março 06, 2008

Cai do salto

Na ansiedade de chegar ao trabalho, a gente caminha sem prestar atenção aonde pisa. Sem falar que não observamos quem está ao nosso redor, sejam mendigos nas calçadas, operários, donas de casa, profissionais liberais ou ricos passando em seus carros luxuosos. Seguimos nosso caminho como cavalos que andam com viseira, estupidificados, engolindo escândalos e injustiças diariamente. O tempo urge, sem dó nem piedade aos nossos anseios e preocupações. Mas o caminho ao trabalho, que parece tão conhecido por nós, algumas vezes pode nos apresentar algumas surpresas.
Costumo olhar aonde piso e para os lados, inclusive observo os buracos e as imperfeições das calçadas para não afundar meu salto. Mas na manhã daquela segunda-feira, mesmo que tivesse olhado as pedras da calçada e até mesmo contado por quantas pedras passei, seguindo aquela mania obsessivo-compulsiva de passar o tempo, não faria nenhuma diferença.
Literalmente, eu cai do salto. Meu salto do pé direito quebrou por inteiro, sem se preocupar se iria me despentear, borrar meu make-up ou desmontar o meu visual "pseudo-bem-sucedida". Nada interessava ao meu salto, nem meus compromissos à espera de uma resolução, nem as ligações que não podia esquecer de fazer, muito menos meu coração afoito e louco para suspirar por causas mais interessantes. Ele não podia aguardar, precisava descolar e desabafar sua tristeza de ter que carregar o meu corpo cansado.
Minha primeira reação foi como a de uma princesa à espera do belo príncipe, obviamente parecia tão ridícula quanto os olhares e risos disfarçados que recebia dos transeuntes. Naquela cena tragicômica, eu ficava vermelha, bege e pálida, em dégradé, em uma fração de 30 segundos. Tive ímpetos de gargalhar e deixar a máscara cair e se estilhaçar na calçada, cair como o bêbado e largar essa vida de responsabilidades, mas lembrei-me das contas no final do mês e desarmei rapidamente minha mente insana e literária.
Olhei para os lados, nenhum príncipe disposto a me ajudar. Liguei para o taxista: – Fernando, vem me buscar, estou perto da Farmácia Hamburguesa, vais me achar, estou sem salto. Desliguei o telefone e ri freneticamente. Desabafei todo o estresse naquele instante. Pensei, uma cena hilária, com todos os componentes necessários para um roteiro de Woody Allen.
Cai do salto, mas não deixei a peteca cair. Como o show que deve continuar mesmo depois da terrível gafe do artista, peguei o táxi e entrei triunfante no trabalho, pedindo auxílio para o segurança.
A vida continua com suas demandas, a correria e a reclamação diária de que resta-nos pouco tempo para resolvermos tantas situações e muito menos para refletirmos sobre elas. Muitas "saias justas" ao longo do dia, mas nada que me faça acreditar que possa, realmente, "cair do salto" na vida. É que deste salto, o da vida, a gente pelo menos sustenta diariamente de que dispõe de algum controle. Isso até cairmos na próxima calçada.

1 comentário:

Ane disse...

Imagina quando o Fernando descobrir que está famoso!!!
Espero que pra isso você me autorize!!!! Bj