dezembro 29, 2008

Cabo da Roca


































"O homem não pode descobrir novos oceanos se não tiver coragem de perder a costa de vista"
- André Gide -

Belém







































"The only journey is the one within" - Rainer Maria Rilke (A única viagem é a interior)

dezembro 15, 2008

Prelúdio



Évora uma vez...

Pretensa presença

Cruci-fixo nas pontas dos dedos

Pretensa presença da escrita









novembro 19, 2008

Pensar traz muita pedra e pouco caminho


"Que é bom? - Tudo aquilo que exalta no homem o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência.
Que é mau? - Tudo o que mergulha as suas raízes na fraqueza.
Que é felicidade? - A sensação de que a potência cresce - de que uma resistência é vencida."

...

"A própria vida é para mim instinto de crescimento, de duração, de acumulação das forças, o instinto de potência: onde falta a vontade de potência, ai há a degenerescência."

O Anticristo - Nietzche.

...

Uma epígrafe:

"Chaminé que construísse em minha casa não seria para sair o fumo, mas entrar o céu."

- Dito do avô Celestiano - capítulo 4 do livro "Mar me quer", Mia Couto -

...

"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer."

"Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho".

Personagem Zeca Perpétuo, do livro Mar me quer.

novembro 06, 2008

Bíblico


Quando acha que aprendeu, emburreceu

Quando percebe que sentiu, passou

Quando pensa que viu, cegou



outubro 24, 2008

Jazz no jardim

Julho de 2008
No Centro Cultural de Belém, vários DJ´s tocam para o público ao ar livre, criando ambientes de lounge pelos jardins. E a gente curte, sentados na "relva"...

video

outubro 22, 2008

21 de outubro

Vento desconcertante
Os cabelos insistem em permanecer calados.

Entro em uma das pastelarias mais antigas de Lisboa
Repito mentalmente uma música de Rodrigo Leão
Levo a tira colo o livro "Os cus de judas", de António Lobo Antunes, recém comprado por 5 euros
Na mesa ao lado, uns franceses devoram bolos
O gajo do café, simpático por sinal, traz à mesa a minha torrada e a meia de leite
O francês olha-me como se fosse um pássaro raro da floresta amazônica
Eu sorrio por dentro, mas por fora conservo a cara blasé habitual

Depois de alguns minutos a olhar pela janela,
travo uma conversa silenciosa com os meus cabelos.
Enrolo-os nos dedos e sinto que estão ficando mais sedosos por causa da umidade.

Sinto frio, percebo que escurece e começa a chover lá fora.
É hora de pegar o comboio.
O vento quase arrasta-me pela Praça do Rossio.
Fecho o casaco e caminho encolhida, escapando dos pingos de chuva ao refugiar-me nas montras.
Corro, atarantada, tenho um pouco de medo de caminhar no centro histórico, não imagino o que me espera à noite.
Um casal aproxima-se sorrindo, protegem-se da chuva com o auxílio de um lenço vermelho indiano. Cúmplices, olham-se com ternura, brincando na chuva.

outubro 07, 2008

Roleta russa ou americana?


Chegou o outono. As folhas caem nas calçadas lisboetas e finalmente chove. O outono traz consigo uma crise coletiva “tipicamente européia”, ampliada pela crise econômica mundial. Na segunda-feira da semana passada, a Bolsa de Lisboa registrou a maior queda diária dos últimos 15 anos. A Europa sente os reflexos do "cassino financeiro" provocado pelos EUA.
Cavaco Silva, presidente de Portugal, sublinhou que tem confiança nos portugueses, deixando um apelo para que mobilizem-se e não desanimem frente à crise. Em discurso proferido no dia 5 de outubro, data em que comemora-se a Instauração da República em Portugal, o presidente apelou: "Somos capazes de vencer quando os desafios são maiores. Não se deixem vencer pelo pessimismo ou pelo desânimo". Já o primeiro-ministro, José Sócrates, ao comentar o discurso do presidente, disse: "as dificuldades do presente resolvem-se com ação, com vontade e com ambição e não com um baixar de braços."
A situação parece um “bocadinho” preocupante. Ouvi a notícia de que 20 a 30 Pequenas e Médias Empresas (PME), em sua maioria lojas, fecham as suas portas diariamente e cerca de um terço das PME não pagaram o subsídio de férias a pelo menos 30 mil trabalhadores. E eles temem não conseguir pagar o de Natal.
O Governo defende a idéia de que a situação está sob controle. Esta semana este anunciou a garantia de 20 bilhões de euros (equivalente a aproximadamente 60 bilhões de reais) às operações de financiamento dos bancos que estão em Portugal. Segundo Sócrates, a garantia é absolutamente indipensável para garantir a liquidez e estimular a atividade econômica. Os portugueses relatam que sentem a crise desde 2000, por isso, estão habituados e encaram-na apenas como uma continuidade, agora ampliada internacionalmente.
Os líderes dos países da Zona Euro reuniram-se a fim de discutir uma estratégia comum para lidar com a atual crise dos sistemas financeiros. Agora, estamos a aguardar os movimentos e sua repercussão na vida dos cidadãos europeus.
Não esperava observar os reflexos da crise econômica mundial no sul da Europa. Mas confesso que tem sido interessante. Os liberais que vociferavam que o Estado não deveria em hipótese alguma intervir no mercado financeiro estão a engolir as suas próprias palavras. Pois são as nações que estão a limpar o sangue provocado pela roleta russa dos ambiciosos neoliberais. Os lucros foram privados e os prejuízos estão sendo nacionalizados. Os socialistas e comunistas é que estão contentes com esses caos, pois acreditam que possa se configurar um novo panorama político-econômico mundial. Quem sabe o regresso do domínio político sobre a economia? Resta-nos refletir: quando passar o período crítico alguém apontará os responsáveis por puxar o gatilho ou tudo ficará em “águas de bacalhau” (ou seja, acabará em pizzas)?

Cabo Espichel











setembro 26, 2008

Cotidiano


O início do outono traz uns ventos do Rio Tejo.
Há dias em que uma camada espessa de neblina vem do rio e cobre a avenida Marginal, criando um clima misterioso.

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Os cafés, espalhados por Lisboa e pelos "concelhos" (distritos) adjacentes são boas opções quando o vento permite-nos sentar ao ar livre.
Há muitos aposentados nos cafés lisboetas. Ao vê-los, sinto uma saudade do que ainda não vivi. Penso que poderei ser feliz quando envelhecer. Sentados, em grupos, a conversar sobre inúmeros assuntos com os amigos de larga data. Encontram-se pela manhã ou à tarde, todos os dias. Alguns levam os seus cachorros. Eles esperam nas portas dos cafés, quietinhos, enquanto seus queridos donos vão fazer pedidos. Eles ficam ansiosos, não tiram o olhar por um segundo sequer do seus donos, como se pudessem ser esquecidos eternamente à porta do café. É tão bonito ver aquele olhar devoto, carinhoso. Eu queria muito ter um cachorro, hehehe.

...

Hoje eu vi um velhinho carregando um livro a tira colo. Parecia ser algo interessante. Pensei, quando for velhinha vou ter listas de livros para ler por ano.

Enfim. Posso tê-las hoje se quiser.

Eu estou terminando O Perfume. Mas o que mais chamou-se atenção nos últimos meses foram os gibis (que aqui são chamados de "banda-desenhada", acredite se quiser). Meu marido coleciona-os desde guri. Interessantíssimos. Tem um que chama-se "Ana" e que conta a história de um detective particular que investiga a vida de irmãs gêmeas de pais diferentes. A história decorre em Lisboa e percebo os locais que conheci há tão pouco desenhados pelo ilustrador. É muito legal!


...

Por vezes, os programas de entretenimento da televisão portuguesa parecem vários esquetes de programa de humor. Aquela gente toda metida a glamourosa, artistas, apresentadores, é muito kitsch. Brega, "pirosa". Para eles algo brega é "piroso", hehehehehe.
Não é convicente, não tem sedução. É engraçado, sempre troco de canal. To viciada na série americana C.S.I. Mas assisto documentários tb. Assisti um que chocou-me muito. Diamantes de Sangue, parte 1 e 2.

...

As calçadas levam os saltos dos meus sapatos. Tenho que acostumar-me à idéia de usar sapatos baixos ou tipo "anabela". Esses dias eu estava a caminhar, tranquila, e o salto prendeu entre as pedrinhas da calçada, fiquei presa, continuei caminhando sem sapatos. Voltei para buscá-lo, rindo. Meu sapato preto clássico preso na calçada portuguesa. Um turista sentado ficou a rir de mim. Que situação!

....

Os portugueses dizem "Fogo!".... pra tudo. É uma expressão que equivale ao "Porra!" dos paulistas ou ao "Que saco!" dos gaúchos....
Fogo pra cá, fogo pra lá. Mas é pra tudo mesmo, espanto, surpresa, reclamação, indagação, quando não dá certo alguma coisa ou não está dentro do esperado, eles proferem: "FOGO!"
É tão engraçado.

...

Tem um gajo na rádio Antena 1, uma rádio clássica de notícias de propriedade do governo português, que tem uma voz rouca e grave. Todos os dias de manhã, ele fala do tempo. Eu não entendo nada do que ele fala, de outro tempo, remoto talvez. Só sei que para mim ele é o Butley, o cãozinho rabugento do Dick Vigarista.
Grrrrrrrrsssssssss! E tem o barulho do jipe landrover do meu marido pra acompanhar. É uma cena agrádavel todo dia de manhã.
...

