outubro 20, 2009

Lisbon revisited


Começou o Outono e com ele veio a chuva... com o dia cinzento, resolvi fazer um post à altura.
"Lisboa Revisitada (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja--Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eupoderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número de porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta--até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra cousa, nem cousa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...Eu?
Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo--Lisboa e Tejo e tudo--,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim - Um bocado de ti e de mim!..."

Vejam o catálogo da exposição do Jorge Colombo, partindo da indefinição e da angústia desta poesia do heterônimo Álvaro de Campos.

Ilustrando este post uma das ilustrações da talentosa
Ana Ventura.

agosto 19, 2009

Um dia em Sevilha




Do Sul de Portugal, depois de alguns dias de descanso em Lagos, no Algarve, resolvemos dar um pulo em Sevilha (Andaluzia, Espanha). Quase 300km em auto-estradas ótimas, sem pagar pedágios e uma sinalização impecável.
Quando atravessa-se a fronteira entre Portugal e Espanha quase não se notam diferenças na vegetação, em geral apresenta uma aparência mais árida nesta época.
Chegamos no meio da manhã, ansiosos por conhecer a cidade. Estacionar em Sevilha é tarefa para doidos, o melhor é deixar o carro num estacionamento privado e preparar-se para a caminhada. Já tinha ouvido falar que o Verão não era a melhor altura para visitar a cidade, a melhor é a Primavera. Realmente, o calor à tarde pode tornar-se sufocante. Chegou a marcar 42 graus no termômetro.
Munidos de garrafas de água, com roupas claras e sapatos confortáveis, caminhamos pelas ruas do centro histórico. Logo deparamo-nos com a belíssima Catedral de Sevilha. Construída no séc. XV, considerada a terceira maior do mundo, alberga alguns tesouros, dentre eles, o túmulo de Cristóvão Colombo. Junto à catedral, a torre Giralda é impressionante, a mais linda de toda a arquitetura muçulmana. Ao lado da Catedral, detrás das muralhas se ocultam uma sucessão de palácios suntuosos, de pátios delicados e jardins labirínticos. O Real Alcázar é espetacular e inesquecível.

Continuamos a caminhada sob o sol escaldante e somos recompensados ao sentir o ar fresco da fonte da Praça de Espanha, obra mais importante da Exposição Iberoamericana de 1929, em estilo neorenascentista. Azulejos incríveis retratam os quatro antigos reinos: Navarra, León, Castilla e Aragón, e as cerâmicas também representam as 58 províncias espanholas.
Atravessamos o Parque de María Luisa que reúne vários edifícios construídos na altura da Exposição e chegamos ao Museu de Artes e Costumes Populares, inaugurado em 1972, que reflete-se num espelho d´água, proporcionando-me o cenário perfeito para uma bela fotografia.
Passando pelo bairro Triana, onde nasceram muitos toureiros e artistas do mundo do flamenco, terminamos o dia às margens do Rio Guadalquivir, na Calle Betis, a observar o belíssimo pôr-do-sol e a provar umas tapas (petiscos espanhóis con muy buena reputácion) acompanhadas de unas cervezas. Só faltaram mesmo o jamón ibérico (presunto), o vinho de Jerez e um bom espetáculo de flamenco.


Um dia em Sevilha é pouco para quem deseja descobrir as mil e uma facetas de uma cidade encantadora, onde se mesclam a reconquista muçulmana, os grandes descobrimentos e o Século de Ouro. Mas é suficiente para sonhar com um passado glorioso e inspirar-se para o presente.

agosto 14, 2009

De pensamentos imprecisos

“Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.”
Clarice Lispector in "Perto do coração selvagem"

Sinto-me derretida por uma experiência precoce de envelhecimento.
Vontade de tocar todas as campainhas, fazer pirraça e correr na praça.
Fazer algo politicamente incorrecto.
Mas deixo o resto para o restante, de pensamentos imprecisos.

julho 22, 2009

Garota enxaqueca


Enxaqueca é um tipo de cefaléia caracterizada por crises recorrentes que podem acompanhar-se de náusea, vômito, foto ou fonobia (alta sensibilidade à luz e aos sons). Essa é a definição dos profissionais de saúde, mas agora apresento-vos a versão de quem convive com essa doença há mais de 10 anos, uma pessoa que já assumiu-se, temporariamente, como uma “garota enxaqueca”.
Enxaqueca é uma doença que ninguém compreende bem ao certo, todo mundo tem um palpite, mas somente quem já teve uma crise pode falar o quanto é desgastante.
Acordar um belo dia com enxaqueca e pensar: o que fizeste ontem mesmo? Não ouviste os sinais do teu corpo? Desde os 16 anos, tenho perdido compromissos importantes, lindos dias de sol e longas noites de sono… Tanto tempo perdido, trancada num quarto escuro, apenas rezando para que a maldita dor passe.
Imagine uma dor intensa que surge na nuca, em cima dos olhos, nas “têmporas”, ou mesmo em toda a cabeça. Pode começar com o aparecimento no campo de visão de um círculo de luz branca, a tal “aura”, que antecede as dores. Mas normalmente eu sinto a dor sem avisos, sem dó nem piedade. Sinto todos os cheiros que habitualmente não perceberia e os perfumes causam-me náuseas. Se comer, vomito; se não comer, sinto-me fraca. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Costumo fechar a janela, pois a luz do sol, a qual aprecio tanto normalmente, causa-me uma fobia incontrolável. Só há uma alternativa: procurar a melhor posição e deitar no escuro. Então, faço orações, viajo por atmosferas distantes, procuro desanuviar, perder a noção do tempo e faço do sono o meu único alento. Entro em estado de êxtase quando o remédio começa a fazer efeito. Um banho, trocar de roupa e tentar voltar à rotina, mesmo com aquela sensação de vazio inexplicável, quando a dor passa e o que resta é apenas uma confusão mental.
Para mim está cada vez mais claro que os tratamentos halopáticos não são suficientes. Já fiz profilaxia durante meses, fui ao neurologista, tomei tantas cartelas de ergotamina que nem conseguiria contar… A única coisa que resultou foi a acupuntura (com profissional de saúde).
Estou conhecendo melhor o meu corpo e acredito que a homeopatia e a acupuntura podem trazer bons resultados. Tenho fé de que esses tratamentos, que levam em conta a saúde integral dos pacientes, inclusive as causas emocionais, podem auxiliar na cura da enxaqueca.
Na realidade, depende muito da observação e da alteração de alguns hábitos. Acredito que é preciso ter uma rotina mais regrada e uma certa consciência dos sinais emitidos pelo nosso corpo. Quem tem enxaqueca deve procurar ter horários fixos de refeições e manter o sono em dia. Não dormir fora de hora, evitar a ingestão de vinhos, chocolates, queijos, bebidas estimulantes como a Coca-Cola ou o chimarrão… (E o que eu faço sem esses pequenos prazeres?). Também deve praticar exercícios físicos periodicamente. Resumo tragicômico: ou levanto a bunda do escritório, ou continuo sendo a garota enxaqueca…
As mulheres são as que mais sofrem dessa doença, talvez porque pensem muito e façam inúmeras coisas ao mesmo tempo. Se você conhece uma pessoa que sofre de enxaqueca, por favor, não pense que ela está fazendo de conta que sente dores de cabeça para não trabalhar ou até mesmo para não fazer sexo. Não trate-a com preconceito, procure colocar-se no lugar dela, tenha compreensão e compaixão, pois a enxaqueca é uma doença como todas as outras e deve ser tratada como tal.

julho 10, 2009

Em 3 sóis




(Praia do Guincho, pôr-do-sol, junho 2009)

julho 03, 2009

Sol, mar e Comporta...

Amoreira

Praia quase deserta

Praia da Comporta




Sol incide no arrozal


Cegonhas em seu ninho




Zona ribeirinha do Rio Sado





O caminho do paraíso




Arrozal na beira da estrada


julho 02, 2009

Peço desculpa

Peço desculpa, mas hoje vou à noite de ópera no Largo São Carlos.

* "Peço desculpa" na língua de Camões equivale a "com licença", é dito para tudo e mais um pouco.... Olhe para um português e ele lhe dirá antes de mais nada..."peço desculpa"... Com licença é quando despedimo-nos e, então, chegamos a pedir licença para desligar o telefone ou até para fechar a porta.

Com a pica toda

Ando a trabalhar com a pica toda.

*com muita energia, em português lusitano, rsrs.

junho 30, 2009

Portugueses mais individualistas e menos preconceituosos

Os portugueses estão mais individualistas, não morreriam por nada, nem por ninguém, senão pela sua própria família.

No entanto, quase 80 por cento constatam que "a sociedade está a perder valores importantes", revela o inquérito Dez Anos de Valores em Portugal, hoje apresentado no seminário A urgência de educar para os valores, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

"Este inquérito permite perceber o que é que mobiliza as pessoas e a partir daqui desenvolver um quadro de competências para a educação", explica Lourenço Xavier de Carvalho, investigador responsável pela análise dos dados.
Em 1999, o inquérito da Universidade Católica Portuguesa foi feito a 2975 pessoas, presencialmente; dez anos depois foi realizado por telefone e responderam 937 pessoas, dos 15 aos 65 ou mais anos de idade. Mais de metade dos inquiridos são do sexo feminino (57 por cento). O número de licenciados aumentou de dez para 26 por cento, ao passo que os com menos de quatro anos de escolaridade caíram de 13 para seis por cento.

Se fosse há dez anos, para oito em cada dez pessoas fazia sentido morrer para salvar a vida de alguém. Hoje, apenas 46 por cento respondem que morreriam nessas circunstâncias.

Se, por um lado, estão mais individualistas, por outro mostram ter menos preconceitos e ser mais tolerantes. Por exemplo, à pergunta "Se pudesse escolher, aceitava ser vizinho de...", quase a totalidade responde que não se importaria de viver ao lado de pessoas de raças diferentes, de imigrantes ou de indivíduos de outra religião. Também revelam uma maior tolerância relativamente a vizinhos com sida ou homossexuais.

Apesar de a maioria dos inquiridos ser casada pela Igreja - 56,2 por cento (mais sete do que em 1999), 2,2 por cento vivem em união de facto e 6,5 por cento são divorciados -, o número dos que concordam totalmente que "o casamento está ultrapassado" sobe de 15 para 36 por cento. Para os portugueses, o casal prevalece ao casamento, já que 80 por cento respondem que "uma criança precisa de um pai e de uma mãe para crescer feliz".

"Cada qual cuide de si"
Para Lourenço Xavier de Carvalho é a noção de individualismo na sociedade e não o egoísmo que faz os portugueses responderem que concordam em parte ou totalmente que "cada qual cuide de si". Em 1999, mais de metade concordava, mas este ano o número subiu para 63 por cento. A expressão "olho por olho, dente por dente" mobiliza mais de metade - eram 36 por cento em 1999.

"É possível que o contexto social de individualismo e a importância da família conduzam a uma falta de solidariedade para além das fronteiras do núcleo familiar", interpreta.

Sobre as questões de sexualidade, os portugueses mudaram muito pouco e os valores variam apenas um a dois pontos percentuais. Quando se lhes pergunta se concordam que se faça nudismo nas praias ou se veja filmes pornográficos, são evasivos e dizem que não acham "nem bem, nem mal". No entanto, reprovam que se pratique relações sexuais com vários parceiros ou relações extraconjugais: sete em cada dez inquiridos acham "mal".

Ter uma família sólida, amar e ser amado, ser um profissional competente, ser honrado e ter amigos leais são os principais objectivos. Ser famoso e rico são das suas últimas prioridades. Nas tomadas de decisões, o que mais os influencia é a consciência e a família. A Bíblia e os líderes religiosos pesam mais do que a ciência ou a comunicação social. O inquérito tem um grau de confiança de 95 por cento e 2,75 de margem de erro.
Fonte: Público, por Bárbara Wong

junho 29, 2009

Pobrezinhos mas felizes

"Pobres, desmobilizados, mas, apesar disso, felizes. Somos assim, os portugueses? No final do estudo Necessidades em Portugal - Tradição e tendências emergentes, os investigadores viram-se perante um país socialmente muito frágil, pouco capaz de se mobilizar individual e socialmente. Mas, apesar disso, com altos níveis de satisfação e felicidade.

Há dados conhecidos que o estudo confirma - os que se relacionam com níveis de desigualdades sociais ou taxas de pobreza, por exemplo. Mas Teresa Costa Pinto, socióloga do Centro de Estudos Territoriais, do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), diz que a investigação trouxe novidades: "Algumas dimensões da privação alargam--se a outros grupos que não estariam nos 20 por cento de pobres".

Cerca de um terço da população vive "um contexto de precariedade" e está preocupado "com a sua sobrevivência", indicam os resultados. A impossibilidade de pagar uma semana de férias fora, manter a casa aquecida (32,6 por cento não o conseguem) ou não usufruir da baixa médica total por razões económicas ultrapassam em muito os 20 por cento de pobres (ver texto nestas páginas).

O índice resultante do inquérito diz que 35 por cento dos portugueses têm uma privação alta ou média. Mais de metade (57 por cento) tem um orçamento familiar abaixo dos 900 euros.

Confirmam-se ainda outros dados conhecidos: o universo dos mais vulneráveis (que revelam mais sentimentos negativos) coincide com os idosos, as famílias monoparentais, os menos instruídos. Há aqui duas novidades: os mais jovens começam a enfrentar situações de vulnerabilidade; e as qualificações superiores também já não garantem emprego seguro.

Estas condições deficientes ou más coincidem com o nível de satisfação com a vida: em Portugal, ele é dos mais baixos, comparado com outros países da União Europeia. Mas o grau de satisfação (6,6 numa escala de 1 a 10) está claramente acima do ponto médio da escala, tal como o da felicidade (que chega aos 7,3 em 10).

Tais indicadores são confirmados pela predominância de sentimentos positivos, notam os investigadores (ver quadro). E completam-se com o relativo "apaziguamento" em vários outros índices, diz Teresa Costa Pinto. Exemplo: a maioria está insatisfeita com a falta de perspectivas e as condições de trabalho - 30,6 por cento desejaria mesmo mudar de emprego. Mas, entre estes últimos, 37,5 por cento confessa que não faz nada para que isso se concretize.

Baixo grau de confiança
Do mesmo modo, 63 por cento recusa a possibilidade de emigrar. O "apaziguamento" verifica-se ainda em relação às habilitações: só uma minoria deseja voltar a estudar; muitos acham que já não têm idade (51 por cento) ou que não têm tempo (25 por cento). Só em questões relacionadas com a sociedade do conhecimento - aprender línguas, utilizar a Internet, explicar ideias por escrito, acompanhar o estudo dos filhos - a maior parte dos inquiridos revela vontade de progredir.

São os mais novos e os mais qualificados que reagem de outra maneira. "Já incorporaram a ideia de que a formação é para toda a vida", diz Teresa Costa Pinto. O que pode indiciar que por aqui se pode quebrar o círculo vicioso da falta de qualificação, emprego mal remunerado, situação de maior vulnerabilidade social, pobreza.

