julho 30, 2008

As aves que aqui gorjeiam...

" Alheia à crise garota lê em esplanada com vista para o Rio Tejo"



Quando conheço um novo país, seu povo e sua cultura, me atenho às semelhanças e às diferenças. As comparações, portanto, são inevitáveis.
Nos primeiros dias, apenas deixei-me deslumbrar com as paisagens, o patrimônio histórico, a culinária, as manifestações culturais, etc. Com o passar do tempo, tenho observado o povo português e o que repercute na mídia televisiva e escrita. Tenho boas e más impressões, obviamente.
Destaco que observo a partir de um olhar estrangeiro e percebo apenas alguns aspectos, são apenas impressões e digressões de uma viajante. Infelizmente, como característica natural do ser humano, tenho a tendência em deter-me nas imperfeições, em queixar-me das diferenças, ao passo que supervalorizo a cultura brasileira e, inconscientemente, desvalorizo a portuguesa. Mas estou tendo apenas os primeiros contatos.
Acredito que somente conhecemos um local se escolhermos viver por um longo período tal o seu povo vive. E, acreditem, apenas provamos “alguns pratos” do “extenso menu”, pois sempre há muito a conhecer em um país estranho.
Nós, brasileiros, somos solidários, trabalhamos em equipe, característica que os portugueses buscam constantemente. Eles parecem ser bastante individualistas, se alguém cai na rua, por exemplo, ninguém pára para ajudar. Somos expressivos e espontâneos, eles também o são de sua maneira, mas são muito mais desconfiados do que nós. Somos otimistas, eles são os maiores pessimistas da União Européia, dado comprovado por meio de pesquisas. Talvez este seja um fator negativo que atrai ainda mais negatividade ao povo português.
Penso que nosso “jeitinho brasileiro”, tão conhecido no exterior, fornece-nos instrumentos e alternativas para lidarmos com as crises que, porventura, tivermos de passar em nosso país. Atualmente, eles passam por uma das maiores crises que já viveram, seguindo a tendência européia. Em meio a tantas análises que leio nos jornais e ouço nos pronunciamentos dos políticos, tenho a impressão de que estão paralisados, presumo que eles não sabem qual caminho devem tomar.
Em contrapartida, ao cair em comparações, observo muitas coisas que não funcionam como deveriam no Brasil. Porém, acredito que, na maior parte dos casos, não é porque nos faltam condições e/ou recursos, como postulam os nossos políticos, mas porque nós não exigimos que funcionem de fato.
Aqui não há tantos recursos naturais, uma indústria talvez insipiente, mas alguns portugueses são ousados e não sossegam enquanto não têm a excelência como padrão. Eles fazem as coisas acontecerem, assim como alguns brasileiros empreendedores. Os portugueses lutam para não ficarem eternamente à sombra da vizinha Espanha. O Brasil cresce economicamente em ritmo vertiginoso, porém, continua com diferenças sociais discrepantes. Contradições de um Brasil rico e pobre ao mesmo tempo.
A gente reflete muito quando faz uma experiência em outro país. Mas, parafraseando Oswald de Andrade, nunca perde de vista que “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.

julho 22, 2008

Grande Arnaldo



Assisti a um show espetacular de Arnaldo Antunes no último sábado no jardim da Fundação Gulbenkian.

Pode-se dizer que em sua melhor forma talvez, aos 47 anos, Arnaldo apresentou aos lisboetas e brazucas de plantão o álbum "Quase", gravado em setembro de 2007.

Acompanhado de Chico Salem (violões de náilon e aço), Betão Aguiar (guitarra e violão) e Marcelo Jeneci (teclados e sanfona), Arnaldo deu um show de performance no palco. Dava chutes, ensaiava uns passos soltos, brincava com as imagens projetadas ao fundo do palco...

Eu sempre acompanhei o trabalho de Arnaldo e sempre fui muito fã de seu trabalho, mas posso dizer que nunca imaginei que a expressão dessa figura fosse tão impactante e carismática. Foi uma dádiva vê-lo cantar a um passo de mim, eu estava bem a frente e ele chegou a sentar no palco, cantando suas belas composições.