Eu estive a visitar a Igreja do Mosteiro dos Jerônimos. E bem do ladinho do túmulo de Camões e de Vasco da Gama. Que tal? É apenas para dizer que vi o túmulo de Camões e presumo que realmente havia ali dentro um esqueleto, uns restos mortais do maior poeta da língua portuguesa.
A gente reverencia esses gajos por quê?
Porque eles ousaram fazer o que ninguém ainda havia feito.
Vasco da Gama fez a rota marítima para as Índias.
Camões os melhores sonetos.


...

Uma portuguesa disse-me que para conhecer todas as cidadezinhas de Portugal leva anos.
Estive em Óbidos, uma vila linda! As casas e o centro da cidade estão dentro da muralha, como eras antigamente as cidades medievais.
É lindo, lindo, lindo.
Melhor seria partilhar estas belezas com a minha família.


Esta foto foi tirada em Óbidos. Tem muitas flores nas casas, é lindo!

setembro 18, 2008

Um conto


Há um fundo de incompreensão em cada olhar desviado. Há uma tentativa frustrada de obter atenção em cada palavra mal colocada.

Mila tinha medo de Niander, embora acreditava que aquele olhar assertivo do parceiro demonstrava que estava tudo sob controle. A boca de Mila vomitava bobagens e tinha a secreta intenção de um dia poder devorá-lo, ou quem sabe retê-lo entre os dentes.

Mila sofria de um mal incontrolável: as palavras desperdiçadas. Ela falava aquilo que sabia, mas já não tinha certeza do que era realidade ou invenção. As idéias interessantes viviam presas nos cachos dos seus cabelos loiros. Ela passava os dias a penteá-los como fazia com as madeixas longas de sua boneca de infância.
Niander já não tinha mais vontade de decifrá-la. Desde que ela transformara-se em outra mulher, diferente daquela que ele havia conhecido no verão de 1997.
Quando ela começava a falar, ele soltava aquele suspiro profundo: o olhar atento, mas a cabeça longe. Seu suspiro silencioso guardava uma súplica emergente.

Palavras fugidias perdem-se pelas estradas. E o Passat, que Niander comprara com os últimos trocos que recebera de herança do pai, ouvia os lamentos de Mila desde que os dois resolveram juntar os trapos. O veículo atônito surpreendia-se com o que ela dizia. Ela falava dos outros com uma maestria louvável.
Niander simplesmente não ouvia mais nada. Ele desenvolveu uma técnica especial: olhava-a com um sorriso amarelo e concordava com tudo. Acreditava que desta forma poderia evitar complicações e chegaria logo ao apartamento para refugiar-se na internet e nos copos de cerveja.
As paredes do apartamento poderiam contar grandes histórias. Todos os enredos da vizinhança passavam pela grande boca carnuda de Mila.
Niander não tinha vida, muito menos enredo. Ele perdera a vontade de partilhar qualquer coisa. Limitava-se a falar com garotas na internet. Mila refugiava-se na vida dos outros.
O abajur ficava bege toda noite ao ouvir o monólogo infindável da tagarela. Em resposta: o ronco dele. Às vezes ouvia "boa noite" ou um "eu te amo" maquinais.
Aquele abajur esperava ansioso pelo dia em que não seria desligado à noite. Tinha um sonho romântico de voltar a ficar a noite toda acordado a iluminar aqueles dois.
Mas seus sonhos eram coisa de abajur. As paredes gélidas tinham certeza de que nada mudaria naquele apartamento.




Foto: uma experiência fotográfica com um vaso.

setembro 10, 2008

Desanuviada




Um dia escreverei canções e roteiros de cinema.

Provalvemente pintarei uma tela que merecerá a parede de minha sala.
Vou cantar uma canção inteirinha sem desafinar.

Vou esquecer de colocar os brincos antes de sair de casa e não me incomodarei nada com isso.
Vou dormir um sono profundo, sem sonhos freudianos.

Um dia eu vou escutar tanto jazz até esquecer-me quem sou.

Neste belo dia, a Ella e o Louis estarão em minha sala, a assistir o meu desanuviar.

Vou rir bem alto, suspirar fundo, que é pra maldita complexidade da existência fugir com a minha respiração e atingir as nuvens.


...

Um dia, eu vou entender a melancolia que me abate o espírito no início do outono.
Estação de que gosto tanto, quando as folhas caem e enchem as calçadas das praças de leveza e poesia intocada.

Creio que as folhas secas, ao baterem em meus ombros nervosos, revigoram a minha crença no poder do tempo. Sempre a curar as palavras desnecessárias, degeneradas e sem sentido.
Ainda bem...


...

Hoje fez sol. 26 graus marcava o termômetro no Largo de Camões.
Fui aos Armazéns do Chiado e andei por uma grande loja de Cds, livros, DVDs, equipamentos de informática, chamada FNAC, é um paraíso de consumo. Não queria agarrar o mundo e ler tudo, como de costume, apenas vi um livro em destaque, de Cesário Verde.

Pois... vem a calhar...

"O Sentimento Dum Ocidental
A Guerra Junqueiro

AVE-MARIA
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros d'aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!

Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
(...)
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
(...)

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!"
- Cesário Verde -

...

Legenda imagem: início de agosto, árvore em Malpica do Ribatejo, perto de Castelo Branco. Um lugar quase ermo. Perfeito para este post.
A propósito, as fotos postadas anteriormente foram clicadas em Azenhas do Mar.

setembro 08, 2008

O amor é uma companhia




De Alberto Caeiro

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

agosto 20, 2008

As cores das palavras


Estou frequentando um curso de escrita criativa na escola Escrever Escrever na Praça de Camões no Chiado (Lisboa).
Hoje pela manhã, minha professora nos propôs um exercício muito interessante. Cada um dos 10 alunos brincou um pouco de ser criança de novo e compôs sua flor de papéis recortados, fazendo uma colagem. E depois pediu-nos que escrevêssemos frases que iniciassem por "As flores são..."
E eu escrevi...

As flores são promessas de amor eternizadas no tempo efêmero da vida.

Parece que é necessário buscarmos reatar a espontaneidade que tínhamos quando éramos crianças.

Hoje saímos do prédio onde ocorrem as aulas, próximo ao Largo de Camões, a fim de buscar palavras na rua. Com uma folha em branco e uma caneta sai curiosa, apontando palavras que ia pescando entre os transeuntes. Era para listá-las em duas colunas: as palavras coloridas e palavras que não têm cor...

O olhar apurado, os sentidos aguçados, ouvindo diálogos entrecortados, apontava o que me vinha à cabeça. O que vi e o que senti neste breve exercício de 10 minutos me fez observar mais e valorizar as palavras que vêm ao meu encontro.

Apontei as seguintes palavras:


Palavras coloridas

menina
Eléctrico
girassol
casal
turista
fotografia
livro
amarelo
café
moedas
olhar
palmas
pastel de nata
sandes (sanduíche)
colar
mochila
Camões
tasca

Palavras incolor (sem cor):

táxi
tela
igreja
partida
jornal
cigarro
hotel
telefone
escada
espera
consulado

Após a coleta de palavras, escrevemos textos. Pensar nas palavras e na representação que fazemos delas, então escrever...

Em 10 minutos escrevi o seguinte texto:

Sentada no Café A Brasileira, no Largo de Camões, leio um livro tranquila. Perco-me nos versos pessoanos. Já não mais ouvia os ruídos do Eléctrico, nem as conversas em idiomas estranhos. Fazia calor na tarde lisboeta. Entre um verso e outro, observo um rapaz apaixonado sentado ao lado, atento aos movimentos de sua amada. O aroma do café remete-me às manhãs ensolaradas do Rio Grande do Sul. Na poesia de Pessoa sentia a atmosfera que agora vejo com meus próprios olhos. Mas Portugal não é mais o mesmo país e continua o retrato das descrições de Pessoa. Que paradoxal essa constatação.
Ouço os ruídos das chávenas a bater dentro do ambiente. Volto à realidade. Um turista tira mais um retrato e o tempo paralisa-se ali naquele instante.

agosto 18, 2008

Há dias


Há dias em que perco as palavras
Há dias que os versos somem do papel
Há dias que eles perambulam e pousam num lugar qualquer
Há dias que prevejo coisas
Há dias em que não vejo um palmo a minha frente
Há dias serenos
Há dias intensos
Há dias de lucidez
Há dias de estupidez
Há dias que não eu tinha notícias de você
Há dias em que gosto de escutar rockn´roll
Há dias que escuto Kleiton e Kledir
Há dias em que me sinto brega
Há dias em que sinto prazer de ser assim
Há dias que olho pela janela
Há dias em que me perco em raciocínios idiotas
Há dias em que a realidade me esbofeteia
Há dias de sol
Há dias de chuva
Há dias em que choro lavando louça
Há dias em que o riso vem contido
Há dias que eu pinto as unhas
Há dias em que faço abdominais
Há dias que fotografo
Há dias que guardo na memória
Há dias que como peixe
Há dias que prefiro carne
Há dias que não tenho fome nenhuma
Há dias em que um café é a minha salvação
Há dias que eu não uso maquiagem
Há dias em que ela é indispensável
Há dias que eu tiro os anéis ao chegar em casa
Há dias em que vejo fantasmas pela casa
Há dias que durmo sentada olhando televisão
Há dias em que durmo nos teus braços
Há dias que eu trabalho
Há dias que eu procuro trabalho
Há dias que eu devoro um livro inteiro
Há dias em que leio os jornais
Há dias de mistério
Há dias normais
Há dias em que o comboio me espera
Há dias em que prefiro caminhar
Há dias que ouço os pássaros de manhãzinha
Há dias em que acordo mal humorada
Há dias em que seus olhos me dizem coisas
Há dias em que não decifro tuas palavras
Há dias que eu sinto sensações estranhas
Há dias que eu vejo coisas onde não há
Há dias que eu ouço as notícias
Há dias em que me assusto com a crise
Há dias que não percebo nada
Há dias que viajo para o Tibet
Há dias que medito em uma montanha em Sintra
Há dias que velejo no Oceano Atlântico
Há dias que admiro o Rio Guaíba
Há dias que vejo o lilás do pôr-do-sol
Há dias em que tomo chimarrão
Há dias uma velha caminha no Parque da Redenção
Há dias ouço o garçom reclamar do desempenho do Inter
Há dias que eu odeio os comentários do Lasier Martins
Há dias que o Santana fala bobagens
Há dias que eu sinto um vento norte bater no rosto
Há dias em que sinto frio no pescoço
Há dias de cobertor de lã
Há dias abafados propícios para banhos de mangueira no quintal
Há dias que as plantas sentem sede
Há dias que eu quero plantar
Há dias de sim
Há dias de não
Há dias que escrevo
Há dias que suspiro
Há dias perfeitos
Há dias que não têm fim

Há dias assim



(Este texto é um exercício de escrita criativa)


(Tirei esta foto ontem na praia Azenhas do Mar, chama-se "cerca mágica", rsrsrsrs)

julho 30, 2008

As aves que aqui gorjeiam...

