janeiro 30, 2009

Podemos cair mas levantamo-nos a seguir


Em Lisboa hoje o céu está cinzento, nenhuma novidade para quem está há dias abaixo de chuva.

Mas não é apenas o céu que está encoberto de nuvens carregadas...



"A crise económica internacional vai lançar nas próximas semanas para o desemprego mais de 30 mil pessoas de empresas por todo o mundo. Este novo número de despedimentos é fruto dos resultados das empresas relativamente ao ano de 2008 que agora começam a ser conhecidos. A Organização Internacional do Trabalho considera que a crise económica na Europa está a ter um impacto alarmante nas empresas, no emprego e no trabalho digno e defende ser necessário coordenar medidas entre os vários países. Essas medidas fazem parte de um relatório que será discutido em Lisboa entre 9 e 13 de Fevereiro, um documento que defende que, tendo em conta que a crise é global, devem ser elaboradas políticas de combate com dimensão europeia e centradas no trabalho digno." (RTP Notícias)



Neste momento de previsão de grande instabilidade social, onde as consequências da crise começam a ser apresentadas ao público, acredito que devemos tentar manter a nossa energia em alta.

Para quem pensa nisto... Há necessidade de preservarmos a nossa sensibilidade, de não embotarmos a nossa auto-confiança, e, principalmente, de termos humildade para rever estratégias. Não podemos prever e nem impor soluções sem consenso, mas precisamos de atitudes rapidamente. Estamos iniciando uma fase de emergência social. Em 2009, está previsto que 50 milhões de pessoas percam seus empregos.


De minha parte, nego-me a entrar neste clima de desespero, potenciado pela opinião pública, ao alardear apenas consequências da crise econômica internacional e os suicídios decorrentes das demissões.


Será que finalmente vamos assistir à civilização economicista cair em si e reavaliar os paradigmas de suas políticas em nível mundial? O homem precisa sentar no divã e reavaliar seus paradigmas de progresso.

*Foto de minha autoria, praia de Oeiras. Podemos cair mas levantamo-nos a seguir.

janeiro 28, 2009

O Jornal de Letras resiste e a crise está em pauta


Dizem que os jornais, revistas e livros impressos têm morte prenunciada por causa da internet. Sou daquelas figuras que prefere continuar manuseando páginas, embora esteja a escrever neste blogue.
Os portugueses lêem muitos jornais. Imagine cinco páginas de classificados sexuais, sob o nome simpático de “Convívio”? Estamos a falar do Correio do Manhã, um jornal meio sensacionalista tal qual o nosso Diário Gaúcho. Mas também O Público, que equivale talvez à Folha de São Paulo, traz em suas páginas centrais alguns classificados eróticos. As fotos obscenas que ilustram os anúncios, em posições ousadas, não serão o único incentivo à leitura? Não. Os portugueses parecem ler mesmo (de verdade!) e possuem sempre novas publicações nas bancas e livrarias, lotadas de clientes.
Um jornal digo de referência, como os citados anteriormente, é o sobrevivente Jornal de Letras que publica a sua milésima edição nesta semana. O primeiro chefe de redação deu-lhe seis meses de vida, mas o idealista José Carlos Vasconcelos persistiu com o seu sonho ao longo de quase 30 anos. A publicação avançou sobretudo porque ele sempre acreditou no projeto. Recentemente, o jornal quase encerrou as atividades pela quebra na venda de publicidade, mas como pertence a um grande grupo editorial e possui um público leitor fiel, ainda persiste com uma tiragem de 12 mil exemplares. Conquistou um lugar no mercado editorial dando atenção à literatura e às várias disciplinas da criação artística, mas também a temas como urbanismo, antropologia, ecologia, história, psicologia e política.
Existem também bons conteúdos (livros, blogues e revistas interessantes) ao acesso livre por meio da internet; com a vantagem de ter um baixo custo de publicação e atualização aos autores e colaboradores. Considero fascinante a grande rede de autores/blogueiros que está em constante crescimento no universo online. São autores quase anônimos que expressam posicionamentos pessoais e coletivos. Muitos são observadores da imprensa, discutem autores e questões filosóficas da humanidade, criticam a falta de ética na política, escrevem textos literários, etc. Outros apenas fazem um diário pessoal e desabafam as suas mazelas e angústias.
Acredito que esta rede de autores unidos possui uma potência de atuação interessante (informação, voluntariado e ação), onde todos desempenhamos algum papel em face à crise que estamos vivendo, nomeadamente a derrocada dos valores da civilização capitalista e economicista.
A propósito, com os fóruns Econômico Mundial (Davos, Suíça) e Social Mundial (Amazônia, Brasil) a iniciarem suas discussões nesta semana, talvez esta reflexão possa ser pertinente.
A crise mundial pode impelir-nos a adotar posicionamentos mais conscientes, enquanto seres humanos e cidadãos integrados neste incrível ecossistema (ao qual insistimos em destruir paulatinamente). O que parece ponto determinante, ao menos para mim, é que todos estamos implicados nesta crise, queiramos ou não pensar a respeito. Assim como o Sr. José, idealizador do Jornal de Letras não desiste do seu objetivo, nós não devemos render-nos aos maus presságios.


Foto de minha autoria, praia Azenhas do Mar. Assim como molduro o sol, as minhas impressões são apenas um enquadramento da realidade.