Grande Arnaldo, é o cara!

julho 18, 2008

Mafra e Madeleine: uma combinação perfeita



Desde o início da quinta-feira (17) eu estava à espera pelo momento do concerto. Não era uma mera quinta-feira, disso eu tinha certeza.
Chegamos em Mafra, 50 km de Lisboa, por volta das 20h30min e aproveitamos para observar o exterior do Palácio Nacional de Mafra.
O palácio e mosteiro monumental de estilo barroco provocam-me um raro momento de deslumbramento. O local é conhecido por ser o cenário onde se desenrola o enredo do livro Memorial do Convento, de José Saramago. O palácio foi construído no reinado de D. João V em promessa à rainha D. Maria Ana da Áustria, para que ela lhe desse um descendente. Alguns acreditam que o rei fizera a promessa para se livrar de uma doença da qual padecia. O certo é que o ouro do Brasil foi o que sustentou esta obra audaciosa. Não entrei no convento, na próxima visita, espero poder ver a biblioteca que guarda 40 mil volumes preciosos, dentre eles a segunda edição de Os Lusíadas.



MADELEINE, SUAVE MADELEINE






Depois de tomar uma meia de leite (uma xícara de café com leite) e um pastel de nozes em uma Pastelaria local, entramos no Jardim do Cerco, aos fundos do mosteiro, por volta das 21h10min, com a intenção de assegurarmos um bom lugar para assistirmos ao concerto da cantora Madeleine Peyroaux.
Ouvia um som de jazz ao fundo antes mesmo de adentrar o jardim.
Clima frio, um tanto nublado. Eu gosto disto.
A atmosfera do jardim fazia-me recordar algum conto ou romance, não sei bem ao certo.
Aliás esta sensação me persegue em quase todos os lugares, talvez por ter estudado a literatura portuguesa, may be.
Na entrada, direito a jam session com músicos desconhecidos. Os gajos (caras) estavam a fazer uma promoção para a Meo, uma marca de televisão a cabo que patrocinara o concerto. Umas gajas faziam uma performance louca na relva (grama) do jardim. Moças distribuíam chocolates quadradinhos parecidos com os de Gramado (RS).
Ao ver o palco e as cadeiras, logo pensei: que lugar louco para ouvir um concerto! Ao ar livre, aos fundos do convento de Mafra, plátanos imensos davam um ar outonal e o friozinho delicioso. Caminhamos pelo jardim e ao fundo e encontramos uma fonte iluminada e uma engrenagem de um antigo moinho... a iluminação do ambiente era impecável.
Vimos o concerto em pé, porque o ingresso era mais acessível, mas ficamos em uma localização tão privilegiada quanto a ala Vip... bem de pertinho.
A gaja tem um timbre de voz que nos remete, sem dúvida, a Billie Holliday. É suave, canta sem fazer força, oscila entre o blues e o jazz. Nos presenteia com algumas canções em francês. Sem dúvida, tem senso de humor, tentou falar várias palavras em português e disse ao início de duas canções que elas falavam sobre Mafra.
Enquanto ela cantava, as luzes incidiam nas folhas dos plátanos no alto do palco, ao fundo via-se o convento. Um morcego fazia piruetas displicentemente por sobre as cabeças da platéia hipnotizada.
Sinistro, misterioso e belo.
Devem haver mais adjetivos, mas os dispenso, pois a voz e as imagens ainda ressoam em minha memória.

julho 17, 2008

Grandes concertos






Aqui chamam-se os "shows" de "concertos", então, posso dizer que estou tendo a oportunidade de assistir a grandes concertos em Lisboa...
No dia 12 de julho, sábado à noite, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, assisti a uma combinação perfeita de grandes músicos portugueses. Parte integrante do Festival de Música Portuguesa, apresentaram-se Os Vadios. São três músicos que dispensam apresentações num projecto inédito, criado especificamente para este festival. A grande voz masculina do fado de Camané (foto acima) juntou-se a dois dos mais consagrados músicos de jazz nacionais, Mário Laginha e Bernardo Sasseti para, juntos, procurar dar sentido ao conceito de contaminação musical. Do fado pelo jazz, do jazz pela canção portuguesa contemporânea. Como convidado, a voz única do contrabaixo de Carlos Bica.


CAMANÉ voz
BERNARDO SASSETTI piano
MÁRIO LAGINHA piano
CARLOS BICA contrabaixo (Músico convidado)

O fado é muito mais do que eu imaginava e na voz do Camané emociona, faz-nos chorar. Grandes composições com músicos incríveis. Inesquecível!