" Alheia à crise garota lê em esplanada com vista para o Rio Tejo"



Quando conheço um novo país, seu povo e sua cultura, me atenho às semelhanças e às diferenças. As comparações, portanto, são inevitáveis.
Nos primeiros dias, apenas deixei-me deslumbrar com as paisagens, o patrimônio histórico, a culinária, as manifestações culturais, etc. Com o passar do tempo, tenho observado o povo português e o que repercute na mídia televisiva e escrita. Tenho boas e más impressões, obviamente.
Destaco que observo a partir de um olhar estrangeiro e percebo apenas alguns aspectos, são apenas impressões e digressões de uma viajante. Infelizmente, como característica natural do ser humano, tenho a tendência em deter-me nas imperfeições, em queixar-me das diferenças, ao passo que supervalorizo a cultura brasileira e, inconscientemente, desvalorizo a portuguesa. Mas estou tendo apenas os primeiros contatos.
Acredito que somente conhecemos um local se escolhermos viver por um longo período tal o seu povo vive. E, acreditem, apenas provamos “alguns pratos” do “extenso menu”, pois sempre há muito a conhecer em um país estranho.
Nós, brasileiros, somos solidários, trabalhamos em equipe, característica que os portugueses buscam constantemente. Eles parecem ser bastante individualistas, se alguém cai na rua, por exemplo, ninguém pára para ajudar. Somos expressivos e espontâneos, eles também o são de sua maneira, mas são muito mais desconfiados do que nós. Somos otimistas, eles são os maiores pessimistas da União Européia, dado comprovado por meio de pesquisas. Talvez este seja um fator negativo que atrai ainda mais negatividade ao povo português.
Penso que nosso “jeitinho brasileiro”, tão conhecido no exterior, fornece-nos instrumentos e alternativas para lidarmos com as crises que, porventura, tivermos de passar em nosso país. Atualmente, eles passam por uma das maiores crises que já viveram, seguindo a tendência européia. Em meio a tantas análises que leio nos jornais e ouço nos pronunciamentos dos políticos, tenho a impressão de que estão paralisados, presumo que eles não sabem qual caminho devem tomar.
Em contrapartida, ao cair em comparações, observo muitas coisas que não funcionam como deveriam no Brasil. Porém, acredito que, na maior parte dos casos, não é porque nos faltam condições e/ou recursos, como postulam os nossos políticos, mas porque nós não exigimos que funcionem de fato.
Aqui não há tantos recursos naturais, uma indústria talvez insipiente, mas alguns portugueses são ousados e não sossegam enquanto não têm a excelência como padrão. Eles fazem as coisas acontecerem, assim como alguns brasileiros empreendedores. Os portugueses lutam para não ficarem eternamente à sombra da vizinha Espanha. O Brasil cresce economicamente em ritmo vertiginoso, porém, continua com diferenças sociais discrepantes. Contradições de um Brasil rico e pobre ao mesmo tempo.
A gente reflete muito quando faz uma experiência em outro país. Mas, parafraseando Oswald de Andrade, nunca perde de vista que “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.

julho 22, 2008

Grande Arnaldo



Assisti a um show espetacular de Arnaldo Antunes no último sábado no jardim da Fundação Gulbenkian.

Pode-se dizer que em sua melhor forma talvez, aos 47 anos, Arnaldo apresentou aos lisboetas e brazucas de plantão o álbum "Quase", gravado em setembro de 2007.

Acompanhado de Chico Salem (violões de náilon e aço), Betão Aguiar (guitarra e violão) e Marcelo Jeneci (teclados e sanfona), Arnaldo deu um show de performance no palco. Dava chutes, ensaiava uns passos soltos, brincava com as imagens projetadas ao fundo do palco...

Eu sempre acompanhei o trabalho de Arnaldo e sempre fui muito fã de seu trabalho, mas posso dizer que nunca imaginei que a expressão dessa figura fosse tão impactante e carismática. Foi uma dádiva vê-lo cantar a um passo de mim, eu estava bem a frente e ele chegou a sentar no palco, cantando suas belas composições.

Grande Arnaldo, é o cara!

julho 18, 2008

Mafra e Madeleine: uma combinação perfeita



Desde o início da quinta-feira (17) eu estava à espera pelo momento do concerto. Não era uma mera quinta-feira, disso eu tinha certeza.
Chegamos em Mafra, 50 km de Lisboa, por volta das 20h30min e aproveitamos para observar o exterior do Palácio Nacional de Mafra.
O palácio e mosteiro monumental de estilo barroco provocam-me um raro momento de deslumbramento. O local é conhecido por ser o cenário onde se desenrola o enredo do livro Memorial do Convento, de José Saramago. O palácio foi construído no reinado de D. João V em promessa à rainha D. Maria Ana da Áustria, para que ela lhe desse um descendente. Alguns acreditam que o rei fizera a promessa para se livrar de uma doença da qual padecia. O certo é que o ouro do Brasil foi o que sustentou esta obra audaciosa. Não entrei no convento, na próxima visita, espero poder ver a biblioteca que guarda 40 mil volumes preciosos, dentre eles a segunda edição de Os Lusíadas.



MADELEINE, SUAVE MADELEINE






Depois de tomar uma meia de leite (uma xícara de café com leite) e um pastel de nozes em uma Pastelaria local, entramos no Jardim do Cerco, aos fundos do mosteiro, por volta das 21h10min, com a intenção de assegurarmos um bom lugar para assistirmos ao concerto da cantora Madeleine Peyroaux.
Ouvia um som de jazz ao fundo antes mesmo de adentrar o jardim.
Clima frio, um tanto nublado. Eu gosto disto.
A atmosfera do jardim fazia-me recordar algum conto ou romance, não sei bem ao certo.
Aliás esta sensação me persegue em quase todos os lugares, talvez por ter estudado a literatura portuguesa, may be.
Na entrada, direito a jam session com músicos desconhecidos. Os gajos (caras) estavam a fazer uma promoção para a Meo, uma marca de televisão a cabo que patrocinara o concerto. Umas gajas faziam uma performance louca na relva (grama) do jardim. Moças distribuíam chocolates quadradinhos parecidos com os de Gramado (RS).
Ao ver o palco e as cadeiras, logo pensei: que lugar louco para ouvir um concerto! Ao ar livre, aos fundos do convento de Mafra, plátanos imensos davam um ar outonal e o friozinho delicioso. Caminhamos pelo jardim e ao fundo e encontramos uma fonte iluminada e uma engrenagem de um antigo moinho... a iluminação do ambiente era impecável.
Vimos o concerto em pé, porque o ingresso era mais acessível, mas ficamos em uma localização tão privilegiada quanto a ala Vip... bem de pertinho.
A gaja tem um timbre de voz que nos remete, sem dúvida, a Billie Holliday. É suave, canta sem fazer força, oscila entre o blues e o jazz. Nos presenteia com algumas canções em francês. Sem dúvida, tem senso de humor, tentou falar várias palavras em português e disse ao início de duas canções que elas falavam sobre Mafra.
Enquanto ela cantava, as luzes incidiam nas folhas dos plátanos no alto do palco, ao fundo via-se o convento. Um morcego fazia piruetas displicentemente por sobre as cabeças da platéia hipnotizada.
Sinistro, misterioso e belo.
Devem haver mais adjetivos, mas os dispenso, pois a voz e as imagens ainda ressoam em minha memória.

julho 17, 2008

Grandes concertos






Aqui chamam-se os "shows" de "concertos", então, posso dizer que estou tendo a oportunidade de assistir a grandes concertos em Lisboa...
No dia 12 de julho, sábado à noite, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, assisti a uma combinação perfeita de grandes músicos portugueses. Parte integrante do Festival de Música Portuguesa, apresentaram-se Os Vadios. São três músicos que dispensam apresentações num projecto inédito, criado especificamente para este festival. A grande voz masculina do fado de Camané (foto acima) juntou-se a dois dos mais consagrados músicos de jazz nacionais, Mário Laginha e Bernardo Sasseti para, juntos, procurar dar sentido ao conceito de contaminação musical. Do fado pelo jazz, do jazz pela canção portuguesa contemporânea. Como convidado, a voz única do contrabaixo de Carlos Bica.