Somos uma sociedade pouco motivada para mudanças pessoais e colectivas, observa a responsável científica do estudo. Factor aduzido também pelos elevados níveis de desconfiança em relação aos outros (4,5 em 10; só os mais instruídos atingem os 5,2) e às instituições - governamentais, nomeadamente, que merecem pouca ou nenhuma confiança em 70 por cento dos casos. "As sociedades com baixo grau de confiança nos outros são as que se desmembram mais depressa", observa Isabel Guerra, também coordenadora científica do estudo.

Outra novidade do estudo - promovido pela Tese, Associação para o Desenvolvimento, e realizado cientificamente pelo CET/ISCTE - é o aparecimento do factor da precariedade pelo tempo de trabalho.

Em síntese, os investigadores destacam dois tipos de necessidades: as que se relacionam com o funcionamento do mercado de trabalho e das políticas sociais; e as que traduzem a incapacidade de criar o sentimento de "pertença a uma comunidade de cidadãos colectivamente responsáveis". Uma sociedade que precisa de reforçar "as dimensões mais racionais, colectivas e organizacionais" que configuram as sociedades ocidentais modernas. "É praticamente inexistente o potencial para mudar", observa Isabel Guerra."

Fonte: Público - António Marujo

É por essas e por outras que eu prefiro nem tecer comentários.


O PAÍS DAS MARAVILHAS


Não se entra no país das maravilhas
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixe, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.

António Cicero

maio 04, 2009

A Vida Portuguesa


Esse projeto é simplesmente encantador...

A Vida Portuguesa nasceu de uma investigação da jornalista Catarina Portas sobre os produtos antigos portugueses.

Andei procurando produtos genuinamente portugueses para comprar "prendas" (presentes) à família e encontrei muitas marcas interessantes e embalagens lindíssimas na loja "A Vida Portuguesa".

Fica no Chiado (logo depois da Livraria Bertrand), Rua Anchieta, nº 11.

Confiram o site pois vale muito a pena:

http://www.avidaportuguesa.com/
Também há o comentário no blog:

abril 26, 2009

A herança de Bach



Desde a última sexta-feira entrei num estado zen musical, uma espécie de encantamento apoderou-se do meu espírito.
Sempre tive interesse por música, mas o meu gosto musical parece estar mais apurado nesses últimos meses. O fato de ir a quase todos os concertos de jazz no Centro Cultural de Belém (todas as quintas-feiras de março e abril, gratuitamente) talvez tenha sido um bom motivo para essa evolução.
Mas posso dizer que esse final de semana foi simplesmente o apogeu.
Parecia mais um breve fim de semana de frio e vento gelado cortante, com a correria do trabalho das últimas semanas a pesar sob os ombros e a cabeça. Mas os Dias da Música, no Centro Cultural de Belém (dias 24, 25 e 26), salvaram-me do estresse. Com a temática “A herança de Bach”, o CCB apresenta concertos maravilhosos por preços acessíveis ao grande público.
Na sexta-feira gélida, conheci um dos melhores músicos portugueses da atualidade, o pianista Filipe Pinto-Ribeiro. O concerto “A arte da fuga: Bach, Mendelssohn, Franck e Schostakovich” foi simplesmente espetacular. A fuga é uma forma de composição musical baseada no princípio da imitação insistente em diferentes partes ou vozes, dando a sensação de que estas vão fugindo umas das outras, perseguindo-se ou procurando-se.
No sábado, às 14h, assisti ao concerto maravilhoso do pianista Bernardo Sasseti. Música improvisada numa leitura pessoal com base em J. S. Bach e Thelonius Monk. Uma das coisas que aprecio neste músico talentoso é a forma despojada e despretensiosa como apresenta-se. Ele é muito carismático. Mas o jazz sempre ganha-me por completo…
Às 20h, assisti um concerto de Bach. The King´s Consort Orquestra e Coro, com solistas (soprano, contratenor e tenor), dirigido por Matthew Halls. O coro recordou-me a época em que cantava no Coral de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bons tempos aqueles de exercitar a voz e a sensibilidade musical.
Às 22h, o grande concerto da Orquestra Sinfônica Nacional da Ucrânia, dirigido por Volodymir Sirenko e com o violionista português Otto Pereira. A sinfonia nº 5 em Ré menor de Mendelssohn foi o ponto alto da noite.
No domingo pela manhã, assistimos ao concerto da Orquestra do Algarve, com a soprano Raquel Camarinha. Eles interpretaram “as bachianas brasileiras” do Heitor Villa-Lobos. Muito emocionante, sobretudo a interpretação da soprano Raquel Camarinha. De encher os olhos de lágrimas e deixar um bocadinho mais apertado o coraçãozinho brazuca.
À tarde, uma aproximação a alguns compositores que ainda não tinha ouvido anteriormente, interpretados pelo ousado Schostakovich – Ensemble. Liderado pelo pianista Filipe Pinto-Ribeiro, o grupo tocou composições de Arvo Pärt, Sofia Gubaidulina e Alfred Schnitke. Confesso que gostei mais do primeiro compositor, mas os outros são demasiadamente atonais e modernos para o meu ouvido.
Terminamos nossa maratona dos Dias da Música, com o concerto do Leipziger Streichquartett (Quarteto de cordas de Leipzig). Com chave de ouro, simplesmente perfeito!
Posso afirmar que não há nada melhor para higienizar o cérebro do que ouvir música instrumental. Sinto-me pronta para mais uma semana de estratégias e reuniões. Um bom fim de semana, uma grande empreitada pela frente… A herança de Bach como inspiração…

abril 21, 2009

Estendal



Estendal: o vendaval das ideias
Estendal: a crua e singela luz tardia
Estende o medo
Seca o vazio
Areja a formalidade
Logo verás varais...
P.S.: estendal é sinônimo de varal

Brasil

Está marcada minha viagem ao Brasil.
Que maravilha!

Boa pergunta...

E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?
(SARAMAGO, José. A maior flor do mundo).

A mágica é a vida

Ele puxou a tampa da lata com mão direita e o curió começou a cantar.
- Tem passarinho aí dentro... puxa vida, como é que ele não morre?
- Não morre porque não tem passarinho aqui dentro. É só o canto dele. Eu trago para me distrair porque não posso trazer a gaiola aqui pra praça.(...)
- Claro que o senhor é mágico. Como pode uma pessoa guardar canto de curió dentro de uma lata?
- Engano seu – disse Seu Pantaleão. – Dentro da lata não tem canto de curió. O curió está dentro de cada um. Basta alguém se concentrar num curió que pode ouvir o seu canto; basta se concentrar numa árvore para sentir seu aroma e o vento balançando suas folhas. O curió é o coração das pessoas. A lata é só o disfarce.
- Ah bom – disse Tonho.
- Mas se você quer saber de uma mágica maravilhosa, basta olhar em volta. A maior mágica que existe é a vida.

(CAPARELLI, Sérgio. Os meninos da rua da praia).

abril 11, 2009

Inclinações Musicais


Quem inventou o amor
Teve certamente inclinações musicais
Quantas canções parecidas
E tão desiguais
Como as coisas da vida
Coisas que são parecidas
Feito impressões digitais
No violão esta mesma subida
Na voz a rima de sempre
Coração essa mesma batida
Que bate tão diferente
Quando acontece na gente
O mesmo amor
É um amor diferente demais
Quem inventou o amor
Teve certamente inclinações musicais


(Geraldo Azevedo; Composição: Geraldo Azevedo e Renato Rocha)



Foto: Dago Vianna, jardim em Caldas da Rainha

março 29, 2009

Ao fim ao cabo


Ao fim ao cabo é uma expressão utilizada pelos portugueses que significa "afinal, depois de tudo". Entretanto, eu tenho ouvido essa expressão em diversos contextos.
"Ao fim ao cabo" soa-me uma expressão redundante. A mesma coisa dita repetidamente, com a intenção de reiterar. Existem algumas frases cheias de sentido para toda gente e que para mim são "óbvios ululantes". Frases como "quem sabe... sabe". São as diferenças linguísticas.
O meu óbvio pode não ser o óbvio daqui.
Ilustrando o post: Ao fim ao cabo esse é o ciclo da vida.

março 25, 2009

Lisboa às escuras pela Hora do Planeta

"Lisboa adere, pela primeira vez, ao apagão global da Hora do Planeta. É a única cidade portuguesa a participar. Como diz o WWF, é “uma grande homenagem à Natureza a que todos somos chamados a participar, desde os mais pequenos, até aos adultos que podem pôr em prática medidas concretas de redução dos chamados gases de efeito estufa e que estão na génese do aquecimento global”.

