novembro 17, 2010

É pra lá que eu vou


Ainda tenho muito caminho pela frente. Sou uma caminhante, por vezes errante, que já sente os dias passarem com alguma dificuldade e o caminho torna-se mais íngreme, o peso cresce e os ombros ressentem-se. Mas isto é provisório.

Há certas questões sobre a vida que ainda precisam amadurecer, é verdade.

Entretanto, há uma espécie de compreensão mais precisa sobre o que realmente importa nesta trajetória complexa, que exige-me uma certa reflexão e, por sua vez, mais escrita.

As pessoas fazem toda a diferença na vida da gente.

Podemos estar serenos a observar uma paisagem impecável, um mar convidativo, um rio refrescante, uma enseada serena, um recanto de natureza sublime no meio do nada de algum lugar qualquer.
Entretanto, se não tivermos alguém especial ao nosso lado, será que a paisagem terá o mesmo sentido?
Os países, as políticas, as economias, as culturas e as pessoas. São as pessoas que fazem tudo acontecer, ou deixar de...
Somos indíviduos inseridos na coletividade. O que faz-nos crer que precisamos pensar apenas em nós próprios e nos nossos? Que ilusão é esta de que não precisamos uns dos outros?
Essa massa que segue o destino triste do capitalismo e da economia dos mercados, sem nenhuma reflexão. Para onde caminhamos?

Sem regras que definam o papel do Estado ou a sua possível intervenção sobre a economia, para salvaguardar os interesses dos cidadãos e diminuir a diferença social, será que há algum futuro para este cenário? A crise já mostrou sua face negra na Europa. Mas parece que o carma deste Velho Mundo é muito pesado.

Quem diria a Europa não ser mais o que era? Não é mais estável? Cada vez observa-se uma diferença social maior entre as pessoas e que está a aumentar nos países pobres do Sul. Há pessoas mais ricas e pessoas mais pobres nos países do sul e uma classe média meio perdida. A Europa avança para a Direita, deixa pra trás a Democracia Social...imbecilizando-se cada vez mais.

Qual será o próximo modelo de Ipad? E o telemóvel (celular) com mais funcionalidades? Já comprei meu Mac novo? Já fizeram as vossas compras do Natal? Quem será o eliminado do Ídolos? E o Sócrates aguenta mais esta?

E o nossos filhos?

Eu sei o que me interessa. As pessoas. As pessoas que gosto, admiro, respeito e amo, sobretudo. Tenho uma pessoa que amo e respeito muito ao meu lado e que espero continuar a partilhar a minha vida, mas ele estará do meu lado seja para onde for.

As pessoas que eu mais amo estão no Brasil. A minha família. E é pra lá que eu vou.

Eu tomo as minhas decisões racionalmente, mas é o coração que dá o veredito final. O emprego está no Brasil, as oportunidades também. O que prende-me ao velho mundo são aos aprendizados, as viagens e as experiências. Mas estas poderão continuar a existir em doses homeopáticas.

Este blog tem dias contados porque logo poderei escrever-vos sob outra perspectiva, viverei outras aventuras, com novos aprendizados, é claro.

Os momentos difíceis e as tristezas fazem parte da vida, mas existe um tempo para tudo. Um em especial para observar os ciclos de vida e encará-los com naturalidade.

Eu sinto-me grata e feliz por ter a compreensão do quanto a vida é maravilhosa e transitória. Simplesmente por existir e poder escrever-vos já é mágico.

Podemos aprender uns com os outros, eu ainda acredito nisto. E por isso persisto com o meu jeito de ser, trilhando o meu caminho, seja ele como for...enquanto este universo me permitir...com a crença arraigada nas pessoas, na amizade, no amor, como base para todo o resto.
Sou ingênua? Talvez. Mas o que eu ganho está guardado dentro de mim e daqueles que me amam, por apostar nas pessoas e nas relações verdadeiras que cultivo sempre.

setembro 24, 2010

Sobrevivendo, por pouco tempo.















