março 23, 2009

Brain store (brain storm)




Brain (será que ainda o tenho?) Store. Este blog é a loja do cérebro que pensa demais.


Já ensaiei umas 15 cartas para a família. Rascunhei-as à mão: tão nostálgico. Escrevo emails, envio fotos, mando postais, entretanto, as cartas estão onde foram escritas: no bloco vermelho de formato A4. Não foram endereçadas, não viajaram de avião. Permanecem à espera da coragem do destinatário.

Comprei uma caixa nos correios e enchi-a de presentes em dezembro do ano passado. Fui ver quanto custava para enviar ao Brasil, muito caro, sem noção. A caixa estava embaixo da mesa, agora foi transferida para um canto no quarto. Continua lá a me olhar, abanando o rabinho. De vez em quando, abro-a e observo os presentes comprados na altura do Natal. Penso nas surpresinhas lusitanas e o quê significariam às pessoas se tivessem sido entregues na data. Reflito sobre a atribuição de sentido e, afinal, deixo-as ali mesmo à espera de serem cuidosamente acomodadas em uma mala. Pessoalmente, presumo que seja outra história. Bem mais econômica por sinal.

Aliás, sonho seguidamente com malas, aeroportos, partidas interrompidas. Estou no Brasil, a arrumar as malas e não consigo viajar por algum motivo. Perco-me na casa de madeira onde viviam os meus pais, não consigo reunir todas as roupas, estão molhadas ou espalhadas pela grama. Não há como vestir-me, atraso-me, não há partida. Há uma sensação de um tempo que pára na exata hora em que devia estar embarcando. O ponteiro estanca na ausência, na falta de, na saudade prenunciada.

Eu já não tento mais definir o que sinto em relação a afastar-me das pessoas com quem identificava-me e que agora estão longe, pelo menos fisicamente. Mas confesso que gostaria.
É uma espécie de ausência transmutada que confunde-se com tantas outras sensações. Talvez tenha me transformado num mutante (uau).
A saudade que apertava o peito e fazia irromper o choro contido transformou-se paulatinamente em lamentos e suspiros sazonais.

Refiro-me à minha família muito mais do que quando vivia no Brasil. Falo de coisas que eles gostam (ou gostavam) de fazer, de como seria se estivessem aqui e ali, se estivessem a ver ou experimentar o que sinto. É uma saudade pseudo-controlada. Ligações que se estabelecem aquém do entendimento. Talvez o que não seja passível de definição é o tempo não-vivido ao lado da família.

Eu sinto um novo fôlego com a Primavera. E a partida se aproxima...
Saudade a gente mata um dia, Primavera a gente inspira hoje. Profundamente. Que é para sentir bem os aromas de sementes e flores trazidos pelo vento.

Tenho bons projetos, bons ventos trazem ótimas idéias. Novos interesses, boas perspectivas profissionais. Não deixarei de ser uma "sobrevivente da crise", pois todos somos. Mas em breve terei um blog profissional (esse terá Brain Storm).
- Imagens do post, ilustrações de Mark Oliver e Victoria Ball.

1 comentário:

Luciana F. disse...

Guria, que bom saber que estás com boas perspectivas!!! Depois me conta! Se precisa de algo daqui me avisa! Bjos