Conhecida como a Cidade das Sete Colinas, vai unir-se, pela primeira vez, ao apelo mundial da WWF e apagar as suas luzes pela Hora do Planeta 2009. No dia 28 de Março, durante 60 minutos, vai ficar às escuras para iluminar a mensagem da Hora do Planeta contra as alterações climáticas.

Entre as 20H30 e as 21H30, da noite de 28 de Março, o Cristo-Rei assim como a Ponte 25 de Abril, o Palácio de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o Padrão das Descobertas, o Castelo de São Jorge, os Paços do Concelho e o Museu da Electricidade vão ficar apenas iluminados pela luz das estrelas; O Centro Cultural de Belém (CCB) assinala também a Hora do Planeta desligando por 15 minutos as suas luzes."

Que iniciativa interessante! Aqui em casa vamos apagar as luzes também!

março 23, 2009

Brain store (brain storm)




Brain (será que ainda o tenho?) Store. Este blog é a loja do cérebro que pensa demais.


Já ensaiei umas 15 cartas para a família. Rascunhei-as à mão: tão nostálgico. Escrevo emails, envio fotos, mando postais, entretanto, as cartas estão onde foram escritas: no bloco vermelho de formato A4. Não foram endereçadas, não viajaram de avião. Permanecem à espera da coragem do destinatário.

Comprei uma caixa nos correios e enchi-a de presentes em dezembro do ano passado. Fui ver quanto custava para enviar ao Brasil, muito caro, sem noção. A caixa estava embaixo da mesa, agora foi transferida para um canto no quarto. Continua lá a me olhar, abanando o rabinho. De vez em quando, abro-a e observo os presentes comprados na altura do Natal. Penso nas surpresinhas lusitanas e o quê significariam às pessoas se tivessem sido entregues na data. Reflito sobre a atribuição de sentido e, afinal, deixo-as ali mesmo à espera de serem cuidosamente acomodadas em uma mala. Pessoalmente, presumo que seja outra história. Bem mais econômica por sinal.

Aliás, sonho seguidamente com malas, aeroportos, partidas interrompidas. Estou no Brasil, a arrumar as malas e não consigo viajar por algum motivo. Perco-me na casa de madeira onde viviam os meus pais, não consigo reunir todas as roupas, estão molhadas ou espalhadas pela grama. Não há como vestir-me, atraso-me, não há partida. Há uma sensação de um tempo que pára na exata hora em que devia estar embarcando. O ponteiro estanca na ausência, na falta de, na saudade prenunciada.

Eu já não tento mais definir o que sinto em relação a afastar-me das pessoas com quem identificava-me e que agora estão longe, pelo menos fisicamente. Mas confesso que gostaria.
É uma espécie de ausência transmutada que confunde-se com tantas outras sensações. Talvez tenha me transformado num mutante (uau).
A saudade que apertava o peito e fazia irromper o choro contido transformou-se paulatinamente em lamentos e suspiros sazonais.

Refiro-me à minha família muito mais do que quando vivia no Brasil. Falo de coisas que eles gostam (ou gostavam) de fazer, de como seria se estivessem aqui e ali, se estivessem a ver ou experimentar o que sinto. É uma saudade pseudo-controlada. Ligações que se estabelecem aquém do entendimento. Talvez o que não seja passível de definição é o tempo não-vivido ao lado da família.

Eu sinto um novo fôlego com a Primavera. E a partida se aproxima...
Saudade a gente mata um dia, Primavera a gente inspira hoje. Profundamente. Que é para sentir bem os aromas de sementes e flores trazidos pelo vento.

Tenho bons projetos, bons ventos trazem ótimas idéias. Novos interesses, boas perspectivas profissionais. Não deixarei de ser uma "sobrevivente da crise", pois todos somos. Mas em breve terei um blog profissional (esse terá Brain Storm).
- Imagens do post, ilustrações de Mark Oliver e Victoria Ball.

março 19, 2009

O número

200.000
pessoas participaram na última manifestação nacional contra as políticas do Governo, realizada dia 13 de Março, em Lisboa. Já faz alguns dias mas achei merecido o post.

março 18, 2009

Ventos primaveris

"A criação tem lugar quando coincide a circunstância exterior com a cirscunstância do coração".
:...Paul Éluard...:

março 12, 2009

Alguns sítios

Quinta da Regaleira (Palácio da Pena)

Quinta da Regaleira



Quinta da Regaleira




Caldas da Rainha

As pontes de quem sonha


“Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
– Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?
– pergunta Kublai Khan.
– A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra
– responde Marco –, mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
– Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.
Polo responde:
– Sem pedras o arco não existe.”

(Diálogo entre o imperador Kublai Khan e o viajante veneziano Marco Polo, retirado do livro Cidades Invisíveis, do escritor italiano Italo Calvino).

Assim como o imperador, muitas vezes esquecemo-nos das pedras e estamos apenas interessados no arco. Também custamos a acreditar que não há apenas uma pedra sustentando a ponte. Na realidade, todas as pedras são elementos importantes e conjuntamente exercem o seu papel.

Acredito que somos pedreiros na vida. Conforme nossos sonhos construímos novas pontes. Ao visualizá-las, podemos observar as pedras que a compõem, valorizar os gestos empreendidos em cada movimento, ou contemplar o todo e decidir seguir adiante.

Os vai-e-vêns, os impasses, as frustrações e sobretudo os avanços. Algumas pedras firmam-se, outras racham com o passar do tempo.
Após concluída uma ponte, esta nos dará acesso a novos caminhos que, por conseguinte, nos levarão a outros. Ao contemplarmos a nossa meta ao longe, temos a impressão que carregamos algumas pedras pesadas que custaram-nos bastante. E as primeiras empreitadas de um estrangeiro realmente parecem um longo pesar nestes tempos imprecisos.
Todavia, o que nos sustenta para construirmos novas pontes é a convicção dos caminhos a seguir. Se não soubermos aonde queremos chegar nada faz sentido.
Ilustrando o post, foto de Ponte sobre o Rio Tevere, Roma (2006).