CAMANÉ voz
BERNARDO SASSETTI piano
MÁRIO LAGINHA piano
CARLOS BICA contrabaixo (Músico convidado)

O fado é muito mais do que eu imaginava e na voz do Camané emociona, faz-nos chorar. Grandes composições com músicos incríveis. Inesquecível!

E HOJE É O DIA!

Hoje vamos ao concerto da cantora de jazz Madeleine Peyroux (foto acima)...
Para quem não a conhece, ela tem uma voz incrível, com um timbre comparado a Billie Holliday...
Ela divide o seu coração entre o blues e o jazz e apresenta-nos hoje no Cool Jazz Fest o álbum Half the Perfect World no Jardim do Cerco em Mafra...

julho 11, 2008

Dos sonhos


Há uma embarcação em que podemos navegar sem medo. São os barcos de sonhos. Seja os que temos enquanto dormimos , seja os que nutrimos acordados, sonhos revelam-nos desejos inconscientes.
Sonhos elucidativos. sonhos estranhos. sonhos repletos de imagens. sonhos sexuais. sonhos que nos revelam conteúdos psíquicos e que, na maior parte das ocasiões, nos esquecemos (talvez propositalmente) assim que despertamos.
É um pouco paradoxal tentarmos analisá-los. Sonhos podem ser vistos meramente como sonhos. Mas quando fazem sentido nos fornecem subsídios para lidarmos com a "falsa realidade" que criamos.
Somos cuspidos para a dura realidade quando abrimos os olhos. Vivemos um sonho, pois construímos nossas aventuras à medida em que fazemos nossas escolhas.

Escolhemos, por vezes, de cruzarmos por caminhos tortuosos para percebermos determinados aprendizados necessários e, em algumas fases da vida, nos libertamos do sofrimento criado por nós mesmos.

Entre uma margem e outra, podemos navegar em barcos de sonhos. Se escolhermos embarcar, é claro.


Da foto postada...
Entre um poste e outro e no rio Tejo, há uma embarcação. Há um enquadramento e uma percepção, um olhar lançado sob a paisagem. Assim como nesta luta diária, podemos enquadrar determinadas paisagens, também guardamos em nossa memória determinadas sensações, retemos apenas alguns sentimentos. Vemos o que quisermos, cada de uma forma peculiar, assim interpretamos o mundo.

julho 09, 2008

Pôr-do-sol




"Alguns olham para o que existe e perguntam porquê?

Eu sonho com que não existe e pergunto, porque não?"


George Bernard Shaw, dramaturgo e crítico irlandês
(foto do crepúsculo na praia do Guincho, it´s mine)

julho 08, 2008

Mosteiro



Mosteiro dos Jerónimos é belíssimo, ainda mais à noite, iluminado.
Essa foto foi tirada na noite de sábado, dia 5 de julho...
http://www.mosteirojeronimos.pt


Lá está o corpo de Vasco da Gama, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Este último, foi transladado em 1985 para o Claustro do Mosteiro dos Jerónimos. Túmulo é da autoria do Mestre Lopes Henriques.

julho 03, 2008

ViniPortugal


O vinho embriaga o espírito no Terreiro do Paço. Experimentamos diferentes varietais de uvas. O vinho de Portugal tem melhorado nos últimos anos e, segundo os enólogos, atingiu um padrão muito alto em nível internacional. Não me refiro ao lendário Vinho do Porto, este já conquistou o seu mercado e tem uma marca forte.
No dia do vinho, no último domingo (29), evento chamado por aqui de ViniPortugal que existe desde 2004, os produtores de todas as regiões do país expõem seus vinhos para a degustação de paladares apurados de portugueses e turistas.
Uma taça ao custo de 3 euros na entrada e a diversão para o espírito está garantida.
Um calor de 33 graus amolecia as pernas e os vinhos tintos incitavam as sensações. O encarnado do Eléctrico, o amarelo dos prédios que abrigam ministérios, as estátuas brancas de ofuscar os olhos no alto do portal de entrada da cidade de Lisboa. A Praça do Comércio é uma das maiores da Europa e foi reconstruída após o terremoto de 1755, seguindo os planos do Marquês de Pombal.
Ao longo do largo, foram colocadas poltronas verdes aveluladas estratégicas. Sentamos e nos deleitamos com a paisagem.
O vinho sempre provoca-me os melhores sentidos. Após, vem a dor de cabeça, certa na vida uma garota-enxaqueca como eu. Parte do processo, aceito-a em nome do deleite. Passa a sensação de entorpecimento e resta-nos as lembranças do ViniPortugal.

junho 26, 2008

Das pequenas e das grandes coisas


As calçadas de pedrinhas, marteladas uma por uma, engolem os saltos das portuguesas. Resvalam em dia de mau tempo. Velhotes sentados nas mesas dos cafés passam as tardes conversando com os seus pares.
Os elétricos cruzam pelo centro histórico.
As gaivotas e o céu azul.
O calor seco que não nos faz suar.
O olhar desconfiado da senhora que nos dá passagem nos corredores dos supermercados e nos ônibus.
Os carros todos estacionados nas ruas, sem perigo.
As senhoras a passearem de roupão com os seus cães à noite sem medo dos ladrões.
O horizonte no mar, indecifrável.
Os africanos a venderem colares e tecidos.
Turistas de todos os lugares do mundo andando de havaianas pelas ruas.
Ingleses vivendo em Cascais.
Brasileiros e seus guetos.
Correio da Manhã e O Público.
Notícias de que os portugueses são os europeus mais pessimistas.
Gastam 5,2 % do orçamento familiar com combustíveis.
Jovens ateus.
Velhos católicos.
Gente como nós, com a mesma língua, com o mesmos entraves da corrupção e da Justiça lenta.
Há corrupção nos clubes de futebol.
Há fanáticos por futebol.
Há regras para muitas coisas. Há gente que quebra as regras.
Há vida. Há pequenas e grandes coisas.

junho 25, 2008

Da vista e da língua portuguesa



Lisboa tem uma atmosfera inspiradora ao pôr-do-sol. Do alto do bairro da Graça pode-se observar esta vista belíssima. O Castelo de São Jorge à esquerda e ao fundo a ponte 25 de Abril. Um mirante, uma boa conversa e um calmo entardecer. Inúmeros turistas, mas também os moradores do local. Ouço uma língua que reconheço, entretanto, não compreendo tão bem assim. A mesma língua que falamos, mas com vocabulários e usos diversos. Para eles nós falamos “português brasileiro”. A língua evoluiu com os diferentes usos dos falantes, influenciada por vários idiomas e dialetos. A “língua de Camões”, chamada assim por causa do escritor Luis de Camões, é também dos habitantes de Angola, Cabo Verde, Guiné-bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e do Brasil, pois... Aguardamos a implementação da reforma ortográfica na Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP).

Glossário:
Descarga = autoclismo
Vaso sanitário = sanita
Carro conversível = descapotável
Cafezinho = bica
Café da manhã = pequeno-almoço
Ônibus = autocarro
Trem = comboio
Goleiro = guarda-redes
Legal = giro, fixe e porreiro
Cara = gajo
De graça = de borla
Bah = pah

junho 20, 2008

Vivendo e aprendendo


1. Há cada dia que passa aprendo um pouquinho mais deste mundo ocidental europeu. Há segurança por aqui, deixamos as roupas estendidas no varal no andar térreo, as janelas abertas, o carro estacionado na rua, não sentimos medo. Caminhamos pelas ruas sem segurarmos as bolsas junto ao corpo. Existem apenas uns "gatos" a observarem os turistas, certamente, para furtar os desavisados.
Nas estradas as pessoas transitam seguras. Quando há uma faixa de segurança (passadeira os caras chama por aqui) os motoristas param para as pessoas passarem. As pessoas parecem ser mais civilizadas (vamos ver até quando fico a pensar assim). Entra-se em um elevador e se diz "bom dia" e "boa tarde", quando cruzamos com as pessoas nos prédios também. Tratam-se jovens e velhos pelos pronomes de tratamento "senhor" e "senhora" e utiliza-se "vosso" quando não conhecemos bem quem estamos a tratar. Não digo que estas coisas que eu descrevo sirvam pra toda gente e nem quero generalizar os hábitos e costumes dos portugueses a partir de minhas considerações. Parto do princípio de que minhas descrições são impregnadas do meu ponto de vista e possuem o olhar do turista, do estrangeiro. Descrevo sem pretensão alguma, apenas quero entender o que nos difere destas pessoas.
Eles parecem ser mais reservados do que nós, realmente, e dão um valor incrível à língua portuguesa, à história, aos escritores, aos seus costumes e tradições. Acho isso verdadeiramente interessante.



2- Essa escultura da foto chama-se "homem-sol" e fica em frente ao Shopping Vasco da Gama. Eu não gosto de shoppings, mas este destaca-se entre os que já conheci, pois possui um teto solar com camada dupla de vidro por onde escorre água, criando uma atmosfera refrescante em seu interior. Esse shopping situa-se próximo à Estação do Oriente e ao Parque das Nações. Dizem que, por vezes, algumas gaivotas pousam no teto, deixando ainda mais marítimo o ambiente.
Falando em shopping, o mercado de consumo de Portugal, que é visto um país mais atrasado se comparado aos outros países da União Européia, é riquíssimo em opções. Lisboa é cosmopolita em todos os sentidos. Muitas lojas e shoppings, muitos serviços, opções a perder de vista. Se queremos comer em um bom restaurante, ver um filme, assistir a um concerto ou passear ao ar livre, podemos escolher.... Até ficamos perdidos, sem sabermos o que fazer. Há muitos concertos e exposições gratuitos. É fixe (legal)!