Neste tempo nervoso e veloz, quando o verbo no imperativo tornou-se óbvio, sou teimosa em acreditar que tudo é relativo. Foda-se!
Esta merda de crise provoca alguns sofrimentos psíquicos, por vezes, incontornáveis nas pessoas. Mas eu não quero ser mais um número nesta lista. Eu nego-me a admitir isso.
Estou cansada de ouvir que Portugal tem "um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, que aguenta sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice"...
Eu vejo cada um no seu quadrado. Há pessoas boas e más em qualquer lugar... estou pacientemente à espera de que algo melhor aconteça e mostre-me que não estou aqui à toa.
E sinto apenas um sentimento de estranhamento apoderar-se de mim com cada vez mais intensidade.
Sou uma imigrante, embora não tenha um perfil comum de um imigrante... Não vim pra cá pra fazer dinheiro apenas. Estou em busca de conhecimentos.
Sou muito lutadora, não desisto facilmente das coisas, mas estou a um passo disto.
Por que ainda continuo por aqui?
Talvez por teimosia ou ingenuidade.
Porque no fundo, mesmo no fundo, aprecio este país e a sua gente. Porque fiz amigos, grandes amigos: portugueses, brasileiros, estrangeiros. Porque percorri Portugal de norte a sul e amei tudo o que vi...porque aqui encontrei o meu amor, porque aprecio a culinária portuguesa, adoro assistir a um bom concerto... Porque amo a costa do Estoril e adoro tomar uns copos numa esplanada. Por coisas tão simples como passear no Chiado ou fazer as compras no Pingo Doce; porque aprecio comprar roupas com um bom acabamento e estilo por um preço acessível; porque gosto de conhecer outros países, viajar...falar inglês...conhecer outras culturas. E tudo isso é muito mais fácil por aqui.
No Brasil, temos tantas coisas boas, mas o acesso à cultura, viajar, etc, não são tão acessíveis à classe média, pelo menos por enquanto.
Ouço tantas pessoas falando que estão voltando para o Brasil ou até mesmo muitos profissionais portugueses que estão tentando a vida por lá. Realmente será uma potência no futuro... mas ainda tem graves problemas económicos e sociais, violência, desorganização, etc. É claro que depende do lugar onde escolhe-se para viver. Já começo a fazer filmes na minha cabeça.
As pessoas não sabem para onde ir, o que fazer para safar-se nesta situação.
Muitos perderam os seus empregos e aqueles que ainda os têm fazem de tudo para não perdê-los.
Há pessoas que ganham com a crise, encontram oportunidades no meio disto tudo. Oferecem saídas para os seus clientes. Eu gostaria de acreditar mais fielmente nisto. Entretanto, tenho feito tantas coisas diariamente para tentar ser mais positiva.
Este sentimento de isolamento é ridículo. Sei que ao escrever neste blog estou ligada a uma rede de pessoas, que milhares de pessoas podem vir a ler o que estou a escrever. Entretanto, sinto-me completamente sozinha. E porque será? Porque é o mal do século?
Pois, talvez seja mesmo.
Espero sobreviver a isto. E receber pelo menos uma resposta aos 50 emails que enviei.
Estou cansada de não ter feedback.
Retornei, dei opiniões, retroalimentei-me, dei respostas a mim mesma. E isso me basta agora. Não sei mais qual é o sentido desta palavra. Continuo a esperar, por pouco tempo.

setembro 16, 2010

Sobre a exposição Os Gémeos

A exposição Pra Quem Mora Lá o Céu É Lá dos artistas brasileiros "Os Gémeos" ainda pode ser conferida no Museu Berardo (Lisboa) até o dia 19 de setembro.

"É um momento marcante. Pela primeira vez um museu em Portugal recebe uma exposição de artistas oriundos do graffiti. (...)



É possível que já tenha passado por criações da autoria deles, nas ruas de São Paulo, Berlim, Londres ou Nova Iorque. São fáceis de identificar. Normalmente são cenas etéreas povoadas de amarelos e roxos, com olhos inocentes, crianças de pernas franzinas e cabeças enormes, inscritas em murais de grandes dimensões, em prédios devolutos. É difícil não fixar essas imagens pictóricas. Pela escala, poesia e forma como interagem com o espaço envolvente. Criam um clima de romantismo na desordem urbana.

A dupla brasileira Os Gémeos, os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, 35 anos, são duas das figuras mais importantes do graffiti, ou arte de rua. Nos últimos anos já não criam apenas nas artérias das grandes cidades. São também solicitados para expor em galerias, bienais, museus. (...)

