maio 29, 2008

A dama de vermelho


Entrei em uma loja de departamentos
no shopping com o intuito de comprar o vestido que eu usaria em nosso primeiro encontro, pensando que seria a roupa especial que ficaria marcada no imaginário dele para o resto de sua vida. Pensei em uma cor que seria apropriada. Levando em conta o meu gosto marcante, ansiava por vermelho. Comecei a olhar as roupas expostas nos cabides, procurando pela cor, nada que me atraísse de fato. Estava já há alguns minutos garimpando, nada me chamava à atenção. Quase estava desistindo quando... lá estava ele, o vestido vermelho, em meio a algumas roupas bregas e sem graça. O vestido era abotoado de cima a baixo... com uma gola meio anos 60, o tecido delicado, próprio para a ocasião: broderi. Eu disse: "é este!".
Fui até o provador, experimentei, perfeito, foi costurado exatamente para as minhas medidas. Sai do vestuário contente, passei no caixa e sai orgulhosa da loja. Cheguei em casa e tirei da sacola o bendito vestido e coloquei-o estendido em cima da cama. Vesti-o, e andei suspirando pela sala. Calcei uma sandália dourada de tirinhas finas que comprara outro dia, olhei-me no espelho, pensei: acho que impressiona.
No dia em que nos encontramos no aeroporto Salgado Filho, depois de longos meses à espera daquele momento, com os cabelos penteados, maquiada, unhas vermelhas, levemente perfumada, uma bolsa de crochê a tira colo. Por onde andava, despertava a atenção e seguia meu passo confiante.
Meu coração estava a mil há algumas horas. Quando deixei minhas malas no hotel, já não agüentava a ansiedade pela espera. Perto do portão de desembarque, eu pensava em inúmeras coisas ao mesmo tempo. E se ele não gostar de mim? E se eu não gostar dele? E se tudo o que pensamos não se concretizar de fato? Será que nossas conversas na internet, nossas inúmeras cartas de amor nos poderiam causar uma bela de uma cilada? Se o que ele demonstrou ser não for real? Quem será a pessoa que eu estou a um passo de conhecer? Pensando em tudo isso e mais um pouco, olhava intrigada para os passantes para ver se alguém percebia o quanto estava sem jeito, me centrei e olhei para o painel, estava no horário de chegada do vôo.
Meu coração batia aceleradamente quando vi que o avião já havia aterrissado e ele estava em solo gaúcho. Pensei que ele se sentiria perdido no primeiro momento e muito cansado. Imaginei se ele iria me tocar, se tentaria me beijar, se nos abraçaríamos como falávamos nas cartas e nos papos do MSN ou do Skype. Imaginei aquele homem que eu via apenas pela webcam e pensei que finalmente veria a sua expressão, poderia sentir a pele, o cheiro...o gosto do beijo.
“Nossa, agora segura o coração”, pensei. Então, vejo um outro homem saindo do desembarque e sua mulher emocionada abraçando-o e beijando-o carinhosamente. Suspiros.
Aguardei mais um pouco. E, então, vejo o meu homem descer as escadas rolantes e buscar suas malas na esteira. O coração acelera. Ainda está atrás dos vidros, não posso ver muito bem. Ele está junto de muitos outros num verdadeiro aquário de viajantes. Ele não me vê, mas meu coração quase sai pela boca. Sinto um calafrio, nervosa, sem jeito. Lá vem ele, saindo da porta, que loucura isso tudo, penso eu, ele viajou tanto para estar aqui. Se a cena fosse de filme, acelerado estaria apenas meu coração, as imagens seriam em câmera lenta e a trilha com certeza seria Green Grass, da Cibelle. A primeira impressão: ele é baixo, já tinha me dito que era, e magro, parece estar cansado, de fato, muitas horas de vôo, Lisboa-Porto Alegre, mas deve estar ansioso como eu. Ele me procura, estou ao fundo, atrás de tantas pessoas, mas somente vejo ele a partir daquele instante, tudo pára. Continua os seus passos, vira-se em minha direção, e me vê. Pára e me lança aquele sorriso que já conheço bem. Vou ao encontro dele, caminho suavemente e sorrindo em sua direção, um percurso breve no tempo cronológico, dos mortais, mas longo e inesquecível para nós dois.
E então nos abraçamos, como falávamos, por alguns segundos, ele me olha nos olhos e me chama pelo nome completo. Desajeitados, sorrimos muito... Começo a falar meio nervosa, pergunto como foi a viagem, se ele está bem e ele responde que sim. Saímos caminhando, tentando acertar os passos, meio atônitos e ele propõe de nos sentarmos em um café no saguão do aeroporto. Fico olhando aquele homem em minha frente, é ele... não acredito...
“Que loucura”, ele diz. “Tu és linda, muito linda”. Toca em meu rosto, fico sem palavras. O toque. Nos olhamos profundamente. Já nos conhecíamos. Aquele encontro físico era apenas o reconhecimento. Sabíamos muitas coisas um do outro e sentíamos algo inexplicável: simplesmente mágico. Ele parecia um guri com seus 47 anos, eu sempre fui uma guria, agora aos meus 28. Ríamos e tentávamos falar algumas coisas, mas nada tinha muita importância, o que nos interessava era ver-nos assim, frente a frente, tendo um ao outro, podendo abraçar o mundo juntos... a sensação que sempre esteve presente dentro de nós e acreditávamos poder compartilhar um dia.
Ele tinha-me no reflexo de seus olhos, no fundo deles estava o vermelho marcante de meu vestido. O verde dos olhos dele penetrava os meus enquanto minha alma estava exposta na mesa daquele café. Eu dizia tantas coisas com meus olhos, não precisava mais nenhum discurso. Não tinha mais um computador entre nós e 12 mil quilômetros não nos separavam mais, por alguns dias. Ele roubou-me um beijo no rosto e encontramos nossos lábios, um toque fugidio, mas sinto que ficamos perdidos naquele longo instante. Um breve momento que selava as palavras trocadas nas cartas, as noites longas em sintonia, afastava o medo e a ansiedade e dava-nos certeza de que o sonho era real.
Saímos naturalmente abraçados do aeroporto, como um casal que se reencontrava. Sentia-me um pouco envergonhada, ele também, creio eu. Ao aguardar o táxi, pensava no que ele tinha achado do meu vestido vermelho. Espontaneamente, perguntei-lhe: gostaste do visual que escolhi para te esperar? Ele disse: “Estás linda, és a minha dama de vermelho!”

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