos, agora mais experientes e brilhantes...revêem o que passou com a convicção sincera de que a vida é pura magia...e apenas isso.
Assim como nosso corpo se transforma, nossos caminhos mudam, seguindo as estações.
Estou no Brasil, retornei às origens finalmente. Fevereiro de sol, chuva e carnaval...
Sinto saudades de Portugal, mas sobretudo dos amigos, das pessoas que ficaram marcadas em nossas vidas. Cheguei a uma conclusão muito simples, o que faz dos lugares especiais são as pessoas. E agora tenho a minha família e o meu amor por perto... estou muito feliz.
Começamos uma nova vida, com direito a um filho que está por chegar...daqui alguns meses...
A alegria de esperar por uma vida revela, como nenhuma outra experiência é capaz, a magia da vida.
Estou fechando o ciclo deste blog...as lembranças boas de Portugal ficaram guardadas na memória.
A crise passou por mim, pelo menos o peso dela já não produz nenhum impacto, ficaram algumas marcas trasmutadas em pensamentos, poesias, sensações, fotografias, lembranças fugazes, dores já esquecidas.
Desejo que os imigrantes brasileiros que ainda vivem em Portugal continuem lutando e sejam felizes dentro das limitações que o país, em recessão econômica, lhes impõe.
Espero visitar Portugal em outras condições, como turista... e rever as pessoas e os lugares.
Os lugares revelam-se com as pessoas. 3 anos vivendo em Portugal foram marcantes.
Um dos aprendizados mais importantes da minha vida.
Agora sinto-me cidadã do mundo, mas sempre com a bagagem segura de um país maravilhoso e de uma família especial que me recebe de braços abertos.
Em breve vou postar aqui o endereço do blog do nosso filho que nascerá em junho.
Saudações a todos,
Larissa

novembro 17, 2010

É pra lá que eu vou


Ainda tenho muito caminho pela frente. Sou uma caminhante, por vezes errante, que já sente os dias passarem com alguma dificuldade e o caminho torna-se mais íngreme, o peso cresce e os ombros ressentem-se. Mas isto é provisório.

Há certas questões sobre a vida que ainda precisam amadurecer, é verdade.

Entretanto, há uma espécie de compreensão mais precisa sobre o que realmente importa nesta trajetória complexa, que exige-me uma certa reflexão e, por sua vez, mais escrita.

As pessoas fazem toda a diferença na vida da gente.

Podemos estar serenos a observar uma paisagem impecável, um mar convidativo, um rio refrescante, uma enseada serena, um recanto de natureza sublime no meio do nada de algum lugar qualquer.
Entretanto, se não tivermos alguém especial ao nosso lado, será que a paisagem terá o mesmo sentido?
Os países, as políticas, as economias, as culturas e as pessoas. São as pessoas que fazem tudo acontecer, ou deixar de...
Somos indíviduos inseridos na coletividade. O que faz-nos crer que precisamos pensar apenas em nós próprios e nos nossos? Que ilusão é esta de que não precisamos uns dos outros?
Essa massa que segue o destino triste do capitalismo e da economia dos mercados, sem nenhuma reflexão. Para onde caminhamos?

Sem regras que definam o papel do Estado ou a sua possível intervenção sobre a economia, para salvaguardar os interesses dos cidadãos e diminuir a diferença social, será que há algum futuro para este cenário? A crise já mostrou sua face negra na Europa. Mas parece que o carma deste Velho Mundo é muito pesado.

Quem diria a Europa não ser mais o que era? Não é mais estável? Cada vez observa-se uma diferença social maior entre as pessoas e que está a aumentar nos países pobres do Sul. Há pessoas mais ricas e pessoas mais pobres nos países do sul e uma classe média meio perdida. A Europa avança para a Direita, deixa pra trás a Democracia Social...imbecilizando-se cada vez mais.

