janeiro 28, 2009

O Jornal de Letras resiste e a crise está em pauta


Dizem que os jornais, revistas e livros impressos têm morte prenunciada por causa da internet. Sou daquelas figuras que prefere continuar manuseando páginas, embora esteja a escrever neste blogue.
Os portugueses lêem muitos jornais. Imagine cinco páginas de classificados sexuais, sob o nome simpático de “Convívio”? Estamos a falar do Correio do Manhã, um jornal meio sensacionalista tal qual o nosso Diário Gaúcho. Mas também O Público, que equivale talvez à Folha de São Paulo, traz em suas páginas centrais alguns classificados eróticos. As fotos obscenas que ilustram os anúncios, em posições ousadas, não serão o único incentivo à leitura? Não. Os portugueses parecem ler mesmo (de verdade!) e possuem sempre novas publicações nas bancas e livrarias, lotadas de clientes.
Um jornal digo de referência, como os citados anteriormente, é o sobrevivente Jornal de Letras que publica a sua milésima edição nesta semana. O primeiro chefe de redação deu-lhe seis meses de vida, mas o idealista José Carlos Vasconcelos persistiu com o seu sonho ao longo de quase 30 anos. A publicação avançou sobretudo porque ele sempre acreditou no projeto. Recentemente, o jornal quase encerrou as atividades pela quebra na venda de publicidade, mas como pertence a um grande grupo editorial e possui um público leitor fiel, ainda persiste com uma tiragem de 12 mil exemplares. Conquistou um lugar no mercado editorial dando atenção à literatura e às várias disciplinas da criação artística, mas também a temas como urbanismo, antropologia, ecologia, história, psicologia e política.
Existem também bons conteúdos (livros, blogues e revistas interessantes) ao acesso livre por meio da internet; com a vantagem de ter um baixo custo de publicação e atualização aos autores e colaboradores. Considero fascinante a grande rede de autores/blogueiros que está em constante crescimento no universo online. São autores quase anônimos que expressam posicionamentos pessoais e coletivos. Muitos são observadores da imprensa, discutem autores e questões filosóficas da humanidade, criticam a falta de ética na política, escrevem textos literários, etc. Outros apenas fazem um diário pessoal e desabafam as suas mazelas e angústias.
Acredito que esta rede de autores unidos possui uma potência de atuação interessante (informação, voluntariado e ação), onde todos desempenhamos algum papel em face à crise que estamos vivendo, nomeadamente a derrocada dos valores da civilização capitalista e economicista.
A propósito, com os fóruns Econômico Mundial (Davos, Suíça) e Social Mundial (Amazônia, Brasil) a iniciarem suas discussões nesta semana, talvez esta reflexão possa ser pertinente.
A crise mundial pode impelir-nos a adotar posicionamentos mais conscientes, enquanto seres humanos e cidadãos integrados neste incrível ecossistema (ao qual insistimos em destruir paulatinamente). O que parece ponto determinante, ao menos para mim, é que todos estamos implicados nesta crise, queiramos ou não pensar a respeito. Assim como o Sr. José, idealizador do Jornal de Letras não desiste do seu objetivo, nós não devemos render-nos aos maus presságios.


Foto de minha autoria, praia Azenhas do Mar. Assim como molduro o sol, as minhas impressões são apenas um enquadramento da realidade.

1 comentário:

Luciana F. disse...

Umas coisas são engraçadas: encomendei um livro da área jurídica da Oxford University Press. Com shipping e tudo mais, saiu por cerca de R$ 110. Aí vc vai na Saraiva ou na Cultura e vê livros nacionais de pior qualidade (tanto técnica quanto editorial) muito mais caros! É clichê, mas livro ainda é caro no Brasil. E com a retração da economia, o povo, que já não é de muitas letras, vai ler cada vez menos...Bjos!