janeiro 03, 2008

Porto seguro

"Se o homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável" - Sêneca.

Faz tempo que eu vôo sobre os oceanos. Algumas vezes tenho coragem e mergulho até o fundo. Encontro seres misteriosos, quase desconhecidos pela humanidade.
Tem horas que só que o que eu quero é observar tudo do alto da montanha, sentir o sol e o vento batendo no corpo. Também gosto de voar por sobre os campos, observar as flores, subir nas árvores e sentir o gosto das frutas. Já vi muitas paisagens e viajei por lugares inimagináveis.
Porém, é na água onde passo a maior parte do meu tempo. Água abundante e densa do mar que esconde em sua profundeza muitas confidências humanas.
É lá onde guardo minhas dores, meus anseios, minha angústia, minha solidão. Todos sentimentos vãos. Todos na água do mar. Diluídos, eles formam conjuntamente uma substância viscosa azul-esverdeada, com uma textura vegetal, quase travestida de alga, que tinge os corais.
É lá onde o "devir" acontece. O desejo de tornar-se outra. Mesmo que as águas continuem as mesmas, as ondas impulsionam um movimento. Impossível fugir.
Mas quando não se sabe em que porto atracar, ficamos buscando desculpas, subterfúgios para continuar nadando, à deriva ou observando a costa e as gaivotas alçando vôos espetaculares.
Assim, prefiro fica olhando as gaivotas, sentindo o sol batendo na cara, do que sair desse mar convulso de sentimentos.
Tudo porque não sei a que porto me dirijo. Juro que se soubesse já tinha atracado o meu barco.
Acho que o cansaço está batendo, melhor aceitar um barco à vela e deixar o vento me levar, pois quem sabe ele me conduza para o melhor caminho. Será que o vento será generoso comigo e me levará ao encontro do porto? Por enquanto, não tenho barco. Tenho me afogado constantemente. Quem sabe um dia ainda me torne uma grande mergulhadora.


P.S.:
Devir é um conceito filosófico que qualifica a mudança constante, a perenidade de algo ou alguém. Surgiu primeiro em Heráclito e em seus seguidores; o devir é exemplificado pelas águas de um rio, “que continua o mesmo, a despeito de suas águas continuamente mudarem.” Devir é o desejo de tornar-se.

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