janeiro 15, 2008

O sistema e a flor

O Sistema e a flor

É preciso ser a cada dia mais compenetrado em seus afazeres, menos distraído.
É preciso olhar para os transeuntes nas ruas e continuar caminhando, sentar no ônibus do lado de pessoas aparentemente interessantes e não puxar assunto, passar pela avenida e não parar e conversar com o mendigo na calçada.
Não podemos deixar a vida passar por nós sem que nos demos conta de seus movimentos.
Mas é preciso viver cada dia como se fosse o último de nossas vidas. Somos tão atarefados que as datas passam voando, nos deixamos entorpecer pelo cotidiano, embrutecer pelas atividades rotineiras.
###############################
Todo dia acordo 6h da manhã, tomo um copo d´água, vou ao banheiro, lavo o rosto, entro no banho e deixo a água bater nas costas, acordo lentamente, me seco rapidamente, passo protetor solar no corpo, visto meu uniforme, vou até a cozinha e coloco a cafeteira italiana passar um café forte e intenso, penteio os cabelos, ligo o rádio pra escutar a Itapema FM, como um sanduíche raramente, quase sempre levo um lanche, visto as meias, o sapato de salto, não esquecendo a bolsa, a chave, o óculos, o dinheiro, a pasta, etc.
Água, "não esquece de pegar a garrafinha".
Pega a leitura passatempo, embora já saiba que não vai dar tempo.
Desço as escadas do meu edifício, rapidinho, toc toc toc, estou na parada de ônibus às 7h10min, o bus passa as 7h20min. Pego o bus, chego no trabalho por volta de 7h40min. Caminho lentamente.
Passo todos os dias por uma praça e observo as pessoas sentadas tranquilas, aquelas que gostariam de estar no meu lugar, com um emprego, outras esperando passar o horário para algum compromisso, sempre faço uma oração nesse percurso.
É estranho, mas parece o momento de mais tranquilidade que eu tenho. Nesse momento, peço pra Deus me iluminar durante o meu dia... Que eu consiga desenvolver minhas atividades com competência e rezo pelos amores da minha vida, minha família e meus amigos.
Mas então, depois da oração, chego no trabalho, vou ao banheiro me maquiar, rapidinho. Maquiar a "máscara profissional", a que deve ser usada durante todo o dia. Ligo o computador e começo a trabalhar, até às 11h30min. Almoço tranquilo... comida natural...bem bom...tomo café, leio o jornal, retorno ao trabalho até às 18h. Demandas passíveis de resolução durante todo o percurso. Sou compenetrada, procuro não me distrair até esse momento, em que pego o ônibus e retorno para a cidade onde moro. Chego em casa por volta das 19h/19h30min. Ai a compenetração vai pro ar, penso em tanta coisa, desde o momento em que tiro os meus sapatos e me dou conta de que estou sozinha.
####################################
Se embrutecer é fácil, muito rápido. Acredito que o sistema se perpetua por esse motivo. Por nos deixarmos absorver por rotinas, por necessidades de horários e prazos, nos tornamos reféns de nós mesmos, e precisamos nos alimentar, nos vestir, e nos divertir... e conseguir, ainda, de alguma forma desopilar do sistema. Mas não desopilamos totalmente, somos reféns do sustento.
O que penso, nos momentos de mais ânimo, sentada no meu sofá, sozinha, é que é preciso muita criatividade para viver bem, não deixar-se abater pelos movimentos existenciais, por acreditar que é possível um mundo diferente, que é possível olhar para o entorno e se sensibilizar com o mendigo, puxar assunto, dar um olhar de solidariedade, conversar com o operário no ônibus, ter uma boa relação com a mulher que serve cafezinhos e tentar ser humana, mas, mesmo assim, ter consciência de que não passo de uma burguesa, com uma bela carinha, e as minhas preocupações não são nada diante da dura realidade de luta diária que vivem essas pessoas.
...Talvez elas sejam mais felizes do que eu...
Se não tenho como deixar de fazer parte do sistema, afinal, não temos escolha, então tento fazer parte dele da melhor forma que eu posso (jura que a minha consciência serve de alguma coisa, a não ser para me deixar um pouco mais tranquila comigo mesma).
#################################
No meio disso tudo, tem uns momentos em que nos damos conta do que queremos da vida, e nos dá um insight, por vezes irritante e avassalador, que nos deixa totalmente perplexos, são os momentos epifânicos.
################################
..........É naquele instante em que olhei para a flor no vaso, ao lado do sofá, em cima da mesinha de centro, que tive a certeza de que logo terei uma vida mais tranquila, onde possa ser artista em meio ao esforço de sobrevivência, foi naquela hora em que observei as pétalas da flor que colhi no jardim alheio, que tive certeza de que ainda estou criando a minha flor, colocando pétala por pétala, uma descontrução ao reverso, ao invés de fazer um "bem-me-quer, mal-me-quer", tenho feito um "bem-me-quero, mal-me-quero", e quando mudar para um "bem-te-quero e mal-te-quero, será que irá mudar muita coisa de fato, talvez não, mas se "bem-me-quiser", por completo, talvez possa realmente fazer alguém feliz.......
Afinal, será que pode ser feliz quem conhece a si mesmo e às suas imperfeições?
E desliguei a luz e fui dormir...
#################################
Bem, a flor continua lá, viva, apontando a possibilidade de uma vida com qualidade e criatividade...

Eu estou aqui, sentada, esperando terminar o expediente, e pegar o ônibus para voltar pra casa...

Quem sabe eu não olhe pra ela quando eu voltar pra casa...
Quem sabe ela não olhe pra mim e diga... "que menina que pensa..."
Ouvindo as vozes da consciência...

;-)...
Lari Lari

.............e a Cecília sempre me deixa assim, perplexa...................

É preciso não esquecer nada
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles (1962)

Sem comentários: