setembro 18, 2008

Um conto


Há um fundo de incompreensão em cada olhar desviado. Há uma tentativa frustrada de obter atenção em cada palavra mal colocada.

Mila tinha medo de Niander, embora acreditava que aquele olhar assertivo do parceiro demonstrava que estava tudo sob controle. A boca de Mila vomitava bobagens e tinha a secreta intenção de um dia poder devorá-lo, ou quem sabe retê-lo entre os dentes.

Mila sofria de um mal incontrolável: as palavras desperdiçadas. Ela falava aquilo que sabia, mas já não tinha certeza do que era realidade ou invenção. As idéias interessantes viviam presas nos cachos dos seus cabelos loiros. Ela passava os dias a penteá-los como fazia com as madeixas longas de sua boneca de infância.
Niander já não tinha mais vontade de decifrá-la. Desde que ela transformara-se em outra mulher, diferente daquela que ele havia conhecido no verão de 1997.
Quando ela começava a falar, ele soltava aquele suspiro profundo: o olhar atento, mas a cabeça longe. Seu suspiro silencioso guardava uma súplica emergente.

Palavras fugidias perdem-se pelas estradas. E o Passat, que Niander comprara com os últimos trocos que recebera de herança do pai, ouvia os lamentos de Mila desde que os dois resolveram juntar os trapos. O veículo atônito surpreendia-se com o que ela dizia. Ela falava dos outros com uma maestria louvável.
Niander simplesmente não ouvia mais nada. Ele desenvolveu uma técnica especial: olhava-a com um sorriso amarelo e concordava com tudo. Acreditava que desta forma poderia evitar complicações e chegaria logo ao apartamento para refugiar-se na internet e nos copos de cerveja.
As paredes do apartamento poderiam contar grandes histórias. Todos os enredos da vizinhança passavam pela grande boca carnuda de Mila.
Niander não tinha vida, muito menos enredo. Ele perdera a vontade de partilhar qualquer coisa. Limitava-se a falar com garotas na internet. Mila refugiava-se na vida dos outros.
O abajur ficava bege toda noite ao ouvir o monólogo infindável da tagarela. Em resposta: o ronco dele. Às vezes ouvia "boa noite" ou um "eu te amo" maquinais.
Aquele abajur esperava ansioso pelo dia em que não seria desligado à noite. Tinha um sonho romântico de voltar a ficar a noite toda acordado a iluminar aqueles dois.
Mas seus sonhos eram coisa de abajur. As paredes gélidas tinham certeza de que nada mudaria naquele apartamento.




Foto: uma experiência fotográfica com um vaso.

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