fevereiro 24, 2009

O carnaval já passou


“Tristeza não tem fim, felicidade sim”. No imaginário brasileiro está presente este verso de Vinicius e Jobim. Felicidade é “como a gota de orvalho numa pétala de flor/Brilha tranquila/Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor”. É que nem o “melhoral infantil” com o seu gostinho docinho ou o memorável biotônico Fontoura. É como comer leite em pó ou Nescau às colheradas. É assim: mais uma colher de sopa e mais outra… irresistível! É preciso saborear cada segundo, lambendo a colher até restar apenas o reflexo de nosso rosto.
Pois é, felicidade tem fim e o carnaval já passou. Hora de voltar para a vida real e deixar as fantasias guardadas no armário (may be). Mas bom mesmo é sentir essa felicidade fugidia onde menos esperamos. Longe do carnaval, deixei a linda Lisboa tomar conta de mim.
Com o sol novamente a colorir a cidade, alguns pinguinhos de chuva tornaram-se, de repente, grandes gotas de felicidade. Ando pelas ruas da Baixa lisboeta e ouço o som do Eléctrico a passar. Não tarda a vontade de entrar nos Armázens do Chiado e tomar um chocolate quente no Café Roma. Da janela, vê-se o Castelo de São Jorge, a história distante no tempo e ainda presente na paisagem. Junto ao rio Tejo a freguesia de Belém, um dos lugares de que mais gosto. Caminhar ou andar de bicicleta até cansar, depois comer os pastéis de Belém para adoçar a vida. O Padrão dos Descobrimentos lembra-me a história das caravelas com destino ao Brasil.
À tardinha, as diversas castas de uvas no Solar do Vinho do Porto para divertir os sentidos. Sob à luz amarela dos candeeiros de Lisboa, a noite ganha sonoridade. Nas tascas, ouve-se o fado. Entre habitantes locais e estrangeiros, ao ouvir as belas vozes dos fadistas, um coração brasileiro compreende a melancolia do espírito português.
Um senhor na Tasca do Chico ensina-me a ouvir fado como deve de ser: “apoie o queixo nas mãos, feche os olhos e abra o seu coração”. O dono do talho (açougue) à espera de clientes atrás do balcão na rua de Algés, pela qual passo todos os dias, mostra-me que devo ter paciência e aguardar. A senhora de pantufas e roupão, que passeia à noite com o cão, demonstra que ainda há tranquilidade neste mundo. Os africanos que vendem bijouterias às dúzias, penduradas nos braços, ensinam-me a persistência necessária para sobreviver à crise mundial.
Breves momentos de felicidade são como gotas de orvalho, mas podem deixar marcas oceânicas dentro de nós. É como um sorriso que timidamente se abre no rosto, mas que, aos poucos, contagia todos ao seu redor.

*Ilustrando o post, foto tirada no dia 14 de fevereiro, Valentine´s day, em Caldas da Rainha.

3 comentários:

Beta ;D disse...

Nossa... bem legal a foto. Gostei muito do seu blog e o modo como você aborda a crise, achei muito interessante e criativo!

Bjus!

joãoherzog disse...

li alguns dos últimos posts, e não pude deixar de notar que teu entusiasmo era bem mais apaixonado em ensaios antigos, nas primeiras coisas tuas que li, há uns anos...

às vezes ser feliz não depende só da gente querer, tem energias que a gente não controla, que só funcionam se rolarem naturalmente...

...ou talvez seja viagem minha.

Fazia muito tempo que eu não te lia, é bom sentir essa proximidade de ser teu leitor.

Força sempre.

Larissa disse...

Muito obrigada!
Abraços!