Qual será o próximo modelo de Ipad? E o telemóvel (celular) com mais funcionalidades? Já comprei meu Mac novo? Já fizeram as vossas compras do Natal? Quem será o eliminado do Ídolos? E o Sócrates aguenta mais esta?

E o nossos filhos?

Eu sei o que me interessa. As pessoas. As pessoas que gosto, admiro, respeito e amo, sobretudo. Tenho uma pessoa que amo e respeito muito ao meu lado e que espero continuar a partilhar a minha vida, mas ele estará do meu lado seja para onde for.

As pessoas que eu mais amo estão no Brasil. A minha família. E é pra lá que eu vou.

Eu tomo as minhas decisões racionalmente, mas é o coração que dá o veredito final. O emprego está no Brasil, as oportunidades também. O que prende-me ao velho mundo são aos aprendizados, as viagens e as experiências. Mas estas poderão continuar a existir em doses homeopáticas.

Este blog tem dias contados porque logo poderei escrever-vos sob outra perspectiva, viverei outras aventuras, com novos aprendizados, é claro.

Os momentos difíceis e as tristezas fazem parte da vida, mas existe um tempo para tudo. Um em especial para observar os ciclos de vida e encará-los com naturalidade.

Eu sinto-me grata e feliz por ter a compreensão do quanto a vida é maravilhosa e transitória. Simplesmente por existir e poder escrever-vos já é mágico.

Podemos aprender uns com os outros, eu ainda acredito nisto. E por isso persisto com o meu jeito de ser, trilhando o meu caminho, seja ele como for...enquanto este universo me permitir...com a crença arraigada nas pessoas, na amizade, no amor, como base para todo o resto.
Sou ingênua? Talvez. Mas o que eu ganho está guardado dentro de mim e daqueles que me amam, por apostar nas pessoas e nas relações verdadeiras que cultivo sempre.

setembro 24, 2010

Sobrevivendo, por pouco tempo.















Neste tempo nervoso e veloz, quando o verbo no imperativo tornou-se óbvio, sou teimosa em acreditar que tudo é relativo. Foda-se!
Esta merda de crise provoca alguns sofrimentos psíquicos, por vezes, incontornáveis nas pessoas. Mas eu não quero ser mais um número nesta lista. Eu nego-me a admitir isso.
Estou cansada de ouvir que Portugal tem "um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, que aguenta sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice"...
Eu vejo cada um no seu quadrado. Há pessoas boas e más em qualquer lugar... estou pacientemente à espera de que algo melhor aconteça e mostre-me que não estou aqui à toa.
E sinto apenas um sentimento de estranhamento apoderar-se de mim com cada vez mais intensidade.
Sou uma imigrante, embora não tenha um perfil comum de um imigrante... Não vim pra cá pra fazer dinheiro apenas. Estou em busca de conhecimentos.
Sou muito lutadora, não desisto facilmente das coisas, mas estou a um passo disto.
Por que ainda continuo por aqui?
Talvez por teimosia ou ingenuidade.
Porque no fundo, mesmo no fundo, aprecio este país e a sua gente. Porque fiz amigos, grandes amigos: portugueses, brasileiros, estrangeiros. Porque percorri Portugal de norte a sul e amei tudo o que vi...porque aqui encontrei o meu amor, porque aprecio a culinária portuguesa, adoro assistir a um bom concerto... Porque amo a costa do Estoril e adoro tomar uns copos numa esplanada. Por coisas tão simples como passear no Chiado ou fazer as compras no Pingo Doce; porque aprecio comprar roupas com um bom acabamento e estilo por um preço acessível; porque gosto de conhecer outros países, viajar...falar inglês...conhecer outras culturas. E tudo isso é muito mais fácil por aqui.
No Brasil, temos tantas coisas boas, mas o acesso à cultura, viajar, etc, não são tão acessíveis à classe média, pelo menos por enquanto.
Ouço tantas pessoas falando que estão voltando para o Brasil ou até mesmo muitos profissionais portugueses que estão tentando a vida por lá. Realmente será uma potência no futuro... mas ainda tem graves problemas económicos e sociais, violência, desorganização, etc. É claro que depende do lugar onde escolhe-se para viver. Já começo a fazer filmes na minha cabeça.
As pessoas não sabem para onde ir, o que fazer para safar-se nesta situação.
Muitos perderam os seus empregos e aqueles que ainda os têm fazem de tudo para não perdê-los.
Há pessoas que ganham com a crise, encontram oportunidades no meio disto tudo. Oferecem saídas para os seus clientes. Eu gostaria de acreditar mais fielmente nisto. Entretanto, tenho feito tantas coisas diariamente para tentar ser mais positiva.
Este sentimento de isolamento é ridículo. Sei que ao escrever neste blog estou ligada a uma rede de pessoas, que milhares de pessoas podem vir a ler o que estou a escrever. Entretanto, sinto-me completamente sozinha. E porque será? Porque é o mal do século?
Pois, talvez seja mesmo.
Espero sobreviver a isto. E receber pelo menos uma resposta aos 50 emails que enviei.
Estou cansada de não ter feedback.
Retornei, dei opiniões, retroalimentei-me, dei respostas a mim mesma. E isso me basta agora. Não sei mais qual é o sentido desta palavra. Continuo a esperar, por pouco tempo.