março 10, 2009

SEF: Serviço de Extenuação Fodida


Eu espero que vocês nunca precisem do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) em suas vidas, sobretudo se estiverem a residir em Portugal. Pois aqui deveria chamar-se Serviço de Extenuação Fodida.
Explico-lhes a indignação da pobre pessoa.
Eu cheguei neste país há 9 meses. Dei entrada com um pedido de residência em outubro de 2008 e somente hoje recebi uma correspondência para lá comparecer.
Estive esse tempo todo a andar com um papel do SEF, apenas um comprovativo de que eu pedi o visto de residência.
O SEF "trabalha" a partir de agendamentos por telefone. Diz que há alguns anos atrás existiam filas imensas e o atendimento ainda era pior.
Hoje finalmente agendei uma entrevista que ficou marcada para o final do mês. Completou 5 meses desde que dei início ao processo.
Eles não têm menor noção do que as pessoas passam e, se têm, efetivamente não parecem estar muito preocupados com isso.
Vocês não imaginam a ansiedade que passei durante estes meses, sem condições legais para conseguir um trabalho formal por causa do raio da lentidão do SEF!
Tem muitos imigrantes que não têm escolha e sujeitam-se a trabalhar em empregos escravizantes por estarem à espera da legalização. Eu não tive de passar por isto, felizmente.
Aumenta cada vez mais o número de imigrantes e eu acredito que eles devem dificultar as vidas das pessoas justamente por isso.
Mas aqueles que por direito podem viver no país (por estarem casados ou serem filhos de cidadãos portugueses) não deveriam passar por este processo.
E se eu não tivesse grana? De que forma arranjaria um emprego? Impossível! Os empregos para pessoas sem visto são sempre degradantes. E nesta crise não há emprego nem para quem é cidadão e têm todas as condições para candidatar-se.
Isso significa que a morosidade dos processos intervêm no destino das pessoas.
Portanto, do ponto de vista legal, eles estão a incitar que os imigrantes trabalhem em condições suspeitas? Parece-me que sim.
Eles ganham imenso dinheiro com trabalhadores que custam bem menos aos seus bolsos, a trabalharem mais horas por um salário baixo.

É um completo absurdo, vergonhoso e lamentável!
Isso aqui parece o Brasil!

(Ilustrando o Post, um cartaz de uma campanha promovida pelo SEF: "Não estás à venda", política de prevenção do tráfico humano.)

Cidades literárias


As que habitam mesmo o meu imaginário são As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino.
Mas há a Paris, de Baudelaire, a Dublin de Joyce, a Praga de Kafka, a São Petesburgo de Dostoiévski, a Buenos Aires de Borges, etc.
O Festival "Fervor de Buenos Aires", que iniciou ontem, é o primeiro de vários que serão dedicados a cidades literárias, promovidos pelo CCB (Centro Cultural de Belém).
Eu estava ontem na palestra do escritor Rodrigo Fresán. Depois, na abertura da exposição de fotos (duas ilustram este post) sobre a Buenos Aires de Horacio Copolla (anos 20 e 30) e também de Borges.
Fervor de Buenos Aires é o título do primeiro livro de Jorge Luis Borges, publicado em 1923.
Vou ver o concerto de tango El Arranque no dia 20 de março, estou excitadíssima com isso.
Dou-me por satisfeita com a visitação imaginária a Buenos Aires, para mim tal qual Borges a descreveu "tão eterna como a água e o ar".

março 05, 2009

"O Wrestler": O regresso de Mickey Rourke

"É o filme que marca o regresso em grande do actor, que encarna o papel de um velho lutador de wrestling que tenta mudar radicalmente de vida."

Era pra ser, mas pra mim foi uma grande tortura.
Não conseguia nem olhar para a tela. Somente a cara decadente do ator, com aqueles cabelos compridos tingidos de loiro, a pele bronzeada artificialmente, vertendo sangue pela testa... Já viram?
O cara é um retrato de um lutador em fim de carreira, frustrado afetivamente e sem chances de mudar o seu destino, e é muito deprimente! E quando está em luta, ele se atira ao adversário, do alto de uma escada, ou então é literalmente grampeado no ringue. Eu assumo: tenho horror à violência, não suporto...
Decadente ao cubo! Assistam num dia light, senão aconselho ficarem em casa, lendo um livro de preferência.

Beijinhos

Uma quinta-feira de Biblioteca Municipal de Oeiras.
Uiiii, entre os livros, sinto-me desgarrada de mim mesma. Que delícia!

Tri legal!
Giro!

(...)
As minhas correspondências do banco chegam endereçadas à Dra. Larissa Scherer, rsrsrs.
Escuta, você sabe me dizer quem é essa pessoa?

Fala sério, doutora é a minha irmã (que é médica, obviamente).
Assim, arrependi-me de ter dito ao banco que tenho Ensino Superior.
Aqui quem tem faculdade é tratado por Doutor(a).
Rsrsrsrs. O Brasil está cheio de doutores balconistas, doutores garçons, doutoras manicures. Portugal também está repleta de doutores e doutoras desempregados.
E a formalidade pegou em mim, agora peço "licença" até para o cão na rua.

(...)
Conversa de telefone
(...)
Bom dia, estás boa? (sim, ela deve estar boa, eu é que estou meio passada do ponto, rsrsrs)
Alinhas um cinema? (notem que eu conjugo o verbo, que coisa mais linda! Sempre sonhei com isto, desde criança, quando ainda pronunciava os plurais corretamente. Lembro-me de minha mãe a elogiar-me porque eu dizia "pães").
Queres beber um café?
Ah, vais passear o cão (não é "com o cão").
Tá bem, tá bem... (é duas vezes ou mais que se diz e a pronúncia é meio anasalada no "e").
(e termina finalmente a ligação com repetições)
Com licença, com licença, adeus, adeus, beijinhos, beijinhos.

Todo mundo diz beijinhos, inclusive pessoas idosas, dão adeus na rua com beijinhos, até amanhã!
Rsrsrs
Então, até amanhã,
Adeus, beijinhos, beijinhos... (duas vezes ou mais)

março 03, 2009

Despe o coração


Ante o frio,
faz com o coração
o contrário do que fazes com o corpo:
despe-o.
Quanto mais nu,
mais ele encontrará
o único agasalho possível
- um outro coração.

Conselho do avô - em "Chuva Pasmada" - Mia Couto.

março 02, 2009

Pescada à moda de Larissol


Adoro cozinhar...eu sempre invento uns pratos com os ingredientes que há na geladeira.
Ultimamente o meu prato preferido tem sido peixe.

Adoro a variedade de peixes e mariscos que há nas feiras e supermercados portugueses. Não há nada mais gostoso que uma receita preparada com peixe fresco, mas quando não dá jeito, eu cozinho com os congelados e fica bem saboroso também.:-)

Pois bem, compartilho com vocês uma receita simples, prática e gostosa. Demora apenas uns 40 minutos e fica delicioso!

É para duas pessoas, se quiser fazer para 4, dobre os ingredientes.

Ingredientes:
- Medalhões de pescada sem pele congelados (não tem espinho) - 400 gr (aqui vem 4 a 5 medalhões numa caixinha)
- 3 batatas médias
- 100 gramas de cogumelos frescos (uns 6 cogumelos pequenos)
- 1 pé médio de brócolis
- 1 cebola
- um punhado de coentros
- pimenta e noz moscada a gosto
- alho moído (encontras nos temperos no supermercado)
- azeite de oliva
- Uma colher de sopa de shoyu (se quiser)
- Uma colher de sopa de sal.
- Duas colheres de sopa de manteiga de culinária (pode ser margarina)
- Queijo parmesão ralado (200 gramas)

Modo de preparo:

Descongele os medalhões de peixe algumas horas antes do preparo. Coloque sal a gosto e uns pingos de shoyu em cada medalhão. Cuidado, pois o shoyu também é salgado. Reserve.

Descasque as batatas e corte-as em cubinhos quadrados. Coloque-as a cozinhar em fogo médio. Coloque sal a gosto. Enquanto isso corte os ramos de brócolis. Quando estiver no final da cozedura das batatas, coloque o brócolis. Coe e reserve a água. Reserve os legumes à parte.

Corte a cebola ao meio, siga as linhas da cebola e corte-a em tiras. Frite em azeite de oliva (não muito) em uma frigideira em fogo baixo, a dourar, assim a cebola fica com um sabor mais adoçicado, durante uns 5 a 6 minutos. Enquanto isso, corte os cogumelos em fatias finas. Em seguida, coloque-os a dourar juntamente com a cebola. Coloque pitadas de alho moído (não gosto de picar o alho pois fica o cheiro nas mãos). Sempre em fogo baixo. Reserve-os também.