3- Ontem finalmente comi pastéis de Belém. São deliciosos. Comi os pastéis originais feitos na Pastelaria no Bairro Belém, fundada em 1837. Na região por onde eu caminhava ao final de tarde fica a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerônimos e o Centro Cultural de Belém (http://www.ccb.pt), o qual possui uma atmosfera incrível. Neste lugar de arquitetura minimalista que chama a atenção, fui assistir a um show de Jazz gratuito. Um alemão parecia ter um orgasmo a tocar o seu saxofone. Muito louco. O baterista é que era mais interessante (eles utilizam o adjetivo engraçado ao se referirem ao que é interessante, acreditem se quiserem).
No terraço deste Centro há um Jardim das Oliveiras com espelhos d´água, com uma relva (grama) verdinha, muito bonita, lugar propício para sentar e ler um bom livro.
Hoje à noite vou ao Bairro Chiado novamente. Ansiosa pelo o que me aguarda a noite...



A propósito
O português fala: "Quem é esse cromo?" Isso significa "quem é esta figura"?
Uma vitrine é uma "montra".
Uma xícara é uma chávena. Xícara é apenas aquela pequena de expresso. Aliás, um café com leite (metade de uma xícara) é pedido aqui: "uma meia de leite".
Não é "vou tomar uma ducha", é "vou tomar um duche", é masculino.
"Charcutaria" é aonde se vende os enchidos (embutidos), os queijos, as azeitonas, patês, salmão, essas coisas chiques de gourmet, isso nos supermercados.
O açougue é o "talho".
Puxar o "autoclismo" é puxar a "descarga"..ô meu parece que estamos falando de uma desgraça, um autoclismo..huahauahuahua.
"Apertar" um botão é "carregar um botão".
"Deitar" o lixo é "jogar o lixo fora".
"Chumbar um projeto" equivale a "não aprovar".
Quando eles atendem ao telefone dizem "To sim", equivale a "Alô", hauhauahauhauahua.


Saiba mais sobre a origem dos pastéis de Belém...
http://www.pasteisdebelem.pt

No inicio do Século XIX, em Belém, junto ao Mosteiro dos Jerónimos, laborava uma refinação de cana-de-açucar associada a um pequeno local de comércio variado.
Como consequência da revolução Liberal ocorrida em 1820, são em 1834 encerrados todos os conventos de Portugal, expulsando o clero e os trabalhadores.

Numa tentativa de sobrevivência, alguém do Mosteiro põe à venda nessa loja uns doces pastéis, rapidamente designados por "Pastéis de Belém".

Na época, a zona de Belém era distante da cidade de Lisboa e o percurso era assegurado por barcos de vapor. No entanto, a imponência do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém, atraíam os visitantes que depressa se habituaram a saborear os deliciosos pastéis originários do Mosteiro.

Em 1837, inicia-se o fabrico dos "Pastéis de Belém", em instalações anexas à refinação, segundo a antiga "receita secreta", oriunda do convento. Transmitida, e exclusivamente conhecida pelos mestres pasteleiros que fabricam artesanalmente na "Oficina do Segredo", este receita mantém-se igual até aos dias de hoje.

De facto, a única verdadeira fábrica dos "Pastéis de Belém" consegue, através de uma criteriosa escolha de ingredientes, proporcionar hoje, o paladar da antiga doçaria portuguesa.

junho 19, 2008

Não é apenas uma estação


A Estação do Oriente, idealizada pelo arquiteto Santiago Calatrava enche os olhos. Quem pega o comboio (trem), o metro (metrô) ou o um autocarro (ônibus) neste lugar deve sentir-se privilegiado. Ela foi concluída em 1998 para atender aos visitantes da Expo 98, fica próxima hoje ao Parque das Nações.
Em seus corredores nos sentimos em um cenário futurista...
Calatrava se inspira na natureza para fazer suas obras, essas parecem estalactites...

junho 17, 2008

Percepção





A percepção perpassa os cinco sentidos: a visão, a audição, o tato, o paladar e o olfato. Neste lugar especial chamado Azenhas do Mar, no litoral português, podia sentir o cheiro do mar e da vegetação, ouvia o ruído do mar, dos carros e de algumas abelhas, aparava as mãos na mureta e olhava abaixo a praia e ao longe as casas, uma visão que não se sabe bem o porquê aquieta o espírito.
Dá para sentir uma certa melancolia neste lugar, mesmo em meio à feliz combinação das cores da paisagem. Também sente-se uma alegria suave de poder contemplar e uma vontade de partilhar a vista com todas as pessoas que amamos. A percepção muda como as ondas do mar, parece uma vila perdida, destas onde os personagens de um filme chegam porque se perderam da estrada. Pergunto-me quem vive naquelas casas, qual a vista de suas janelas, se há crise na Europa para aquelas pessoas.
Sinto-me feliz por ter a percepção de que um momento pode ser único e especial na vida da gente. Ainda mais quando amamos.

junho 16, 2008

O desconhecido


Ontem, eu entrei na floresta de Sintra imaginando Lord Byron caminhando por aquelas trilhas a cruzar as montanhas. Muitos escritores se inspiraram em Sintra. Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) escreve em uma poesia "Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma. Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida..."
Foi por uma estrada destas que cruzei...essas da vida.
O peculiar microclima de Sintra remete-nos a um tempo remoto onde romanos e mouros aportaram por aquelas terras.
A vila de Sintra existe há milhares de anos. A serra foi habitada por romanos que a chamavam de "Mons lunae", ou montanhas da lua.
Dai a chamam de Monte da Lua... Será que era porque havia algo de muito especial, algo espetacular, fora do normal? Com uma fauna riquíssima, com raposas, toupeiras, e salamandras. Acalmem-se, não as vi. Com uma vegetação única e decorrência do clima temperado com influências oceânicas, abriga o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena, o Convento dos Capachos, o Palácio Nacional de Sintra e o Palácio de Monserrate.
Estonteante. Um cenário poético, a sensação intensa de que muitos povos passaram por ali.
Um domingo nublado que não passou à toa.

A propósito
A foto é minha.
Um português hoje contando uma história disse o seguinte, ao referir-se a um amigo jovem bêbado:
"o gajo abobadou-se, todo entornado o miúdo..."
segurei-me pra não rir.

junho 12, 2008

Nem tudo é perfeito



- Quando aportamos em um novo país deparamo-nos com outras realidades. Nos primeiros dias, ficamos a comparar as semelhanças e as diferenças com o nosso país e a fazer inúmeras reflexões. Quando falamos de uma cidade como Lisboa, capital de Portugal e pertencente à União Européia, há inúmeras coisas para escrever. Nesta semana, ouvi os noticiários no rádio e na televisão e surpreendi-me com a situação por vezes delicada que vivem os europeus. A alta do combustivel, dos alimentos, do transporte e a supremacia da economia a reger a vida das pessoas. Ninguém escapa da crise que está abatendo a Europa. Desde esta segunda-feira, os camionistas (como eles chamam os caminhoneiros) estavam paralisados por aqui. O movimento seguiu a greve dos caminhoneiros espanhóis e atingiu em cheio Portugal. Os portugueses assistiram atônitos um pesadelo: postos fechados por falta de combustível; filas quilométricas de carros nos postos que ainda funcionavam; supermercados com quebras de estoque. Imaginem todos os suprimentos que são distribuídos pelos caminhões por todas as cidades do país. E se a maioria deles parasse? Finalmente o governo consegue um acordo com os camionistas nesta quarta-feira e os portugueses respiram mais aliviados. Essa situação também reflete a fragilidade do sistema capitalista. O preço do combustivel está aumentando todos os dias e essa alta reflete-se no alto preço dos alimentos. Por sua vez os alimentos começam a servir como combustível – álcool (o milho teve uma alta de 50%). O que ocorrerá no futuro?

- E na última terça-feira era feriado aqui: dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Em Viana do Castelo (que recebeu este ano as comemorações), o presidente Cavaco Silva deu uma tremenda gafe em seu pronuncionamento. Questionado sobre a greve dos camionistas, Cavaco tentou desviar do assunto, assinalando acima de tudo "a raça", o "Dia da Raça". Essa expressão utilizada pelo presidente está em desuso desde o final do Estado Novo, o regime de Salazar. Com a intenção de dar moral ao povo, enaltecendo a raça, meteu os pés pelas mãos. Não são somente portugueses que constroem o país.

- Em uma semana, o país oscila entre a apreensão com a greve dos camionistas, a crítica em face ao pronunciamento do presidente e a euforia dos portugueses com os bons resultados da seleção no campeonato europeu (Euro 2008). Um show do treinador, o nosso Felipão (Felipe Scolari) que sairá da seleção, provavelmente, por cima da carne seca.

