setembro 26, 2008

Cotidiano


O início do outono traz uns ventos do Rio Tejo.
Há dias em que uma camada espessa de neblina vem do rio e cobre a avenida Marginal, criando um clima misterioso.

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Os cafés, espalhados por Lisboa e pelos "concelhos" (distritos) adjacentes são boas opções quando o vento permite-nos sentar ao ar livre.
Há muitos aposentados nos cafés lisboetas. Ao vê-los, sinto uma saudade do que ainda não vivi. Penso que poderei ser feliz quando envelhecer. Sentados, em grupos, a conversar sobre inúmeros assuntos com os amigos de larga data. Encontram-se pela manhã ou à tarde, todos os dias. Alguns levam os seus cachorros. Eles esperam nas portas dos cafés, quietinhos, enquanto seus queridos donos vão fazer pedidos. Eles ficam ansiosos, não tiram o olhar por um segundo sequer do seus donos, como se pudessem ser esquecidos eternamente à porta do café. É tão bonito ver aquele olhar devoto, carinhoso. Eu queria muito ter um cachorro, hehehe.

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Hoje eu vi um velhinho carregando um livro a tira colo. Parecia ser algo interessante. Pensei, quando for velhinha vou ter listas de livros para ler por ano.

Enfim. Posso tê-las hoje se quiser.

Eu estou terminando O Perfume. Mas o que mais chamou-se atenção nos últimos meses foram os gibis (que aqui são chamados de "banda-desenhada", acredite se quiser). Meu marido coleciona-os desde guri. Interessantíssimos. Tem um que chama-se "Ana" e que conta a história de um detective particular que investiga a vida de irmãs gêmeas de pais diferentes. A história decorre em Lisboa e percebo os locais que conheci há tão pouco desenhados pelo ilustrador. É muito legal!


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Por vezes, os programas de entretenimento da televisão portuguesa parecem vários esquetes de programa de humor. Aquela gente toda metida a glamourosa, artistas, apresentadores, é muito kitsch. Brega, "pirosa". Para eles algo brega é "piroso", hehehehehe.
Não é convicente, não tem sedução. É engraçado, sempre troco de canal. To viciada na série americana C.S.I. Mas assisto documentários tb. Assisti um que chocou-me muito. Diamantes de Sangue, parte 1 e 2.

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As calçadas levam os saltos dos meus sapatos. Tenho que acostumar-me à idéia de usar sapatos baixos ou tipo "anabela". Esses dias eu estava a caminhar, tranquila, e o salto prendeu entre as pedrinhas da calçada, fiquei presa, continuei caminhando sem sapatos. Voltei para buscá-lo, rindo. Meu sapato preto clássico preso na calçada portuguesa. Um turista sentado ficou a rir de mim. Que situação!

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Os portugueses dizem "Fogo!".... pra tudo. É uma expressão que equivale ao "Porra!" dos paulistas ou ao "Que saco!" dos gaúchos....
Fogo pra cá, fogo pra lá. Mas é pra tudo mesmo, espanto, surpresa, reclamação, indagação, quando não dá certo alguma coisa ou não está dentro do esperado, eles proferem: "FOGO!"
É tão engraçado.

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Tem um gajo na rádio Antena 1, uma rádio clássica de notícias de propriedade do governo português, que tem uma voz rouca e grave. Todos os dias de manhã, ele fala do tempo. Eu não entendo nada do que ele fala, de outro tempo, remoto talvez. Só sei que para mim ele é o Butley, o cãozinho rabugento do Dick Vigarista.
Grrrrrrrrsssssssss! E tem o barulho do jipe landrover do meu marido pra acompanhar. É uma cena agrádavel todo dia de manhã.
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Eu estive a visitar a Igreja do Mosteiro dos Jerônimos. E bem do ladinho do túmulo de Camões e de Vasco da Gama. Que tal? É apenas para dizer que vi o túmulo de Camões e presumo que realmente havia ali dentro um esqueleto, uns restos mortais do maior poeta da língua portuguesa.
A gente reverencia esses gajos por quê?
Porque eles ousaram fazer o que ninguém ainda havia feito.
Vasco da Gama fez a rota marítima para as Índias.
Camões os melhores sonetos.


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Uma portuguesa disse-me que para conhecer todas as cidadezinhas de Portugal leva anos.
Estive em Óbidos, uma vila linda! As casas e o centro da cidade estão dentro da muralha, como eras antigamente as cidades medievais.
É lindo, lindo, lindo.
Melhor seria partilhar estas belezas com a minha família.