A transposição da rua para as galerias de arte não é novidade. Keith Haring ou Jean-Michel Basquiat, já falecidos, ou os contemporâneos Barry McGee e Banksy, fizeram-no. Mas nos últimos tempos tem-se assistido com mais frequência ao fenómeno. A mostra efectuada há dois anos pelo mais influente museu de arte contemporânea da Europa, a Tate Modern, para a qual Os Gémeos contribuíram com um dos murais gigantes expostos no exterior, ajudou a credibilizar uma série de artistas. (...)

As suas criações contemplam visões do quotidiano, cenas simples mas sensualmente ricas, evocações dos esquecidos das margens da sociedade ou retratos comoventes de famílias. É um imaginário sonhador e intimista, às vezes burlesco e possuído pela crítica social, aquele que por norma propõem.
Quando interrogamos Gustavo sobre o que os inspira, a resposta surge em rajada: "O nosso trabalho reflecte as vivências, o olhar, os sonhos, as histórias, os relacionamentos familiares, a poesia, a música, a comida, o folclore do Brasil, o silêncio, pessoas que vivem com salários de miséria mas estão sorrindo, tudo isso é filtrado."
É caso para dizer que a arte de rua, durante décadas desvalorizada, já não se move apenas no maior museu a céu aberto do mundo, a rua, mas também nos espaços museológicos que, durante anos, tinham reticências em aceitá-la. Nunca como no contexto actual as técnicas do graffiti pareceram tão próximas das dinâmicas regulares da arte contemporânea. Na rua, ou na galeria, o traço pictórico lúdico que Os Gémeos colocam na sua actividade é reconhecido, tem identidade, projectando ideias que tornam a vida mais interpeladora. Se isso não é arte é o quê?





Fonte: 17.05.2010 - jornalisa Vítor Belanciano - Ípsilon - Publico on-line.
Fotografias: Dago e Larissa Vianna

setembro 01, 2010

Retornando às origens

Monumento aos emigrantes italianos que foram para a América

O meu pai, jornalista Hélio Scherer, viveu momentos de grande emoção no último dia 27 de maio, ao conhecer a “aldeia” de Valli del Pasubio, na província de Vicenza, norte da Itália. O Valli del Pasubio é uma pequena aldeia, com um relevo montanhoso (desnível do ponto mais baixo ao ponto mais alto chega a 1900 metros) e de muitos bosques. Desta terra o seu avô materno, Giovani Antonio Roso, partiu no ano de 1892, há 118 anos, para residir em Galópolis, no município de Caxias do Sul, Brasil.
Hélio Scherer e seus tios também são netos de um imigrante alemão, João Scherer. Mas como já tínhamos algumas informações sobre os seus antepassados italianos, com o gentil apoio do italiano Livio Dalle Molle, meu pai, acompanhado de mim e de minha mãe, tivemos a oportunidade de apurar mais detalhes junto aos arquivos da Paróquia de Santa Maria (Chiesa Arcipretale di Santa Maria), em Valli del Pasubio.
Dentro daquela Paróquia, em meio aos registros antigos, guardados há séculos, vivemos momentos únicos, que ficarão guardados para sempre nas memórias e nossos corações.
Quando Hélio percebeu que foi naquele lugar que nasceu o pai de sua mãe chamada Odila Roso, o avô Giovani, obviamente ficou muito emocionado. Penso que mesmo com a sua facilidade em escrever, tendo como grande paixão a escrita jornalística, naquele momento seria um desafio pedir-lhe que traduzisse em palavras as suas emoções.
Com palavras de filha e bisneta, e um coração ítalo-brasileiro, percebo um pouco o que ele sente.
As nossas origens são fundamentais para a nossa história de vida, pois são nada mais do que a essência de quem somos. Acredito que as heranças míticas dos nossos descendentes estão no nosso inconsciente. Ao passo que compreendemos esta essência, algo de mágico nos acontece, pois compreendemos a nossa história para além do que nos ensinam os livros, a escola, os media, etc.
Lembramos do sotaque da avó, dos costumes da família, fazemos ligações mais profundas e começamos a entender um conjunto de valores que sustentamos durante toda a vida sem sabermos bem o porquê. Disto isto, posso afirmar que é uma grande oportunidade e que não há uma viagem mais bonita que aquela que nos proporciona algum crescimento pessoal, no presente caso o resgate de um passado que repercute em nossa vida.
A origem dos Rosi (plural de Roso)
E nesta vistia, conseguimos retroceder no tempo, obtendo dados de nossa árvore genealógica até o ano de 1676. Neste ano Matteo, filho de Cristoforo Roso, casou-se com Anna, filha de Michele Sorgato. A partir desta união, sucederam os nascimentos dos antepassados (aqui indicados os nomes dos homens, que passam pela tradição o sobrenome (apelido) Roso): Michiel Roso em 1682, Domenico Roso em 1716, Lazzaro Roso em 1765, Domenico Roso em 1787, Luigi Fortunato em 1825 e Giovani Antonio Roso em 1856 – este pai da minha nona Odila Roso, (in memorian) nascida em 1909, em Caxias do Sul. Nos registros encontramos o seu nome grafado como “Gio”, tratando-se do diminutivo ou um apelido carinhoso para o seu nome.