A propósito Aqui fala-se camião quando refere-se ao caminhão.
Um goleiro é um guarda-redes (!).
Um ônibus é um autocarro.
E quase todos os portugueses dizem "pá" antes de iniciarem as frases. “bah”...

junho 09, 2008

Primeiras impressões

Começo a escrever algumas impressões de Lisboa como uma estrangeira a observar um território novo por meio de um olhar particular, mais especificamente de uma brasileira nascida em Sobradinho, cidade pequena do interior do Rio Grande do Sul, e que viveu muitos anos em Porto Alegre.
Desembarquei em Lisboa no dia 7 de junho de 2008, por volta das 8h do horário local. A vista da cidade é belíssima, amarelo-alaranjada, observo o azul do mar, as praias, a arquitetura peculiar das construções, casas antigas, sítios belíssimos. É fácil de emocionar-se com a visão.
Aqui a palavra sítio designa lugar, portanto, é meu sítio que procuro por aqui.
Por ironia do destino no mesmo vôo em que eu estava também veio o cantor Roberto Leal, uma figura que eu assisti as suas apresentações na televisão, quando criança, e talvez possa dizer que foi minha primeira referência do que seria um português, além dos colonizadores e da família Real Portuguesa descritos nos livros de História. Roda, roda gira...
Também estava o Gilberto Gil que embarcou sem que ninguém o visse. Ministro da Cultura e músico amado pelos portugueses deve ter vindo a trabalho.
Ao passar pelo controle (alfândega) e esperar junto com a boiada de mais ou menos umas 200 pessoas para ter um carimbo no passaporte, obviamente, teria que ser premiada mais ainda depois disto. Nada é fácil e simples. Pediram para ver todas as minhas malas e finalmente me deixaram passar.
Quando se está sendo conduzido por algo muito maior, o amor, passa-se por qualquer coisa, tudo parece possível.
Afinal, após dois meses de preparação, estava eu dentro do aeroporto, em território português, com o livre arbítrio de viver ao lado do meu amor durante pelo menos três meses, levando em conta o visto de turista.
Tudo aqui, à primeira vista, parece muito organizado e bonito. A vista da praia de Oeiras e da margem do Rio Tejo, o que pude ver até o momento, são estonteantes. No bairro Alto os bares nas ruelas estreitas recebem turistas de várias partes do mundo. Tomamos cerveja da marca Sagres e vemos muito turistas do norte da Europa que vêm a Lisboa no verão para curtir. E como há opções para curtir, é só escolher.
Lojas de roupas alternativas abertas à noite para os turistas comprarem, "tascas" (bares) simples e rebuscados, gente de todo lugar.
Nas cidades periféricas de Lisboa, a tranquilidade para deixar o carro estacionado na rua, sem medo. Também não há violência e nem barulho. É periferia, como se fosse Canoas ou Viamão em relação à cidade de Porto Alegre. Imagine uma cidade de Canoas onde as pessoas podem estacionar os carros na calçada à noite sem se preocupar, consegues pensar nisto? Estou vivendo num lugar assim.
Bem por hoje é só.

Palavra do dia:
Aqui quando uma coisa é saborosa diz-se: "Sabe bem", sabe de sabor, acredite se quiser!

Saudações

Larissa

maio 29, 2008

A dama de vermelho


Entrei em uma loja de departamentos
no shopping com o intuito de comprar o vestido que eu usaria em nosso primeiro encontro, pensando que seria a roupa especial que ficaria marcada no imaginário dele para o resto de sua vida. Pensei em uma cor que seria apropriada. Levando em conta o meu gosto marcante, ansiava por vermelho. Comecei a olhar as roupas expostas nos cabides, procurando pela cor, nada que me atraísse de fato. Estava já há alguns minutos garimpando, nada me chamava à atenção. Quase estava desistindo quando... lá estava ele, o vestido vermelho, em meio a algumas roupas bregas e sem graça. O vestido era abotoado de cima a baixo... com uma gola meio anos 60, o tecido delicado, próprio para a ocasião: broderi. Eu disse: "é este!".
Fui até o provador, experimentei, perfeito, foi costurado exatamente para as minhas medidas. Sai do vestuário contente, passei no caixa e sai orgulhosa da loja. Cheguei em casa e tirei da sacola o bendito vestido e coloquei-o estendido em cima da cama. Vesti-o, e andei suspirando pela sala. Calcei uma sandália dourada de tirinhas finas que comprara outro dia, olhei-me no espelho, pensei: acho que impressiona.
No dia em que nos encontramos no aeroporto Salgado Filho, depois de longos meses à espera daquele momento, com os cabelos penteados, maquiada, unhas vermelhas, levemente perfumada, uma bolsa de crochê a tira colo. Por onde andava, despertava a atenção e seguia meu passo confiante.
Meu coração estava a mil há algumas horas. Quando deixei minhas malas no hotel, já não agüentava a ansiedade pela espera. Perto do portão de desembarque, eu pensava em inúmeras coisas ao mesmo tempo. E se ele não gostar de mim? E se eu não gostar dele? E se tudo o que pensamos não se concretizar de fato? Será que nossas conversas na internet, nossas inúmeras cartas de amor nos poderiam causar uma bela de uma cilada? Se o que ele demonstrou ser não for real? Quem será a pessoa que eu estou a um passo de conhecer? Pensando em tudo isso e mais um pouco, olhava intrigada para os passantes para ver se alguém percebia o quanto estava sem jeito, me centrei e olhei para o painel, estava no horário de chegada do vôo.
Meu coração batia aceleradamente quando vi que o avião já havia aterrissado e ele estava em solo gaúcho. Pensei que ele se sentiria perdido no primeiro momento e muito cansado. Imaginei se ele iria me tocar, se tentaria me beijar, se nos abraçaríamos como falávamos nas cartas e nos papos do MSN ou do Skype. Imaginei aquele homem que eu via apenas pela webcam e pensei que finalmente veria a sua expressão, poderia sentir a pele, o cheiro...o gosto do beijo.
“Nossa, agora segura o coração”, pensei. Então, vejo um outro homem saindo do desembarque e sua mulher emocionada abraçando-o e beijando-o carinhosamente. Suspiros.
Aguardei mais um pouco. E, então, vejo o meu homem descer as escadas rolantes e buscar suas malas na esteira. O coração acelera. Ainda está atrás dos vidros, não posso ver muito bem. Ele está junto de muitos outros num verdadeiro aquário de viajantes. Ele não me vê, mas meu coração quase sai pela boca. Sinto um calafrio, nervosa, sem jeito. Lá vem ele, saindo da porta, que loucura isso tudo, penso eu, ele viajou tanto para estar aqui. Se a cena fosse de filme, acelerado estaria apenas meu coração, as imagens seriam em câmera lenta e a trilha com certeza seria Green Grass, da Cibelle. A primeira impressão: ele é baixo, já tinha me dito que era, e magro, parece estar cansado, de fato, muitas horas de vôo, Lisboa-Porto Alegre, mas deve estar ansioso como eu. Ele me procura, estou ao fundo, atrás de tantas pessoas, mas somente vejo ele a partir daquele instante, tudo pára. Continua os seus passos, vira-se em minha direção, e me vê. Pára e me lança aquele sorriso que já conheço bem. Vou ao encontro dele, caminho suavemente e sorrindo em sua direção, um percurso breve no tempo cronológico, dos mortais, mas longo e inesquecível para nós dois.
E então nos abraçamos, como falávamos, por alguns segundos, ele me olha nos olhos e me chama pelo nome completo. Desajeitados, sorrimos muito... Começo a falar meio nervosa, pergunto como foi a viagem, se ele está bem e ele responde que sim. Saímos caminhando, tentando acertar os passos, meio atônitos e ele propõe de nos sentarmos em um café no saguão do aeroporto. Fico olhando aquele homem em minha frente, é ele... não acredito...
“Que loucura”, ele diz. “Tu és linda, muito linda”. Toca em meu rosto, fico sem palavras. O toque. Nos olhamos profundamente. Já nos conhecíamos. Aquele encontro físico era apenas o reconhecimento. Sabíamos muitas coisas um do outro e sentíamos algo inexplicável: simplesmente mágico. Ele parecia um guri com seus 47 anos, eu sempre fui uma guria, agora aos meus 28. Ríamos e tentávamos falar algumas coisas, mas nada tinha muita importância, o que nos interessava era ver-nos assim, frente a frente, tendo um ao outro, podendo abraçar o mundo juntos... a sensação que sempre esteve presente dentro de nós e acreditávamos poder compartilhar um dia.
Ele tinha-me no reflexo de seus olhos, no fundo deles estava o vermelho marcante de meu vestido. O verde dos olhos dele penetrava os meus enquanto minha alma estava exposta na mesa daquele café. Eu dizia tantas coisas com meus olhos, não precisava mais nenhum discurso. Não tinha mais um computador entre nós e 12 mil quilômetros não nos separavam mais, por alguns dias. Ele roubou-me um beijo no rosto e encontramos nossos lábios, um toque fugidio, mas sinto que ficamos perdidos naquele longo instante. Um breve momento que selava as palavras trocadas nas cartas, as noites longas em sintonia, afastava o medo e a ansiedade e dava-nos certeza de que o sonho era real.
Saímos naturalmente abraçados do aeroporto, como um casal que se reencontrava. Sentia-me um pouco envergonhada, ele também, creio eu. Ao aguardar o táxi, pensava no que ele tinha achado do meu vestido vermelho. Espontaneamente, perguntei-lhe: gostaste do visual que escolhi para te esperar? Ele disse: “Estás linda, és a minha dama de vermelho!”

maio 22, 2008

Um brinde...



Um brinde à despedida do Brasil...

Grandes amigos que sentirei muitas saudades!

maio 12, 2008

Sonho real

Hoje eu quero apenas agradecer ao Universo por ter colocado Dagoberto em meu caminho.

...Estou vivendo um sonho real...


