setembro 10, 2008

Desanuviada




Um dia escreverei canções e roteiros de cinema.

Provalvemente pintarei uma tela que merecerá a parede de minha sala.
Vou cantar uma canção inteirinha sem desafinar.

Vou esquecer de colocar os brincos antes de sair de casa e não me incomodarei nada com isso.
Vou dormir um sono profundo, sem sonhos freudianos.

Um dia eu vou escutar tanto jazz até esquecer-me quem sou.

Neste belo dia, a Ella e o Louis estarão em minha sala, a assistir o meu desanuviar.

Vou rir bem alto, suspirar fundo, que é pra maldita complexidade da existência fugir com a minha respiração e atingir as nuvens.


...

Um dia, eu vou entender a melancolia que me abate o espírito no início do outono.
Estação de que gosto tanto, quando as folhas caem e enchem as calçadas das praças de leveza e poesia intocada.

Creio que as folhas secas, ao baterem em meus ombros nervosos, revigoram a minha crença no poder do tempo. Sempre a curar as palavras desnecessárias, degeneradas e sem sentido.
Ainda bem...


...

Hoje fez sol. 26 graus marcava o termômetro no Largo de Camões.
Fui aos Armazéns do Chiado e andei por uma grande loja de Cds, livros, DVDs, equipamentos de informática, chamada FNAC, é um paraíso de consumo. Não queria agarrar o mundo e ler tudo, como de costume, apenas vi um livro em destaque, de Cesário Verde.

Pois... vem a calhar...

"O Sentimento Dum Ocidental
A Guerra Junqueiro

AVE-MARIA
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros d'aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!

Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
(...)
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
(...)

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!"
- Cesário Verde -

...

Legenda imagem: início de agosto, árvore em Malpica do Ribatejo, perto de Castelo Branco. Um lugar quase ermo. Perfeito para este post.
A propósito, as fotos postadas anteriormente foram clicadas em Azenhas do Mar.

1 comentário:

Luciana F. disse...

O negócio é o seguinte, minha amiga e colega de pensamentos em curva: escreve logo esse filme, pinta logo esse quadro, sai sem brinco cantando sua música predileta...e, foda-se, ouve jazz, mesmo doendo de existir...(estou nessa fase de euforia pós-poço, mas acho que vale tentar...)bjosss