agosto 20, 2008

As cores das palavras


Estou frequentando um curso de escrita criativa na escola Escrever Escrever na Praça de Camões no Chiado (Lisboa).
Hoje pela manhã, minha professora nos propôs um exercício muito interessante. Cada um dos 10 alunos brincou um pouco de ser criança de novo e compôs sua flor de papéis recortados, fazendo uma colagem. E depois pediu-nos que escrevêssemos frases que iniciassem por "As flores são..."
E eu escrevi...

As flores são promessas de amor eternizadas no tempo efêmero da vida.

Parece que é necessário buscarmos reatar a espontaneidade que tínhamos quando éramos crianças.

Hoje saímos do prédio onde ocorrem as aulas, próximo ao Largo de Camões, a fim de buscar palavras na rua. Com uma folha em branco e uma caneta sai curiosa, apontando palavras que ia pescando entre os transeuntes. Era para listá-las em duas colunas: as palavras coloridas e palavras que não têm cor...

O olhar apurado, os sentidos aguçados, ouvindo diálogos entrecortados, apontava o que me vinha à cabeça. O que vi e o que senti neste breve exercício de 10 minutos me fez observar mais e valorizar as palavras que vêm ao meu encontro.

Apontei as seguintes palavras:


Palavras coloridas

menina
Eléctrico
girassol
casal
turista
fotografia
livro
amarelo
café
moedas
olhar
palmas
pastel de nata
sandes (sanduíche)
colar
mochila
Camões
tasca

Palavras incolor (sem cor):

táxi
tela
igreja
partida
jornal
cigarro
hotel
telefone
escada
espera
consulado

Após a coleta de palavras, escrevemos textos. Pensar nas palavras e na representação que fazemos delas, então escrever...

Em 10 minutos escrevi o seguinte texto:

Sentada no Café A Brasileira, no Largo de Camões, leio um livro tranquila. Perco-me nos versos pessoanos. Já não mais ouvia os ruídos do Eléctrico, nem as conversas em idiomas estranhos. Fazia calor na tarde lisboeta. Entre um verso e outro, observo um rapaz apaixonado sentado ao lado, atento aos movimentos de sua amada. O aroma do café remete-me às manhãs ensolaradas do Rio Grande do Sul. Na poesia de Pessoa sentia a atmosfera que agora vejo com meus próprios olhos. Mas Portugal não é mais o mesmo país e continua o retrato das descrições de Pessoa. Que paradoxal essa constatação.
Ouço os ruídos das chávenas a bater dentro do ambiente. Volto à realidade. Um turista tira mais um retrato e o tempo paralisa-se ali naquele instante.

agosto 18, 2008

Há dias


Há dias em que perco as palavras
Há dias que os versos somem do papel
Há dias que eles perambulam e pousam num lugar qualquer
Há dias que prevejo coisas
Há dias em que não vejo um palmo a minha frente
Há dias serenos
Há dias intensos
Há dias de lucidez
Há dias de estupidez
Há dias que não eu tinha notícias de você
Há dias em que gosto de escutar rockn´roll
Há dias que escuto Kleiton e Kledir
Há dias em que me sinto brega
Há dias em que sinto prazer de ser assim
Há dias que olho pela janela
Há dias em que me perco em raciocínios idiotas
Há dias em que a realidade me esbofeteia
Há dias de sol
Há dias de chuva
Há dias em que choro lavando louça
Há dias em que o riso vem contido
Há dias que eu pinto as unhas
Há dias em que faço abdominais
Há dias que fotografo
Há dias que guardo na memória
Há dias que como peixe
Há dias que prefiro carne
Há dias que não tenho fome nenhuma
Há dias em que um café é a minha salvação
Há dias que eu não uso maquiagem
Há dias em que ela é indispensável
Há dias que eu tiro os anéis ao chegar em casa
Há dias em que vejo fantasmas pela casa
Há dias que durmo sentada olhando televisão
Há dias em que durmo nos teus braços
Há dias que eu trabalho
Há dias que eu procuro trabalho
Há dias que eu devoro um livro inteiro
Há dias em que leio os jornais
Há dias de mistério
Há dias normais
Há dias em que o comboio me espera
Há dias em que prefiro caminhar
Há dias que ouço os pássaros de manhãzinha
Há dias em que acordo mal humorada
Há dias em que seus olhos me dizem coisas
Há dias em que não decifro tuas palavras
Há dias que eu sinto sensações estranhas
Há dias que eu vejo coisas onde não há
Há dias que eu ouço as notícias
Há dias em que me assusto com a crise
Há dias que não percebo nada
Há dias que viajo para o Tibet
Há dias que medito em uma montanha em Sintra
Há dias que velejo no Oceano Atlântico
Há dias que admiro o Rio Guaíba
Há dias que vejo o lilás do pôr-do-sol
Há dias em que tomo chimarrão
Há dias uma velha caminha no Parque da Redenção
Há dias ouço o garçom reclamar do desempenho do Inter
Há dias que eu odeio os comentários do Lasier Martins
Há dias que o Santana fala bobagens
Há dias que eu sinto um vento norte bater no rosto
Há dias em que sinto frio no pescoço
Há dias de cobertor de lã
Há dias abafados propícios para banhos de mangueira no quintal
Há dias que as plantas sentem sede
Há dias que eu quero plantar
Há dias de sim
Há dias de não
Há dias que escrevo
Há dias que suspiro
Há dias perfeitos
Há dias que não têm fim

Há dias assim



(Este texto é um exercício de escrita criativa)


(Tirei esta foto ontem na praia Azenhas do Mar, chama-se "cerca mágica", rsrsrsrs)