julho 22, 2009

Garota enxaqueca


Enxaqueca é um tipo de cefaléia caracterizada por crises recorrentes que podem acompanhar-se de náusea, vômito, foto ou fonobia (alta sensibilidade à luz e aos sons). Essa é a definição dos profissionais de saúde, mas agora apresento-vos a versão de quem convive com essa doença há mais de 10 anos, uma pessoa que já assumiu-se, temporariamente, como uma “garota enxaqueca”.
Enxaqueca é uma doença que ninguém compreende bem ao certo, todo mundo tem um palpite, mas somente quem já teve uma crise pode falar o quanto é desgastante.
Acordar um belo dia com enxaqueca e pensar: o que fizeste ontem mesmo? Não ouviste os sinais do teu corpo? Desde os 16 anos, tenho perdido compromissos importantes, lindos dias de sol e longas noites de sono… Tanto tempo perdido, trancada num quarto escuro, apenas rezando para que a maldita dor passe.
Imagine uma dor intensa que surge na nuca, em cima dos olhos, nas “têmporas”, ou mesmo em toda a cabeça. Pode começar com o aparecimento no campo de visão de um círculo de luz branca, a tal “aura”, que antecede as dores. Mas normalmente eu sinto a dor sem avisos, sem dó nem piedade. Sinto todos os cheiros que habitualmente não perceberia e os perfumes causam-me náuseas. Se comer, vomito; se não comer, sinto-me fraca. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Costumo fechar a janela, pois a luz do sol, a qual aprecio tanto normalmente, causa-me uma fobia incontrolável. Só há uma alternativa: procurar a melhor posição e deitar no escuro. Então, faço orações, viajo por atmosferas distantes, procuro desanuviar, perder a noção do tempo e faço do sono o meu único alento. Entro em estado de êxtase quando o remédio começa a fazer efeito. Um banho, trocar de roupa e tentar voltar à rotina, mesmo com aquela sensação de vazio inexplicável, quando a dor passa e o que resta é apenas uma confusão mental.
Para mim está cada vez mais claro que os tratamentos halopáticos não são suficientes. Já fiz profilaxia durante meses, fui ao neurologista, tomei tantas cartelas de ergotamina que nem conseguiria contar… A única coisa que resultou foi a acupuntura (com profissional de saúde).
Estou conhecendo melhor o meu corpo e acredito que a homeopatia e a acupuntura podem trazer bons resultados. Tenho fé de que esses tratamentos, que levam em conta a saúde integral dos pacientes, inclusive as causas emocionais, podem auxiliar na cura da enxaqueca.
Na realidade, depende muito da observação e da alteração de alguns hábitos. Acredito que é preciso ter uma rotina mais regrada e uma certa consciência dos sinais emitidos pelo nosso corpo. Quem tem enxaqueca deve procurar ter horários fixos de refeições e manter o sono em dia. Não dormir fora de hora, evitar a ingestão de vinhos, chocolates, queijos, bebidas estimulantes como a Coca-Cola ou o chimarrão… (E o que eu faço sem esses pequenos prazeres?). Também deve praticar exercícios físicos periodicamente. Resumo tragicômico: ou levanto a bunda do escritório, ou continuo sendo a garota enxaqueca…
As mulheres são as que mais sofrem dessa doença, talvez porque pensem muito e façam inúmeras coisas ao mesmo tempo. Se você conhece uma pessoa que sofre de enxaqueca, por favor, não pense que ela está fazendo de conta que sente dores de cabeça para não trabalhar ou até mesmo para não fazer sexo. Não trate-a com preconceito, procure colocar-se no lugar dela, tenha compreensão e compaixão, pois a enxaqueca é uma doença como todas as outras e deve ser tratada como tal.

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