Italy II

Ilha de Burano - família a pescar

Relax in Roma

Carabinieri - Roma

A espera - Ilha de Burano

Murano fiori

Muran

Finestra

Compartilho convosco algumas fotos que tirei na Itália.

agosto 31, 2010

A Estética do Frio


Por Vitor Ramil... o meu cantor preferido do Rio Grande do Sul.
Com muita admiração pelo seu trabalho e uma saudade crescente de estar novamente no meu território.

"Sinto-me um pouco discípulo daqueles para quem,
na descrição de Paul Valéry, o tempo não conta;
aqueles que se dedicam a uma espécie de ética da forma,
que leva ao trabalho infinito.

Eu me chamo Vitor Ramil. Sou brasileiro, compositor, cantor e escritor. Venho do estado do Rio Grande do Sul, capital Porto Alegre, extremo sul do Brasil, fronteira com Uruguai e Argentina, região de clima temperado desse imenso país mundialmente conhecido como tropical.

A área territorial do Rio Grande do Sul equivale, aproximadamente, à da Itália. Sua gente, os rio-grandenses, também conhecidos como gaúchos, aparentam sentir-se os mais diferentes em um país feito de diferenças. Isso deve-se, em grande parte, à sua condição de habitantes de uma importante zona de fronteira, com características únicas, a qual formaram e pela qual foram formados (o estado possui duas fronteiras com países estrangeiros de língua espanhola); à forte presença do imigrante europeu, principalmente italiano e alemão, nesse processo de formação; ao clima de estações bem definidas e ao seu passado de guerras e revoluções, como os embates durante três séculos entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha por aquilo que é hoje nosso território e a chamada Revolução Farroupilha (1835–1845), que chegou a separar o estado do resto do Brasil, proclamando a República Rio-Grandense.

Se no passado o estado antecipou-se em ser uma república durante a vigência do regime monarquista no país, no cenário político nacional desta virada de século, marcado pela desigualdade social, a capital Porto Alegre tornou-se referência internacional como modelo bem sucedido de política com participação popular.

Vou falar o mais brevemente possível sobre a minha experiência como artista no Rio Grande do Sul e no Brasil. É importante começar dizendo que essa conferência é uma exposição de minhas reflexões acerca de minha própria produção artística e seu contexto cultural e social. Do tema, a estética do frio, não se pretende, em hipótese alguma, uma formulação normativa. As idéias aqui expostas são fruto da minha intuição e do que minha experiência reconhece como senso comum. A extensão do assunto e o pouco tempo para expô-lo não me permitem desenvolver suficientemente alguns pontos. Mas convido a todos para um debate após esta exposição, para que possamos retomar o que for de seu interesse e compartilhar novas reflexões.

Nasci no interior, mais ao Sul do que Porto Alegre, na cidade de Pelotas, que em alguns dos meus textos e canções aparece com seu nome em anagrama: Satolep. Minha vida profissional começou e se desenvolveu em Porto Alegre. No entanto gravei quase todos os meus discos no Rio de Janeiro, centro do país e do mercado da música popular brasileira. A exceção é o meu mais recente CD, Tambong, gravado em Buenos Aires, Argentina.

Aos dezoito anos gravei meu primeiro disco, Estrela, Estrela; aos vinte e quatro troquei Porto Alegre pelo Rio de Janeiro, onde morei por cinco anos. Vivi esse período no bairro de Copacabana, praia símbolo do verão brasileiro, onde, apesar do clima de mudanças discretas entre as estações e do predomínio do calor, mantive sempre alguns hábitos do frio, como o chimarrão, um tradicional chá quente de erva-mate.