setembro 16, 2010

Sobre a exposição Os Gémeos

A exposição Pra Quem Mora Lá o Céu É Lá dos artistas brasileiros "Os Gémeos" ainda pode ser conferida no Museu Berardo (Lisboa) até o dia 19 de setembro.

"É um momento marcante. Pela primeira vez um museu em Portugal recebe uma exposição de artistas oriundos do graffiti. (...)



É possível que já tenha passado por criações da autoria deles, nas ruas de São Paulo, Berlim, Londres ou Nova Iorque. São fáceis de identificar. Normalmente são cenas etéreas povoadas de amarelos e roxos, com olhos inocentes, crianças de pernas franzinas e cabeças enormes, inscritas em murais de grandes dimensões, em prédios devolutos. É difícil não fixar essas imagens pictóricas. Pela escala, poesia e forma como interagem com o espaço envolvente. Criam um clima de romantismo na desordem urbana.

A dupla brasileira Os Gémeos, os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, 35 anos, são duas das figuras mais importantes do graffiti, ou arte de rua. Nos últimos anos já não criam apenas nas artérias das grandes cidades. São também solicitados para expor em galerias, bienais, museus. (...)

A transposição da rua para as galerias de arte não é novidade. Keith Haring ou Jean-Michel Basquiat, já falecidos, ou os contemporâneos Barry McGee e Banksy, fizeram-no. Mas nos últimos tempos tem-se assistido com mais frequência ao fenómeno. A mostra efectuada há dois anos pelo mais influente museu de arte contemporânea da Europa, a Tate Modern, para a qual Os Gémeos contribuíram com um dos murais gigantes expostos no exterior, ajudou a credibilizar uma série de artistas. (...)

As suas criações contemplam visões do quotidiano, cenas simples mas sensualmente ricas, evocações dos esquecidos das margens da sociedade ou retratos comoventes de famílias. É um imaginário sonhador e intimista, às vezes burlesco e possuído pela crítica social, aquele que por norma propõem.
Quando interrogamos Gustavo sobre o que os inspira, a resposta surge em rajada: "O nosso trabalho reflecte as vivências, o olhar, os sonhos, as histórias, os relacionamentos familiares, a poesia, a música, a comida, o folclore do Brasil, o silêncio, pessoas que vivem com salários de miséria mas estão sorrindo, tudo isso é filtrado."
É caso para dizer que a arte de rua, durante décadas desvalorizada, já não se move apenas no maior museu a céu aberto do mundo, a rua, mas também nos espaços museológicos que, durante anos, tinham reticências em aceitá-la. Nunca como no contexto actual as técnicas do graffiti pareceram tão próximas das dinâmicas regulares da arte contemporânea. Na rua, ou na galeria, o traço pictórico lúdico que Os Gémeos colocam na sua actividade é reconhecido, tem identidade, projectando ideias que tornam a vida mais interpeladora. Se isso não é arte é o quê?