Sonho Real - Lô Borges / Ronaldo Bastos

A primeira vista
A paixão não tem defesa
Tem de ser um grande artista
Pra querer se segurar
Faz tremer a perna
Faz a bela virar fera
Quando alguém que a gente espera
Quer se chegar
Só de pensar
Já me faz mais feliz
Nem bem o amor começa
Eu já quero bis
Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .
Ilusão tão boa
Quanto o astral de uma pessoa
Chega junto, roça a pele
E já quer se enroscar
Lê seu pensamento
Paralisa seu momento
Ao se encostar
Sonho real faz surpresa pra mim
e transe o meu destino com alguém assim
Chega e instala a beleza
No mesmo momento...
Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do seu lado
Tem alguém afim
Chega e instala a beleza
Momento de sonho real
Vem andar comigo
Numa beira de estrada
Desse lado ensolarado
Que eu achei pra caminhar
Vem meu anjo torto
Abusar do meu conforto
Ser meu bem em cada porto
Que eu ancorar
Sonho real faz surpresa pra mim
e transe o meu destino com alguém assim
Chega e instala a beleza
Momento de sonho real

maio 06, 2008

O absurdo

As palavras não dizem muito.
É que não há nenhum verso bem colocado que dê conta do que eu tenho calado. Pois os versos são compostos de palavras, linguagem articulada, apenas discurso. Mas, diga-se de passagem, são apenas versos em face à vida. Não mostram o olhar, não trazem o suspiro, nem arrefecem o coração apertado. Nem demonstram a expressão de um contentamento descontente, como diria o poeta consagrado.
Quisera eu apunhalar essa linguagem, na ânsia de expressar algo que transpõe o entendimento. Seria uma mulher de sorte. Mas as frases de uma sintaxe quase perfeita são compostas de palavras viscosas que escorrem pelas mãos. Ao diabo, os vocábulos.
Eu quero sorrisos e lágrimas escorrendo do papel. Não é preciso sangue não, isso eu deixo por conta das notícias nos jornais. Com desgraças diárias, a humanidade nem fica mais estarrecida.
Eu queria ver manchetes de enchentes de sentimentos e terremotos de êxtase coletivo. Uma bomba de LSD. Mas sempre vou desligar a televisão, vendo a entrevista do último bloco idiota do Jornal Nacional, enquanto milhares de pessoas morrem em Mianmar. E ler “Carta a D. – História de um amor”, do filósofo André Gorz, pra continuar acreditando na possibilidade de alguém que ama até o fim de seus dias nesse mundo insensato. Mais de sonhos do que de realidade que se vive. Ainda bem. Porque é preciso muita imaginação.
Não há crônica ensaiada que consiga expressar a dor diante de tanto descaso. Nem para dizer que eu não suporto mais ouvir promessas, de saneamento, habitação, saúde, cultura e educação, dignidade ao povo que luta, enquanto a cada dia estoura a manchete de mais um golpe no bolso do ordinário contribuinte. A gente não cuida do que é nosso, por direito, público. Pagamos impostos e não vemos retorno. Pagamos escola, plano de saúde e de previdência. Pagamos o caixão.
É verdade que as palavras tentam dizer...
Mas, ao final, podem não significar nada e sustentar apenas mais um discurso em face do absurdo.

março 26, 2008

Gente cri-cri é um porre

Tem perfis pra todo gosto, mas não há nada mais chato do que pessoas “cri-cri”. São aquelas que querem tudo especificado tim-tim por tim-tim, com vírgulas e ponto-e-vírgulas, sem esquecer dos acentos, é claro. Mas não estou falando de quem venera a nossa bela e rebuscada língua portuguesa, estou me referindo às pessoas chatas que existem aos montes em nosso cotidiano. Aqueles que gostam de complicar por puro prazer. Essa gente antipática costuma ter o nariz torto e um olhar incisivo que nos fulmina se falarmos algo que seja fora do padrão estabelecido. Pessoas engessadas, com a cabeça presa em modelos, costumam ficar “fora da casinha” com as mudanças. O sujeito “cri-cri” ao se deparar com um “moderno” sedutor pode sentir que o seu padrão de normalidade sofreu um “tilte”. Então, o cara engessado pode mostrar suas facetas escondidas e soltar as amarras (ou as penas) ou simplesmente adotar o posicionamento de tachar os “anormais”, utilizando alguma explicação que leu em algum livro, quase sempre de ordem científica.
No trabalho, é aquela pessoa exigente ao extremo, que implica com os procedimentos, planeja e calcula tudo, mas extrapola nos “poréns” e “entretantos”, pois deseja que tudo esteja especificado. Tem que ser “assim e assado”, senão não dá, emperra o processo... É aquele chato que sempre cria uma nova regra para segui-la e exigir o mesmo comportamento dos outros. Essa gente detona com o crescimento do Brasil, pois adora uma boa burocracia. A maior parte das pessoas “cri-cri” não possui perfil empreendedor, pois detesta inovação, não arrisca, resumindo, não tem cacife para dar “peitaço” na vida. Os caras não conseguem rir de uma piada e nem falar sobre a vida pessoal no trabalho, tem que ser tudo “dentro dos conformes”, de preferência, formal e pomposo.
Quem não topou com alguém assim um dia? Acho que o maior desafio para essas pessoas deve ser compreender que a vida necessita de um pouco mais de leveza, senão podemos acabar adoecendo prematuramente. Isso se não conseguirmos nos livrar de nossas próprias amarras e do exagero de exigências.

março 06, 2008

Cai do salto

Na ansiedade de chegar ao trabalho, a gente caminha sem prestar atenção aonde pisa. Sem falar que não observamos quem está ao nosso redor, sejam mendigos nas calçadas, operários, donas de casa, profissionais liberais ou ricos passando em seus carros luxuosos. Seguimos nosso caminho como cavalos que andam com viseira, estupidificados, engolindo escândalos e injustiças diariamente. O tempo urge, sem dó nem piedade aos nossos anseios e preocupações. Mas o caminho ao trabalho, que parece tão conhecido por nós, algumas vezes pode nos apresentar algumas surpresas.
Costumo olhar aonde piso e para os lados, inclusive observo os buracos e as imperfeições das calçadas para não afundar meu salto. Mas na manhã daquela segunda-feira, mesmo que tivesse olhado as pedras da calçada e até mesmo contado por quantas pedras passei, seguindo aquela mania obsessivo-compulsiva de passar o tempo, não faria nenhuma diferença.
Literalmente, eu cai do salto. Meu salto do pé direito quebrou por inteiro, sem se preocupar se iria me despentear, borrar meu make-up ou desmontar o meu visual "pseudo-bem-sucedida". Nada interessava ao meu salto, nem meus compromissos à espera de uma resolução, nem as ligações que não podia esquecer de fazer, muito menos meu coração afoito e louco para suspirar por causas mais interessantes. Ele não podia aguardar, precisava descolar e desabafar sua tristeza de ter que carregar o meu corpo cansado.
Minha primeira reação foi como a de uma princesa à espera do belo príncipe, obviamente parecia tão ridícula quanto os olhares e risos disfarçados que recebia dos transeuntes. Naquela cena tragicômica, eu ficava vermelha, bege e pálida, em dégradé, em uma fração de 30 segundos. Tive ímpetos de gargalhar e deixar a máscara cair e se estilhaçar na calçada, cair como o bêbado e largar essa vida de responsabilidades, mas lembrei-me das contas no final do mês e desarmei rapidamente minha mente insana e literária.
Olhei para os lados, nenhum príncipe disposto a me ajudar. Liguei para o taxista: – Fernando, vem me buscar, estou perto da Farmácia Hamburguesa, vais me achar, estou sem salto. Desliguei o telefone e ri freneticamente. Desabafei todo o estresse naquele instante. Pensei, uma cena hilária, com todos os componentes necessários para um roteiro de Woody Allen.
Cai do salto, mas não deixei a peteca cair. Como o show que deve continuar mesmo depois da terrível gafe do artista, peguei o táxi e entrei triunfante no trabalho, pedindo auxílio para o segurança.
A vida continua com suas demandas, a correria e a reclamação diária de que resta-nos pouco tempo para resolvermos tantas situações e muito menos para refletirmos sobre elas. Muitas "saias justas" ao longo do dia, mas nada que me faça acreditar que possa, realmente, "cair do salto" na vida. É que deste salto, o da vida, a gente pelo menos sustenta diariamente de que dispõe de algum controle. Isso até cairmos na próxima calçada.

janeiro 28, 2008

Glory box

Essa canção me emociona sempre, interpretação da Beth Gibbons é impressionante!

Glory Box
#Portishead#

I'm so tired of playing,
Playing with this bow and arrow,
Gonna give my heart away,
Leave it to the other girls to play.
For I've been a tempteress too long,
CHORUS:
Just...
Give me a reason to love you,
Give me a reason to be a woman,
I just want to be a woman
From this time unchained,
We're all looking at a different picture,
Through this new frame of mind,
A thousand flowers could bloom,
Move over and give us some room
CHORUS
So don't you stop being a man,
Just take a little look from outside when you can,
Sow a little tenderness,
No matter if you cry
CHORUS
{Its all I want to be, a woman},
So I just want to be a woman,
For this is the beginning of forever and ever,
Its time to move over now,
(So I want to be)
{Back to start again and fades}


Portishead - Glory Box (tradução)
Caixa de glória
Eu estou tão cansada de brincar
brincar com este arco e flecha
vou dar meu coração por ai
deixar isto para outras garotas brincarem
por eu ter sido tentada por tanto tempo.
apenas
me dê uma razão para te amar
me dê uma razão para ser uma mulher
eu quero apenas ser uma mulher
a partir de agora desacorrentada
todos nós estamos olhando uma imagem diferente
através desta nova moldura da mente
milhares de flores poderiam florescer,
se mudar, e nos dar algum espaço
então não pare de ser um homem,
apenas dê uma olhadinha de fora quando você puder,
semeie um pouco de ternura
não há nenhum problema se você chorar.
isto e tudo que eu quero ser, uma mulher
entao eu apenas quero ser uma mulher,
por isso, é o começo de todo o sempre.
é hora de superar agora.
(então eu quero ser)

janeiro 24, 2008

Tumulto interior

"O ritmo cotidiano mudará para sempre, e é justamente por isso que as coisas tendem a ficar bagunçadas e tumultuadas atualmente. Tente se despreocupar a esse respeito, permitindo uma dose maior de perturbação do que a habitual", meu signo hoje, dizia isso.