Em Copacabana, num dia muito quente do mês de junho (justamente quando começa o inverno no Brasil), eu tomava meu chimarrão e assistia, em um jornal na televisão, à transmissão de cenas de um carnaval fora de época, no Nordeste, região em que faz calor o ano inteiro (o carnaval brasileiro é uma festa de rua que acontece em todo o país durante o verão). As imagens mostravam um caminhão de som que reunia à sua volta milhares de pessoas seminuas a dançar, cantar e suar sob sol forte. O âncora do jornal, falando para todo o país de um estúdio localizado ali no Rio de Janeiro, descrevia a cena com um tom de absoluta normalidade, como se fosse natural que aquilo acontecesse em junho, como se o fato fizesse parte do dia-a-dia de todo brasileiro. Embora eu estivesse igualmente seminu e suando por causa do calor, não podia me imaginar atrás daquele caminhão como aquela gente, não me sentia motivado pelo espírito daquela festa.

A seguir, o mesmo telejornal mostrou a chegada do frio no Sul, antecipando um inverno rigoroso. Vi o Rio Grande do Sul: campos cobertos de geada na luz branca da manhã, crianças escrevendo com o dedo no gelo depositado nos vidros dos carros, homens de poncho (um grosso agasalho de lã) andando de bicicleta, águas congeladas, a expectativa de neve na serra, um chimarrão fumegando tal qual o meu. Seminu e suando, reconheci imediatamente o lugar como meu, e desejei estar não em Copacabana, mas num avião rumo a Porto Alegre. O âncora, por sua vez, adotara um tom de quase incredulidade, descrevendo aquelas imagens do frio como se retratassem outro país (chegou a defini-las como de “clima europeu”).

Aquilo tudo causou em mim um forte estranhamento. Eu me senti isolado, distante. Não do Rio Grande do Sul, que estava mesmo muito longe dali, mas distante de Copacabana, do Rio de Janeiro, do centro do país. Pela primeira vez eu me sentia um estranho, um estrangeiro em meu próprio território nacional; diferente, separado do Brasil. Eu era a comprovação de algo do qual não me julgara, até então, um exemplo: o sentimento de não ser ou não querer ser brasileiro tantas vezes manifesto pelos rio-grandenses, seja em situações triviais do cotidiano, seja na organização de movimentos separatistas.

A sério ou de brincadeira, sempre se falou muito no Rio Grande do Sul em sermos um “país à parte” (nossa bandeira atual é a mesma de quando os revolucionários farroupilhas separaram o estado do resto do país. Vale no entanto dizer que, apesar da imagem que ficou para a história, os farroupilhas não eram separatistas no início de seu movimento). Por ter sempre acreditado que entre falar e sentir havia uma distância enorme, a realidade do meu sentimento era agora perturbadora. Significava que eu não precisava sair à rua pregando o separatismo: eu já estava, de fato, separado do Brasil.

Naquela época, passagem dos anos 80 para os 90, esse tema do “país à parte” estava mais uma vez em voga, e não se poderia encontrar em outra região do país, como ainda hoje não se pode, um povo mais ocupado em questionar a própria identidade que o riograndense. Com isso, o gauchismo e os movimentos separatistas estavam em alta, estes últimos a reboque dos freqüentes protestos de políticos contra o governo federal pela precária situação econômica do estado, manifestações que, muitas vezes, traziam à tona a retórica dos revolucionários do século XIX.

Abro parêntese para comentar o que chamei de gauchismo. É difícil que as regiões se conheçam bem em um país tão grande como o Brasil. Acabam sempre lançando mão de estereótipos e fixando uma imagem imprecisa umas das outras. A mídia nacional, situada no centro geográfico, enfrenta a mesma dificuldade e, ao tentar dar conta da diversidade, adota os estereótipos regionais, o que termina por reforçá-los. Neste processo, distorções muitas vezes se estabelecem como definições de cores locais.

A palavra gaúcho é, hoje em dia, um gentílico que designa os habitantes do Rio Grande do Sul, e o estereótipo do gaúcho é um dos mais difundidos nacionalmente, se não o mais difundido: misto de homem do campo e herói, que o escritor brasileiro Euclides da Cunha, em seu clássico Os Sertões, definiu como essa existência-quase-romanesca. Popularmente, é visto como valente, machista, bravateiro; um tipo que está sempre vestido a caráter e às voltas com o cavalo, o churrasco e o chimarrão.