Fonte: 17.05.2010 - jornalisa Vítor Belanciano - Ípsilon - Publico on-line.
Fotografias: Dago e Larissa Vianna

setembro 01, 2010

Retornando às origens

Monumento aos emigrantes italianos que foram para a América

O meu pai, jornalista Hélio Scherer, viveu momentos de grande emoção no último dia 27 de maio, ao conhecer a “aldeia” de Valli del Pasubio, na província de Vicenza, norte da Itália. O Valli del Pasubio é uma pequena aldeia, com um relevo montanhoso (desnível do ponto mais baixo ao ponto mais alto chega a 1900 metros) e de muitos bosques. Desta terra o seu avô materno, Giovani Antonio Roso, partiu no ano de 1892, há 118 anos, para residir em Galópolis, no município de Caxias do Sul, Brasil.
Hélio Scherer e seus tios também são netos de um imigrante alemão, João Scherer. Mas como já tínhamos algumas informações sobre os seus antepassados italianos, com o gentil apoio do italiano Livio Dalle Molle, meu pai, acompanhado de mim e de minha mãe, tivemos a oportunidade de apurar mais detalhes junto aos arquivos da Paróquia de Santa Maria (Chiesa Arcipretale di Santa Maria), em Valli del Pasubio.
Dentro daquela Paróquia, em meio aos registros antigos, guardados há séculos, vivemos momentos únicos, que ficarão guardados para sempre nas memórias e nossos corações.
Quando Hélio percebeu que foi naquele lugar que nasceu o pai de sua mãe chamada Odila Roso, o avô Giovani, obviamente ficou muito emocionado. Penso que mesmo com a sua facilidade em escrever, tendo como grande paixão a escrita jornalística, naquele momento seria um desafio pedir-lhe que traduzisse em palavras as suas emoções.
Com palavras de filha e bisneta, e um coração ítalo-brasileiro, percebo um pouco o que ele sente.
As nossas origens são fundamentais para a nossa história de vida, pois são nada mais do que a essência de quem somos. Acredito que as heranças míticas dos nossos descendentes estão no nosso inconsciente. Ao passo que compreendemos esta essência, algo de mágico nos acontece, pois compreendemos a nossa história para além do que nos ensinam os livros, a escola, os media, etc.
Lembramos do sotaque da avó, dos costumes da família, fazemos ligações mais profundas e começamos a entender um conjunto de valores que sustentamos durante toda a vida sem sabermos bem o porquê. Disto isto, posso afirmar que é uma grande oportunidade e que não há uma viagem mais bonita que aquela que nos proporciona algum crescimento pessoal, no presente caso o resgate de um passado que repercute em nossa vida.
A origem dos Rosi (plural de Roso)
E nesta vistia, conseguimos retroceder no tempo, obtendo dados de nossa árvore genealógica até o ano de 1676. Neste ano Matteo, filho de Cristoforo Roso, casou-se com Anna, filha de Michele Sorgato. A partir desta união, sucederam os nascimentos dos antepassados (aqui indicados os nomes dos homens, que passam pela tradição o sobrenome (apelido) Roso): Michiel Roso em 1682, Domenico Roso em 1716, Lazzaro Roso em 1765, Domenico Roso em 1787, Luigi Fortunato em 1825 e Giovani Antonio Roso em 1856 – este pai da minha nona Odila Roso, (in memorian) nascida em 1909, em Caxias do Sul. Nos registros encontramos o seu nome grafado como “Gio”, tratando-se do diminutivo ou um apelido carinhoso para o seu nome.