Coloque a manteiga na mesma frigideira (assim usa o resto do azeite), frite os medalhões de pescada, adicione um pouco de pimenta e um bocadinho de noz moscada (a gosto). Se fritar em fogo médio não corre o risco de queimar nem de ficar mal cozido por dentro. Vai ficar douradinho.

Então, tire os medalhões e coloque-os dentro de uma tigela de vidro (que possa ir ao forno).
Aproveite a manteiga, colocando na frigideira as batatas, os brócolis, a cebola e os cogumelos, misture-os bem, um bocadinho daquela água onde cozinhou as batatas, então, adicione os ramos de coentros picadinhos.

Então, monte o prato. Coloque os legumes, cogumelos e cebolas ao redor e em cima dos medalhões, na tijela. Cubra com queijo parmesão ralado. Coloque a gratinar no forno de 10 a 20 minutos.

Acompanhamentos: arroz basmati ou normal branco; salada de tomates cerejas com brotos de feijão.

Aconselho beber um vinho branco ou cerveja.

Uma delícia!
Bom proveito:-)

A vacina do século


Esta noite tive um sonho que mexeu comigo, não lembro-me muito bem do que se tratava, mas acordei com uma idéia fixa, talvez o que restou de todo aquele emaranhado de pensamentos inconscientes.

Já imaginou se pudesse se vacinar contra a porção insuportável de si mesmo(a)?

Seria a "vacina do século", uma poção valiosa que todos teriam acesso quando já não aguentassem mais os seus comportamentos repetitivos e imbecis. Ao tornarem-se lúcidos, abominariam os seus próprios vícios e defeitos.
Mas para ter direito à vacina contra si mesmo(a) teria que, antes de tudo, abdicar desta porção que o(a) torna insuportável. Não era preciso entrar na Igreja Universal do Reino de Deus, nem lotar altares cristãos e templos budistas. Não era necessário tomar antidepressivos, nem ansiolíticos, muito menos frequentar casas de massagem, centros zen, aulas de yoga ou tay chi chuan, nem ser picado por agulhas de acupuntura.
Para largar os vícios, daria uns passos mágicos em direção ao posto de saúde mais próximo, aguardaria em uma fila, pois neste caso um bocadinho de espera e contemplação não faz mal a ninguém. Longe do passado imperfeito e do futuro do pretérito. Apenas o presente ali, com alguns pensamentos altruístas.
Para ter acesso à vacina, bastaria acordar com esse intuito e propor sinceramente a si mesmo o que pretende melhorar.
Imagine que todos tomariam a "vacina do século" quando estivessem preparados e a humanidade teria alguma chance de sair da era da falência de valores, da maldita era da depressão. Toda essa gente imperfeita teria um aliado precioso para prevenir os seus desastres pessoais. Bastaria admitir os seus demônios e acreditar verdadeiramente que os outros não merecem isto.
Depois de tomar a vacina, restava seguir o seu caminho, em partilha com outros seres humanos, demasiados humanos como a gente.

Uma vacina contra si mesma: quem sabe não seja disto que eu precise para sair do meu próprio círculo. Por ser demasiado rabujenta é preciso criar uma vacina de auto-preservação.

Mas serviria, então, de reflexão: como ficaria o mundo sem gente que erra? Que graça teria essa roda-gigante? De onde tiraríamos a inspiração para a literatura, a arte, a música? Seria a morte às novelas. Que coisa triste, que vivam todos sem vacina! Sigamos errando, aprendendo e quem sabe acertando da próxima vez!

fevereiro 27, 2009

A vida vegetativa do pensamento


O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.



A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.



Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...



E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...



.Álvaro de Campos.



(Ilustrando o post: eu e o lago sinistro, na Quinta da Regaleira, Sintra)

Excerto Álvaro de Campos


Lisboa com suas casas
De várias cores,

Lisboa com suas casas
De várias cores,

Lisboa com suas casas
De várias cores...








À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar... (...)

;

Álvaro de Campos

;






(Ilustrando o post, fotos de minha autoria, julho, 2008)

fevereiro 26, 2009

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...(...)

Excerto do poema "Quase" de Mário de Sá Carneiro


*Meus antigos negativos revelam caminhos por onde passei...

fevereiro 24, 2009

O carnaval já passou


“Tristeza não tem fim, felicidade sim”. No imaginário brasileiro está presente este verso de Vinicius e Jobim. Felicidade é “como a gota de orvalho numa pétala de flor/Brilha tranquila/Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor”. É que nem o “melhoral infantil” com o seu gostinho docinho ou o memorável biotônico Fontoura. É como comer leite em pó ou Nescau às colheradas. É assim: mais uma colher de sopa e mais outra… irresistível! É preciso saborear cada segundo, lambendo a colher até restar apenas o reflexo de nosso rosto.
Pois é, felicidade tem fim e o carnaval já passou. Hora de voltar para a vida real e deixar as fantasias guardadas no armário (may be). Mas bom mesmo é sentir essa felicidade fugidia onde menos esperamos. Longe do carnaval, deixei a linda Lisboa tomar conta de mim.
Com o sol novamente a colorir a cidade, alguns pinguinhos de chuva tornaram-se, de repente, grandes gotas de felicidade. Ando pelas ruas da Baixa lisboeta e ouço o som do Eléctrico a passar. Não tarda a vontade de entrar nos Armázens do Chiado e tomar um chocolate quente no Café Roma. Da janela, vê-se o Castelo de São Jorge, a história distante no tempo e ainda presente na paisagem. Junto ao rio Tejo a freguesia de Belém, um dos lugares de que mais gosto. Caminhar ou andar de bicicleta até cansar, depois comer os pastéis de Belém para adoçar a vida. O Padrão dos Descobrimentos lembra-me a história das caravelas com destino ao Brasil.
À tardinha, as diversas castas de uvas no Solar do Vinho do Porto para divertir os sentidos. Sob à luz amarela dos candeeiros de Lisboa, a noite ganha sonoridade. Nas tascas, ouve-se o fado. Entre habitantes locais e estrangeiros, ao ouvir as belas vozes dos fadistas, um coração brasileiro compreende a melancolia do espírito português.
Um senhor na Tasca do Chico ensina-me a ouvir fado como deve de ser: “apoie o queixo nas mãos, feche os olhos e abra o seu coração”. O dono do talho (açougue) à espera de clientes atrás do balcão na rua de Algés, pela qual passo todos os dias, mostra-me que devo ter paciência e aguardar. A senhora de pantufas e roupão, que passeia à noite com o cão, demonstra que ainda há tranquilidade neste mundo. Os africanos que vendem bijouterias às dúzias, penduradas nos braços, ensinam-me a persistência necessária para sobreviver à crise mundial.
Breves momentos de felicidade são como gotas de orvalho, mas podem deixar marcas oceânicas dentro de nós. É como um sorriso que timidamente se abre no rosto, mas que, aos poucos, contagia todos ao seu redor.