Esta foto foi tirada em Óbidos. Tem muitas flores nas casas, é lindo!

setembro 18, 2008

Um conto


Há um fundo de incompreensão em cada olhar desviado. Há uma tentativa frustrada de obter atenção em cada palavra mal colocada.

Mila tinha medo de Niander, embora acreditava que aquele olhar assertivo do parceiro demonstrava que estava tudo sob controle. A boca de Mila vomitava bobagens e tinha a secreta intenção de um dia poder devorá-lo, ou quem sabe retê-lo entre os dentes.

Mila sofria de um mal incontrolável: as palavras desperdiçadas. Ela falava aquilo que sabia, mas já não tinha certeza do que era realidade ou invenção. As idéias interessantes viviam presas nos cachos dos seus cabelos loiros. Ela passava os dias a penteá-los como fazia com as madeixas longas de sua boneca de infância.
Niander já não tinha mais vontade de decifrá-la. Desde que ela transformara-se em outra mulher, diferente daquela que ele havia conhecido no verão de 1997.
Quando ela começava a falar, ele soltava aquele suspiro profundo: o olhar atento, mas a cabeça longe. Seu suspiro silencioso guardava uma súplica emergente.

Palavras fugidias perdem-se pelas estradas. E o Passat, que Niander comprara com os últimos trocos que recebera de herança do pai, ouvia os lamentos de Mila desde que os dois resolveram juntar os trapos. O veículo atônito surpreendia-se com o que ela dizia. Ela falava dos outros com uma maestria louvável.
Niander simplesmente não ouvia mais nada. Ele desenvolveu uma técnica especial: olhava-a com um sorriso amarelo e concordava com tudo. Acreditava que desta forma poderia evitar complicações e chegaria logo ao apartamento para refugiar-se na internet e nos copos de cerveja.
As paredes do apartamento poderiam contar grandes histórias. Todos os enredos da vizinhança passavam pela grande boca carnuda de Mila.
Niander não tinha vida, muito menos enredo. Ele perdera a vontade de partilhar qualquer coisa. Limitava-se a falar com garotas na internet. Mila refugiava-se na vida dos outros.
O abajur ficava bege toda noite ao ouvir o monólogo infindável da tagarela. Em resposta: o ronco dele. Às vezes ouvia "boa noite" ou um "eu te amo" maquinais.
Aquele abajur esperava ansioso pelo dia em que não seria desligado à noite. Tinha um sonho romântico de voltar a ficar a noite toda acordado a iluminar aqueles dois.
Mas seus sonhos eram coisa de abajur. As paredes gélidas tinham certeza de que nada mudaria naquele apartamento.




Foto: uma experiência fotográfica com um vaso.

setembro 10, 2008

Desanuviada




Um dia escreverei canções e roteiros de cinema.

Provalvemente pintarei uma tela que merecerá a parede de minha sala.
Vou cantar uma canção inteirinha sem desafinar.

Vou esquecer de colocar os brincos antes de sair de casa e não me incomodarei nada com isso.
Vou dormir um sono profundo, sem sonhos freudianos.

Um dia eu vou escutar tanto jazz até esquecer-me quem sou.

Neste belo dia, a Ella e o Louis estarão em minha sala, a assistir o meu desanuviar.

Vou rir bem alto, suspirar fundo, que é pra maldita complexidade da existência fugir com a minha respiração e atingir as nuvens.


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Um dia, eu vou entender a melancolia que me abate o espírito no início do outono.
Estação de que gosto tanto, quando as folhas caem e enchem as calçadas das praças de leveza e poesia intocada.

Creio que as folhas secas, ao baterem em meus ombros nervosos, revigoram a minha crença no poder do tempo. Sempre a curar as palavras desnecessárias, degeneradas e sem sentido.
Ainda bem...


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Hoje fez sol. 26 graus marcava o termômetro no Largo de Camões.
Fui aos Armazéns do Chiado e andei por uma grande loja de Cds, livros, DVDs, equipamentos de informática, chamada FNAC, é um paraíso de consumo. Não queria agarrar o mundo e ler tudo, como de costume, apenas vi um livro em destaque, de Cesário Verde.

Pois... vem a calhar...

"O Sentimento Dum Ocidental
A Guerra Junqueiro

AVE-MARIA
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros d'aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!

Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
(...)
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
(...)

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!"
- Cesário Verde -

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Legenda imagem: início de agosto, árvore em Malpica do Ribatejo, perto de Castelo Branco. Um lugar quase ermo. Perfeito para este post.
A propósito, as fotos postadas anteriormente foram clicadas em Azenhas do Mar.

setembro 08, 2008

O amor é uma companhia




De Alberto Caeiro

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.