Apesar de


"...Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida..."


Do meu livro de cabeceira "Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", Clarice Lispector



*Ilustração do italiano Alberto Seveso (genial!), chama-se Souvenir

janeiro 26, 2009

A visita presidencial


Uma casa é apenas uma casa, mas pode ser o que você bem entender. Quando eu estou naquela casa, ao menos, sinto-me protegido. Na realidade não era propriamente a minha casa, era dos meus pais e, portanto, ainda parecia seguro, uma espécie de Forte. Aliás, até um dia eu dar-me conta que precisava crescer e assumir eu mesmo o posto de “forte”. Mas como estava dizendo, aquele era o meu lugar e ninguém podia me foder ali.
O sobrado, de uma típica família classe média pobre, ficava no Bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo. A minha família morava nos fundos da casa da minha avó. Para chegar até o meu Forte tínhamos que descer por algumas escadarias improvisadas, passando por alguns quintais, onde jaziam casinhas pequenas onde moravam famílias pobres. Era uma espécie de cortiço digno e não um digno cortiço.
Em uma noite dessas, eu andava de um lado para o outro naquela casa, apenas esperava os pensamentos saltarem pela janela e o sono chegar. De repente, o Barack Obama, estava ali, plantado naturalmente ao lado do fogão. Deve ter entrado pela porta da cozinha, aliás, como tudo mundo faz.
Como se não tivesse mais ninguém a observá-lo, ele entra no banheiro. Com certeza, não era a primeira vez que ele precisara de um banheiro. Mas, por incrível que pareça, eu não achava estranha aquela visita presidencial. Somente pensava: por que será que ele demora tanto?
O banheiro tinha um vitrô e, do lado de fora do pátio, eu podia seguir seus movimentos. Mas não tinha a menor idéia do que ele realmente estava a fazer. Logo pensei: vai ver que ele está apenas passando um telegrama. Ouvi uns ruídos esquisitos. Humm, parecem aqueles barulhos de rádios amadores, conversa ao telefone? Será que ele estava usando o meu banheiro para alguma comunicação secreta? Bem, mas ele não percebe que posso ouvir os ruídos daqui?
De repente, o banheiro deixa de existir. As paredes transformam-se em muros e vejo claramente um cubículo quadrado. E lá ainda permanece Mister Barack Obama sentado num banco. Ele olha para mim, despreocupado. Um sorriso largo invade o seu rosto. Apenas vê-se dentes brancos sobresaindo-se, sem medo nenhum. Ele tem um violão na mão? O quê? Sim, ele está tocando uma música country, bem brega. Ele está sorrindo para mim?
Mas afinal ele está passando códigos secretos ou está apenas tocando uma música country no meu banheiro? Hãn? Fala sério, isso é apenas um sonho!
Acordei com a nítida sensação de que o presidente Barack Obama não era um herói. Confesso que não tinha sido nada Pop a sua passagem pelo meu banheiro. A crise bem que podia ser um sonho, pensei. "Levanta esse traseiro gordo da cama e vai trabalhar!"
* Conto baseado em sonho alheio

janeiro 21, 2009

Procura-se emprego

Faxineira,
Cuida-se de crianças,
Lava pratos e serve cafés como ninguém.
Moça prendada lê enquanto choras.
Mulher dedicada oferece-se para arrumar o seu guarda-roupa.
Menina-moça prendada faz as suas unhas entrarem no Show-business.
Mulher de quase trinta anos, com experiência na área de comunicação, oferece-se para escrever o que lhe apetecer.
Um anúncio, uma notícia fugidia
Um conto, um romance, um roteiro baseado na sua história familiar dramática.
Procura-se emprego part-time, a long time a go.

4 horas de quê?


"E vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo"
(Dom Casmurro - Machado de Assis)
:....
Estava ali, no centro de coisa nenhuma, de onde partira.
Não tinha nome ainda mas já tinha uma história, pelo menos isto.
Lembrava-se que um dia tinham-lhe dito que havia um destino a seguir, mas confessava que não tinha a menor idéia do que viria de fato.
Tinha uma folha em branco em sua frente.
Não acreditava em destino. Tinha apenas a idéia vaga e distorcida de que existia um presente. Um tal presente que se faz ausente, enquanto observa-se tudo descontente.
Cansada, olhava para o seu relógio, os ponteiros marcavam 4 horas.
4 horas de quê?
4 horas de dor de cabeça
4 horas de insônia
4 horas de intenso prazer, quem sabe...
Tinha um papel e uma caneta em suas mãos.


* Foto de minha autoria, um lugar ermo chamado Malpica, próximo de Castelo Branco.

janeiro 20, 2009

Inverno




Há um gosto de lágrima perdida ao final da tarde
Esta chuva fininha que insiste a cair
Este vento a escabelar-me sem prestar contas
Há um tom perdido nesta composição
Como se faltasse apenas um bocadinho de sol para encontrar a nota perfeita
Este inverno dilacera-me os ossos
Mas o Rio Tejo inspira-me a todo nascente
E leva consigo o meu desalento
O sol desponta no horizonte todos os dias
Ultimamente sempre entre nuvens, rsrsrs
Mas eu tenho um sonho a seguir...


"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda gente" - Fernando Pessoa


*Foto de minha autoria, nascer do sol em Algés, Rio Tejo.