fevereiro 05, 2009

Fado vadio na Tasca do Chico


Até ontem à noite posso afirmar que eu não havia escutado fado de uma maneira singular.
Quando estiver em Lisboa, suba a Rua Diário de Notícias, no Bairro Alto, e encontrará um burburinho de jovens e alguns senhores, todos com a tarefa árdua de segurar um copo na mão. É ali mesmo, o ponto de encontro de gerações de fado vadio (há algumas divergências quanto a esta denominação, mas deixo aqui porque apreciei o nome).
Preferível chegar por volta das 20h30min para reservar uma mesa. Enquanto aguarda o espetáculo, pode beber umas imperiais ou uma jarra de vinho. E que tal um queijo de Évora ou chouriço assado, preparado na mesa, para acompanhar? Mas é preciso ter prática para virar o chouriço com aquela chama acesa. Senão até pode queimar. O cheirinho com certeza espalha-se pelo ambiente e todo mundo fica com vontade de provar.
As mesas de madeira e os bancos compridos, sem encostos, dão o ar peculiar de tasca mesmo. Nas paredes, pôsteres antigos ilustrados com fotos de fadistas tradicionais confundem- se com cartazes atuais e fotos de artistas que estiveram ali, tudo confere ao bar um ar meio kitsch (inclusive a mistura de gente).
Os fadistas e o público português habitual marcam presença, às segundas e quartas, os turistas vão chegando em turmas e pegando algumas sessões.
Por volta das 22h, a luz é apagada pelo apresentador que inicia o espetáculo, chamando os fadistas que estão sentados entre nós. O Sr. Polícia, como o apelidei, é uma simpatia, mas pede silêncio ao público inúmeras vezes e controla tudo, principalmente os que chegam e onde podem sentar.
José Manuel de Castro toca a sua guitarra e todos fazem silêncio naturalmente.
Patrocínia, Catarina e Alexandra, Beatriz, lembro-me dos nomes, mas sobretudo das vozes.
Maravilhoso, emocionante.
Nossas amigas brasileiras foram embora e três portugueses, por volta dos 60 anos, compartilham a mesa conosco.
Quando a última sessão de fado inicia, perto das 2h da manhã, observo os senhores em minha frente, com os rostos apoiados nas mãos e os olhares perdidos ao longe. Sinto-me, afinal, um pouco como eles.
Saio de lá inspirada. Uma boa noite na tasca faz toda a diferença na vida da gente.
...
E a história da Tasca:

"Foi em 1994 que Francisco Gonçalves, natural de Amarante e a viver no Bairro Alto desde 1972, abriu a "Tasca do Chico".
Trabalhava na "Adega Mesquita", conhecido restaurante e casa de fados do bairro, e começou a aperceber-se de que as tascas típicas estavam a fechar para dar lugar aos bares. "Era com pena que via isso". Com o "bichinho do fado", Chico decidiu aventurar-se e criar o seu próprio negócio, reservando duas noites por semana para o fado vadio.
Tem um ambiente espectacular, quase mágico, que o transporta tanto pelo “antigo” fado como por novas expressões do mesmo."

5 comentários:

cabeloduro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
cabeloduro disse...

tasca do chico. frequentei muito na minha estada em lisbonne. outro lugar que eu ia muito era no adamastor. já foi lá, lari. por que não escreve algo de lá. abs.

Larissa disse...

Não fui ainda. Irei e depois escrevo:-)

Aline disse...

fiquei tri a fim...

Sheila Cabo Geraldo disse...

A Tasca do Chico é mesmo como vc descreveu. Interessante foi que eu estava andando pelo Bairro Alto quando me deparei com aquele lugar com cara de antiquado e logo me apaixonei. Entrei e pedi uma imperial e um chouriço na brasa. Um senhor me disse que aquilo tinha que ser acompanhado de vinho, mas eu já havia pedido a cerveja. Quando começou a cheirar, muitas pessoas também pediram. Ficou uma fumaça só, mas ninguém ligou. Depois foram chegando os músicos e a cantoria não parou. Comprei até um CD. Lá para meia noite,já não cabia mais ninguém, mas continuava a chegar gente. Foi uma noite inesquecível em Lisboa.