Quero escolher o destino do meu barco à vela.

Assustada com as propostas da vida, mas com muitas expectativas.

So, let´s go!!!

janeiro 15, 2008

O sistema e a flor

O Sistema e a flor

É preciso ser a cada dia mais compenetrado em seus afazeres, menos distraído.
É preciso olhar para os transeuntes nas ruas e continuar caminhando, sentar no ônibus do lado de pessoas aparentemente interessantes e não puxar assunto, passar pela avenida e não parar e conversar com o mendigo na calçada.
Não podemos deixar a vida passar por nós sem que nos demos conta de seus movimentos.
Mas é preciso viver cada dia como se fosse o último de nossas vidas. Somos tão atarefados que as datas passam voando, nos deixamos entorpecer pelo cotidiano, embrutecer pelas atividades rotineiras.
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Todo dia acordo 6h da manhã, tomo um copo d´água, vou ao banheiro, lavo o rosto, entro no banho e deixo a água bater nas costas, acordo lentamente, me seco rapidamente, passo protetor solar no corpo, visto meu uniforme, vou até a cozinha e coloco a cafeteira italiana passar um café forte e intenso, penteio os cabelos, ligo o rádio pra escutar a Itapema FM, como um sanduíche raramente, quase sempre levo um lanche, visto as meias, o sapato de salto, não esquecendo a bolsa, a chave, o óculos, o dinheiro, a pasta, etc.
Água, "não esquece de pegar a garrafinha".
Pega a leitura passatempo, embora já saiba que não vai dar tempo.
Desço as escadas do meu edifício, rapidinho, toc toc toc, estou na parada de ônibus às 7h10min, o bus passa as 7h20min. Pego o bus, chego no trabalho por volta de 7h40min. Caminho lentamente.
Passo todos os dias por uma praça e observo as pessoas sentadas tranquilas, aquelas que gostariam de estar no meu lugar, com um emprego, outras esperando passar o horário para algum compromisso, sempre faço uma oração nesse percurso.
É estranho, mas parece o momento de mais tranquilidade que eu tenho. Nesse momento, peço pra Deus me iluminar durante o meu dia... Que eu consiga desenvolver minhas atividades com competência e rezo pelos amores da minha vida, minha família e meus amigos.
Mas então, depois da oração, chego no trabalho, vou ao banheiro me maquiar, rapidinho. Maquiar a "máscara profissional", a que deve ser usada durante todo o dia. Ligo o computador e começo a trabalhar, até às 11h30min. Almoço tranquilo... comida natural...bem bom...tomo café, leio o jornal, retorno ao trabalho até às 18h. Demandas passíveis de resolução durante todo o percurso. Sou compenetrada, procuro não me distrair até esse momento, em que pego o ônibus e retorno para a cidade onde moro. Chego em casa por volta das 19h/19h30min. Ai a compenetração vai pro ar, penso em tanta coisa, desde o momento em que tiro os meus sapatos e me dou conta de que estou sozinha.
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Se embrutecer é fácil, muito rápido. Acredito que o sistema se perpetua por esse motivo. Por nos deixarmos absorver por rotinas, por necessidades de horários e prazos, nos tornamos reféns de nós mesmos, e precisamos nos alimentar, nos vestir, e nos divertir... e conseguir, ainda, de alguma forma desopilar do sistema. Mas não desopilamos totalmente, somos reféns do sustento.
O que penso, nos momentos de mais ânimo, sentada no meu sofá, sozinha, é que é preciso muita criatividade para viver bem, não deixar-se abater pelos movimentos existenciais, por acreditar que é possível um mundo diferente, que é possível olhar para o entorno e se sensibilizar com o mendigo, puxar assunto, dar um olhar de solidariedade, conversar com o operário no ônibus, ter uma boa relação com a mulher que serve cafezinhos e tentar ser humana, mas, mesmo assim, ter consciência de que não passo de uma burguesa, com uma bela carinha, e as minhas preocupações não são nada diante da dura realidade de luta diária que vivem essas pessoas.
...Talvez elas sejam mais felizes do que eu...
Se não tenho como deixar de fazer parte do sistema, afinal, não temos escolha, então tento fazer parte dele da melhor forma que eu posso (jura que a minha consciência serve de alguma coisa, a não ser para me deixar um pouco mais tranquila comigo mesma).
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No meio disso tudo, tem uns momentos em que nos damos conta do que queremos da vida, e nos dá um insight, por vezes irritante e avassalador, que nos deixa totalmente perplexos, são os momentos epifânicos.
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..........É naquele instante em que olhei para a flor no vaso, ao lado do sofá, em cima da mesinha de centro, que tive a certeza de que logo terei uma vida mais tranquila, onde possa ser artista em meio ao esforço de sobrevivência, foi naquela hora em que observei as pétalas da flor que colhi no jardim alheio, que tive certeza de que ainda estou criando a minha flor, colocando pétala por pétala, uma descontrução ao reverso, ao invés de fazer um "bem-me-quer, mal-me-quer", tenho feito um "bem-me-quero, mal-me-quero", e quando mudar para um "bem-te-quero e mal-te-quero, será que irá mudar muita coisa de fato, talvez não, mas se "bem-me-quiser", por completo, talvez possa realmente fazer alguém feliz.......
Afinal, será que pode ser feliz quem conhece a si mesmo e às suas imperfeições?
E desliguei a luz e fui dormir...
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Bem, a flor continua lá, viva, apontando a possibilidade de uma vida com qualidade e criatividade...

Eu estou aqui, sentada, esperando terminar o expediente, e pegar o ônibus para voltar pra casa...

Quem sabe eu não olhe pra ela quando eu voltar pra casa...
Quem sabe ela não olhe pra mim e diga... "que menina que pensa..."
Ouvindo as vozes da consciência...

;-)...
Lari Lari

.............e a Cecília sempre me deixa assim, perplexa...................

É preciso não esquecer nada
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles (1962)

janeiro 11, 2008

Songs of heart

Algumas músicas que nos remetem a momentos vividos, nem sempre bons de lembrar...
Mas é tão bom sonhar... e sonhar embalada em canções.
Lembro de aromas, de alguns toques suaves, de respostas bruscas, de momentos simples, complicados, alguns incompreensíveis e outros repletos de sentido.

O que sinto...

...sinto a intensidade da vida e o medo das escolhas...

Cartola - O Mundo é Um Moinho Cartola

Ainda é cedo amor
Mal começastes a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés


...sou sensível e me surpreendo comigo mesma...

"Avesso "- Jorge Vercilo

(...) Nós já temos encontro marcado
Eu só não sei quando
Se daqui a dois dias
Se daqui a mil anos
Com dois canos pra mim apontados
Ousaria te olhar, ousaria te ver
Num insuspeitável bar, pra decência não nos ver
Perigoso é te amar, doloroso querer
Somos homens pra saber o que é melhor pra nós
O desejo a nos punir, só porque somos iguais
A Idade Média é aqui
Mesmo que me arranquem o sexo, minha honra, meu prazer
Te amar eu ousaria
E você, o que fará se esse orgulho nos perder? (...)

...ainda sinto muito...

Coldplay - The Scientist

Come up to meet you, tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find you, tell you I need you
And tell you I set you apart
Tell me your secrets, and ask me your questions
Oh let's go back to the start
Running in circles, coming up tails
Heads on a silence apart
Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start
I was just guessing at numbers and figures
Pulling the puzzles apart.
Questions of science, science and progress
Don't speak as loud as my heart.
So tell me you love me, come back and haunt me,
Oh, when I rush to the start
Running in circles, chasing in tails
coming back as we are.
Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy.
No one ever said it would be so hard
I'm going back to the start.
Ooooohhhhhhh [x4]

Tradução (do que não aconteceu):

Vim pra lhe encontrar,
Dizer que sinto muito,
Você não sabe o quão amável você é
Tenho que lhe achar,
Dizer que preciso de você,
Dizer que a abandonei
Conte-me seus segredos
Faça-me suas perguntas
Oh, vamos voltar pro começo
Correndo em círculos,
Surgindo as caudas,
Cabeças num separado silêncio
Ninguém disse que era fácil,
É tão vergonhoso pra nós nos separarmos
Ninguém disse que era fácil,
Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim

Oh, me leve de volta pro começo...
Eu só estava pensando
Em números e figuras,

Rejeitando seus quebra-cabeças

Questões da ciência,
Ciência e progresso
Não falam tão alto quanto meu coração

Diga-me que me ama,
Volte e me assombre

Oh, quando eu corro pro começo
Correndo em círculos,
Perseguindo nossas caudas
Voltando a ser como éramos

Ninguém disse que era fácil,
É tão vergonhoso pra nós nos separarmos
Ninguém disse que era fácil,

Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim

eu estou indo de volta para o começo...


...mas sinto uma esperança...

O Sol Nascerá (Cartola) ;-)

A sorrir
Eu pretendo levar a vida,
Pois chorando
Eu vi a mocidade perdida.
A sorrir
Eu pretendo levar a vida,
Pois chorando
Eu vi a mocidade perdida.
Finda a tempestade
O sol nascerá,
Finda esta saudade
Hei de ter outro alguém para amar.

É...viva as canções, elas dizem tudo!