E HOJE É O DIA!

Hoje vamos ao concerto da cantora de jazz Madeleine Peyroux (foto acima)...
Para quem não a conhece, ela tem uma voz incrível, com um timbre comparado a Billie Holliday...
Ela divide o seu coração entre o blues e o jazz e apresenta-nos hoje no Cool Jazz Fest o álbum Half the Perfect World no Jardim do Cerco em Mafra...

julho 11, 2008

Dos sonhos


Há uma embarcação em que podemos navegar sem medo. São os barcos de sonhos. Seja os que temos enquanto dormimos , seja os que nutrimos acordados, sonhos revelam-nos desejos inconscientes.
Sonhos elucidativos. sonhos estranhos. sonhos repletos de imagens. sonhos sexuais. sonhos que nos revelam conteúdos psíquicos e que, na maior parte das ocasiões, nos esquecemos (talvez propositalmente) assim que despertamos.
É um pouco paradoxal tentarmos analisá-los. Sonhos podem ser vistos meramente como sonhos. Mas quando fazem sentido nos fornecem subsídios para lidarmos com a "falsa realidade" que criamos.
Somos cuspidos para a dura realidade quando abrimos os olhos. Vivemos um sonho, pois construímos nossas aventuras à medida em que fazemos nossas escolhas.

Escolhemos, por vezes, de cruzarmos por caminhos tortuosos para percebermos determinados aprendizados necessários e, em algumas fases da vida, nos libertamos do sofrimento criado por nós mesmos.

Entre uma margem e outra, podemos navegar em barcos de sonhos. Se escolhermos embarcar, é claro.


Da foto postada...
Entre um poste e outro e no rio Tejo, há uma embarcação. Há um enquadramento e uma percepção, um olhar lançado sob a paisagem. Assim como nesta luta diária, podemos enquadrar determinadas paisagens, também guardamos em nossa memória determinadas sensações, retemos apenas alguns sentimentos. Vemos o que quisermos, cada de uma forma peculiar, assim interpretamos o mundo.

julho 09, 2008

Pôr-do-sol




"Alguns olham para o que existe e perguntam porquê?

Eu sonho com que não existe e pergunto, porque não?"


George Bernard Shaw, dramaturgo e crítico irlandês
(foto do crepúsculo na praia do Guincho, it´s mine)

julho 08, 2008

Mosteiro



Mosteiro dos Jerónimos é belíssimo, ainda mais à noite, iluminado.
Essa foto foi tirada na noite de sábado, dia 5 de julho...
http://www.mosteirojeronimos.pt


Lá está o corpo de Vasco da Gama, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Este último, foi transladado em 1985 para o Claustro do Mosteiro dos Jerónimos. Túmulo é da autoria do Mestre Lopes Henriques.

julho 03, 2008

ViniPortugal


O vinho embriaga o espírito no Terreiro do Paço. Experimentamos diferentes varietais de uvas. O vinho de Portugal tem melhorado nos últimos anos e, segundo os enólogos, atingiu um padrão muito alto em nível internacional. Não me refiro ao lendário Vinho do Porto, este já conquistou o seu mercado e tem uma marca forte.
No dia do vinho, no último domingo (29), evento chamado por aqui de ViniPortugal que existe desde 2004, os produtores de todas as regiões do país expõem seus vinhos para a degustação de paladares apurados de portugueses e turistas.
Uma taça ao custo de 3 euros na entrada e a diversão para o espírito está garantida.
Um calor de 33 graus amolecia as pernas e os vinhos tintos incitavam as sensações. O encarnado do Eléctrico, o amarelo dos prédios que abrigam ministérios, as estátuas brancas de ofuscar os olhos no alto do portal de entrada da cidade de Lisboa. A Praça do Comércio é uma das maiores da Europa e foi reconstruída após o terremoto de 1755, seguindo os planos do Marquês de Pombal.
Ao longo do largo, foram colocadas poltronas verdes aveluladas estratégicas. Sentamos e nos deleitamos com a paisagem.
O vinho sempre provoca-me os melhores sentidos. Após, vem a dor de cabeça, certa na vida uma garota-enxaqueca como eu. Parte do processo, aceito-a em nome do deleite. Passa a sensação de entorpecimento e resta-nos as lembranças do ViniPortugal.