*Ilustrando o post, foto tirada no dia 14 de fevereiro, Valentine´s day, em Caldas da Rainha.

fevereiro 23, 2009

E o mundo não se acabou


Só se fala em crise por aqui. Eu continuo tomando o meu café bem forte todos os dias e assistindo aos noticiários com as “antenas ligadas” e o “cérebro mole”. De prefêrencia bem mole que é para aguentar tamanha indisposição.
Então, olho para o céu lisboeta, ensolarado finalmente desde o dia 15 de fevereiro, e confesso que não vejo nenhum Deus irado a olhar para nós. Será que ele não estará filmando tudo e apresentará em breve a sua grande obra-prima? Cá para nós, deve ser apenas mais um grande longa-metragem. Quiçá terá o título da composição do baiano Assis Valente, eternizada na voz de Carmen Miranda: “E o mundo não se acabou”.
Em letras garrafais veremos surgir no céu esta frase anti-apocalíptica e a trilha sonora no Brasil será a própria canção: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/ Por causa disso, minha gente lá de casa, começou a rezar/ E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada/ Por causa disso nessa noite, lá no morro, não se fez batucada/ Acreditei nessa conversa mole/ Pensei que o mundo ia se acabar/ E fui tratando de me despedir/ E sem demora fui tratando de aproveitar/ Beijei a boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal do mundo não se acabou”.
Portanto, depois da virada do século sem apocalipse, o Todo-poderoso só pode estar fazendo cinema. Enquanto isso, legiões de pessoas solitárias lotam igrejas e consultórios de psicologia e psiquiatria. Barack Obama parece ser o Salvador mítico dos americanos.
Mas sugiro não esperarem pela estréia da película (35mm), deprimidos em casa, pois terão perdido um tempo precioso de suas vidas. Acho que o Senhor Criador resolveu esperar um pouco mais e lançar o filme somente em 2010, quem sabe até lá o Salvador Obama não consiga mudar o roteiro.
Não há o que esquentar. Crise? Que nada! Logo está a chegar o carnaval.Todo mundo veste a sua máscara predileta, ricos e pobres, todos iguais enchendo copos e pulando no salão. A folia passa e finalmente o ano inicia no Brasil.
Aqui em Portugal o carnaval já começou. Estamos em ano de eleições (européias, legislativas e autárquicas) e a imprensa reaviva escândalos envolvendo o primeiro-ministro José Sócrates (PS). A oposição solta confetes.
Parece que o caos está instalado, mas a crise tende a melhorar em 2010. Então, o Senhor lança a sua obra-prima e todo mundo compreende que o mundo não se acabou, afinal foi apenas mais uma tentativa frustrada por parte da humanidade.

*Crônica inspirada em post do Blog do Cabeludo.

Foto: entre o céu e a terra, poço iniciático maçônico, Quinta da Regaleira, Sintra.

fevereiro 16, 2009

Love is possible



Quando penso seriamente sobre a vida (e tenho feito isso demasiadas vezes nos últimos tempos), chego à breve conclusão de que somente o amor vale a pena.
"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã": uma frase clichê de Renato Russo tornou-se o meu mantra diário.
Não quero saber se a bolsa caiu, se a crise pegou, se o tormento voltou, onde está agora o meu amor?

"Chega aqui, dá-me um beijo e tudo passa.
Tudo passa..
Amo-te Dago!"

Yes, love is possible!

* Ilustrando o post, foto de minha autoria, em Sintra.

fevereiro 05, 2009

Fado vadio na Tasca do Chico


Até ontem à noite posso afirmar que eu não havia escutado fado de uma maneira singular.
Quando estiver em Lisboa, suba a Rua Diário de Notícias, no Bairro Alto, e encontrará um burburinho de jovens e alguns senhores, todos com a tarefa árdua de segurar um copo na mão. É ali mesmo, o ponto de encontro de gerações de fado vadio (há algumas divergências quanto a esta denominação, mas deixo aqui porque apreciei o nome).
Preferível chegar por volta das 20h30min para reservar uma mesa. Enquanto aguarda o espetáculo, pode beber umas imperiais ou uma jarra de vinho. E que tal um queijo de Évora ou chouriço assado, preparado na mesa, para acompanhar? Mas é preciso ter prática para virar o chouriço com aquela chama acesa. Senão até pode queimar. O cheirinho com certeza espalha-se pelo ambiente e todo mundo fica com vontade de provar.
As mesas de madeira e os bancos compridos, sem encostos, dão o ar peculiar de tasca mesmo. Nas paredes, pôsteres antigos ilustrados com fotos de fadistas tradicionais confundem- se com cartazes atuais e fotos de artistas que estiveram ali, tudo confere ao bar um ar meio kitsch (inclusive a mistura de gente).
Os fadistas e o público português habitual marcam presença, às segundas e quartas, os turistas vão chegando em turmas e pegando algumas sessões.
Por volta das 22h, a luz é apagada pelo apresentador que inicia o espetáculo, chamando os fadistas que estão sentados entre nós. O Sr. Polícia, como o apelidei, é uma simpatia, mas pede silêncio ao público inúmeras vezes e controla tudo, principalmente os que chegam e onde podem sentar.
José Manuel de Castro toca a sua guitarra e todos fazem silêncio naturalmente.
Patrocínia, Catarina e Alexandra, Beatriz, lembro-me dos nomes, mas sobretudo das vozes.
Maravilhoso, emocionante.
Nossas amigas brasileiras foram embora e três portugueses, por volta dos 60 anos, compartilham a mesa conosco.
Quando a última sessão de fado inicia, perto das 2h da manhã, observo os senhores em minha frente, com os rostos apoiados nas mãos e os olhares perdidos ao longe. Sinto-me, afinal, um pouco como eles.
Saio de lá inspirada. Uma boa noite na tasca faz toda a diferença na vida da gente.
...
E a história da Tasca:

"Foi em 1994 que Francisco Gonçalves, natural de Amarante e a viver no Bairro Alto desde 1972, abriu a "Tasca do Chico".
Trabalhava na "Adega Mesquita", conhecido restaurante e casa de fados do bairro, e começou a aperceber-se de que as tascas típicas estavam a fechar para dar lugar aos bares. "Era com pena que via isso". Com o "bichinho do fado", Chico decidiu aventurar-se e criar o seu próprio negócio, reservando duas noites por semana para o fado vadio.
Tem um ambiente espectacular, quase mágico, que o transporta tanto pelo “antigo” fado como por novas expressões do mesmo."

fevereiro 04, 2009

Yes, we can!



Sente-se impotente em relação ao tempo?
Consegue gerir o seu tempo como gostaria?

Acorde
Veja
Sinta
Assimile
Coma
Beba
Corra
Trabalhe
Cozinhe
Lave
Leia
Perceba
Insista
Escreva
Escute
Pense
Fale
Assista
Durma

Mas em meio a tudo isso, com todos os verbos que quiseres acrescentar, guarde um tempo para si!


Ilustração Paul Holland

fevereiro 03, 2009

Da sobrevivência


Tenho observado que falar sobre a minha experiência pessoal e relatar as minhas observações do ponto de vista (pretensamente) etnográfico, pode ser muito mais interessante ao público-leitor.

Também percebo que escrever crônicas literárias pode ser bem criativo e inspirador.
As minhas tentativas em aprimorar a minha escrita, portanto, podem surtir algum efeito, mesmo que este inicie apenas por uma escrita mais pessoal (quase terapêutica).

Tenho observado a realidade portuguesa, há 8 meses.
Assumo que eu fui mais espectadora do que qualquer outra coisa.
Pois bem, não deixo de ser uma sobrevivente.

Portanto, assumirei este blog como um diário de uma sobrevivente da crise.

Não é apenas a crise política e econômica que me abate, é a crise de quem está chegando aos 30 anos e tem reavaliado seu passado, seu presente e suas estratégias futuras de vida.
Esta crise aflige multidões de jovens adultos e enche consultórios de psicologia e psiquiatria.
Obrigada pela sua atenção em ler este post.
Foto postada: Quinta da Regaleira em Sintra

fevereiro 02, 2009

Foda-se!


Costumo prever quando a situação está a ficar grave pelo estado de minhas unhas.

Sofro de um mal crônico (pretensamente controlado).

As minhas lindas unhas estão sempre pintadas, deves imaginar o porquê.

Se eu estou a roer apenas o cantinho do dedo mindinho, pode ter certeza que é da ordem dos problemas inventados (pretensamente mais de ordem feminina e novelísticos).

Mas quando puxar mais um pouquinho aquela cutícula inconveniente, podes crer que não é invenção, estão ali mesmo as emoções a pulularem o coraçãozinho escorpiano. E as minhas amadas unhas tremem de medo.

Quando eu parto pelo menos duas unhas no cantinho e puxo com os dentes até sair completamente as coitadinhas, inteirinhas, pode crer que a ansiedade bateu e o bixo comeu.


Mas ainda há três unhas inteiras em cada mão, hiiiiiii, a coisa está grave, porém, controlada (ufa!).



Então, lembro-me do conselho (muito útil por sinal) de minha irmã mais velha:

Se você enxerga um problema e avista a solução, não vale a pena pensar, afinal logo o caso estará solucionado.

Quando não há solução aparente para o problema, ou seja, não há o que fazer no momento, então, o melhor ainda é não pensar, pois afinal quando cansar-se de pensar, o problema já estará resolvido (ou não, rsrs).


Portanto, a frase do Mia Couto está novamente em alta neste blog...

"Pensar traz muita pedra e pouco caminho".


Mas como eu sou a caçula "porra-louca" da família, quando não há solução para o maldito problema,

o bendito "Foda-se" entra em ação.
...............


Oh "Foda-se" nosso de cada dia, ajudai-nos a aliviar nossas tensões cotidianas;

Fazei com que eu sinta-me mais relaxada e coma o jantar ao invés das unhas;

Apelai para o instinto de preservação da pretensa pessoa equilibrada e serena de cada dia;

Santificado seja o nosso "Foda-se" !



........... FOoooooooDA-SE!!!!




P.S.: Sorry, blasfêmias ou ironias toscas têm um certo poder terapêutico em dias que começam ensolarados e terminam caóticos (pelo menos dentro de nós).



AH...PRA FICAR COM UM TEXTO QUE REALMENTE VALE A PENA LER, já circulou em emails desde 2000, mas se alguém ainda não leu, aí vai...


O direito ao foda-se!


(do carioca Pedro Ivo Rezende)



Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua.
"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?
No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não''! E tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade ''Não, absolutamente não!'' O substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.
Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porranenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!".
Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do ''foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.". Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!".
O direito ao ''foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e FODA-SE.

* Foto de minha autoria clicada embaixo da Ponte 25 de abril


janeiro 30, 2009

Podemos cair mas levantamo-nos a seguir


Em Lisboa hoje o céu está cinzento, nenhuma novidade para quem está há dias abaixo de chuva.

Mas não é apenas o céu que está encoberto de nuvens carregadas...



"A crise económica internacional vai lançar nas próximas semanas para o desemprego mais de 30 mil pessoas de empresas por todo o mundo. Este novo número de despedimentos é fruto dos resultados das empresas relativamente ao ano de 2008 que agora começam a ser conhecidos. A Organização Internacional do Trabalho considera que a crise económica na Europa está a ter um impacto alarmante nas empresas, no emprego e no trabalho digno e defende ser necessário coordenar medidas entre os vários países. Essas medidas fazem parte de um relatório que será discutido em Lisboa entre 9 e 13 de Fevereiro, um documento que defende que, tendo em conta que a crise é global, devem ser elaboradas políticas de combate com dimensão europeia e centradas no trabalho digno." (RTP Notícias)



Neste momento de previsão de grande instabilidade social, onde as consequências da crise começam a ser apresentadas ao público, acredito que devemos tentar manter a nossa energia em alta.

Para quem pensa nisto... Há necessidade de preservarmos a nossa sensibilidade, de não embotarmos a nossa auto-confiança, e, principalmente, de termos humildade para rever estratégias. Não podemos prever e nem impor soluções sem consenso, mas precisamos de atitudes rapidamente. Estamos iniciando uma fase de emergência social. Em 2009, está previsto que 50 milhões de pessoas percam seus empregos.


De minha parte, nego-me a entrar neste clima de desespero, potenciado pela opinião pública, ao alardear apenas consequências da crise econômica internacional e os suicídios decorrentes das demissões.


Será que finalmente vamos assistir à civilização economicista cair em si e reavaliar os paradigmas de suas políticas em nível mundial? O homem precisa sentar no divã e reavaliar seus paradigmas de progresso.

*Foto de minha autoria, praia de Oeiras. Podemos cair mas levantamo-nos a seguir.

janeiro 28, 2009

O Jornal de Letras resiste e a crise está em pauta


Dizem que os jornais, revistas e livros impressos têm morte prenunciada por causa da internet. Sou daquelas figuras que prefere continuar manuseando páginas, embora esteja a escrever neste blogue.
Os portugueses lêem muitos jornais. Imagine cinco páginas de classificados sexuais, sob o nome simpático de “Convívio”? Estamos a falar do Correio do Manhã, um jornal meio sensacionalista tal qual o nosso Diário Gaúcho. Mas também O Público, que equivale talvez à Folha de São Paulo, traz em suas páginas centrais alguns classificados eróticos. As fotos obscenas que ilustram os anúncios, em posições ousadas, não serão o único incentivo à leitura? Não. Os portugueses parecem ler mesmo (de verdade!) e possuem sempre novas publicações nas bancas e livrarias, lotadas de clientes.
Um jornal digo de referência, como os citados anteriormente, é o sobrevivente Jornal de Letras que publica a sua milésima edição nesta semana. O primeiro chefe de redação deu-lhe seis meses de vida, mas o idealista José Carlos Vasconcelos persistiu com o seu sonho ao longo de quase 30 anos. A publicação avançou sobretudo porque ele sempre acreditou no projeto. Recentemente, o jornal quase encerrou as atividades pela quebra na venda de publicidade, mas como pertence a um grande grupo editorial e possui um público leitor fiel, ainda persiste com uma tiragem de 12 mil exemplares. Conquistou um lugar no mercado editorial dando atenção à literatura e às várias disciplinas da criação artística, mas também a temas como urbanismo, antropologia, ecologia, história, psicologia e política.
Existem também bons conteúdos (livros, blogues e revistas interessantes) ao acesso livre por meio da internet; com a vantagem de ter um baixo custo de publicação e atualização aos autores e colaboradores. Considero fascinante a grande rede de autores/blogueiros que está em constante crescimento no universo online. São autores quase anônimos que expressam posicionamentos pessoais e coletivos. Muitos são observadores da imprensa, discutem autores e questões filosóficas da humanidade, criticam a falta de ética na política, escrevem textos literários, etc. Outros apenas fazem um diário pessoal e desabafam as suas mazelas e angústias.
Acredito que esta rede de autores unidos possui uma potência de atuação interessante (informação, voluntariado e ação), onde todos desempenhamos algum papel em face à crise que estamos vivendo, nomeadamente a derrocada dos valores da civilização capitalista e economicista.
A propósito, com os fóruns Econômico Mundial (Davos, Suíça) e Social Mundial (Amazônia, Brasil) a iniciarem suas discussões nesta semana, talvez esta reflexão possa ser pertinente.
A crise mundial pode impelir-nos a adotar posicionamentos mais conscientes, enquanto seres humanos e cidadãos integrados neste incrível ecossistema (ao qual insistimos em destruir paulatinamente). O que parece ponto determinante, ao menos para mim, é que todos estamos implicados nesta crise, queiramos ou não pensar a respeito. Assim como o Sr. José, idealizador do Jornal de Letras não desiste do seu objetivo, nós não devemos render-nos aos maus presságios.


Foto de minha autoria, praia Azenhas do Mar. Assim como molduro o sol, as minhas impressões são apenas um enquadramento da realidade.