Originalmente, gaúcho é o rio-grandense do interior, que trabalha a cavalo em fazendas de criação de gado, o mesmo personagem que, no passado, participou das guerras e revoluções em que o estado se envolveu. É um tipo comum aos vizinhos Uruguai e Argentina, com a diferença de que nesses países gaucho (gaúcho) é simplesmente o homem do campo, nunca um gentílico que designe os habitantes dos centros urbanos. É significativo que, no variado leque de tipos regionais brasileiros, esse mesmo gaúcho tenha se estabelecido como marca de representação de todos os rio-grandenses, justamente ele, que nos vincula aos países vizinhos, que nos “estrangeiriza”.

Já o gauchismo ou tradicionalismo é um amplo movimento organizado que, transitando entre a realidade da vida campeira e seu estereótipo, procura difundir em toda parte o que considera a cultura do gaúcho. O empenho de grupos tradicionalistas em legitimar esse personagem e seu mundo como nossa verdadeira identidade, e a vinculação histórica do gaúcho aos heróis da Guerra dos Farrapos contribuem de forma decisiva para que o estereótipo seja largamente assumido pelos rio-grandenses como imagem de representação. No estado e no país quase já não se fala em rio-grandense, mas em gaúcho.

À parte sua real significação, o gaúcho é um símbolo que, em especial nos momentos em que a auto-afirmação se faz necessária, está sempre à mão, assim como o sentimento separatista.

Falando em identidade e separação, fecho parêntese e volto a Copacabana.

Um carnaval acontecer e ser noticiado com tanta naturalidade em pleno junho me levou a pensar nas regiões do “calor” brasileiro, sua gente e seus costumes, e a conectá-las com o cotidiano do Rio de Janeiro. O espírito da festa podia não repercutir em mim, mas certamente repercutia na maior parte da minha vizinhança carioca e Brasil acima. Apesar de toda a diversidade, eu via no Brasil tropical (generalizo assim para me referir ao Brasil excetuando sua porção subtropical, a Região Sul) linguagens, gostos e comportamentos comuns como sua face mais visível. Sua arte, sua expressão popular trazia sempre como pano de fundo o apelo irresistível da rua, onde o múltiplo, o variado, a mistura que a rua evoca ganhavam forma, sendo a música e o ritmo invariavelmente um convite à festa, à dança e à alegria de uma gente expansiva e agregadora. Havia, de fato, uma estética que se adequava perfeitamente ao clichê do Brasil tropical. E se não se poderia afirmar que ela unificava os brasileiros, uma coisa era certa: nós, do extremo sul, éramos os que menos contribuíam para que ela fosse o que era. O que correspondia tão bem à idéia corrente de brasilidade, falava de nós, mas dizia muito pouco, nunca o fundamental a nosso respeito. Ficava claro porque nos sentíamos os mais diferentes em um país feito de diferenças.

Se minha identidade, de repente, era uma incerteza, por outro lado, ao presenciar as imagens do frio serem transmitidas como algo verdadeiramente estranho àquele contexto tropical (atenção: o telejornal era transmitido para todo o país) uma obviedade se impunha como certeza significativa: o frio é um grande diferencial entre nós e os “brasileiros”. E o tamanho da diferença que ele representa vai além do fato de que em nenhum lugar do Brasil sente-se tanto frio como no Sul. Por ser emblema de um clima de estações bem definidas – e de nossas próprias, íntimas estações; por determinar nossa cultura, nossos hábitos, ou movimentar nossa economia; por estar identificado com a nossa paisagem; por ambientar tanto o gaúcho existência-quase-romanesca, como também o rio-grandense e tudo o que não lhe é estranho; por isso tudo é que o frio, independente de não ser exclusivamente nosso, nos distingue das outras regiões do Brasil. O frio, fenômeno natural sempre presente na pauta da mídia nacional e, ao mesmo tempo, metáfora capaz de falar de nós de forma abrangente e definidora, simboliza o Rio Grande do Sul e é simbolizado por ele.

Precisamos de uma estética do frio, pensei. Havia uma estética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma estética para a qual nós, do extremo sul, contribuíamos minimamente; havia uma idéia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentíamo-nos os mais diferentes em um país feito de diferenças. Mas como éramos? De que forma nos expressávamos mais completa e verdadeiramente? O escritor argentino Jorge Luís Borges, que está enterrado aqui em Genebra, escreveu: a arte deve ser como um espelho que nos revela a própria face. Apesar de nossas contrapartidas frias, ainda não fôramos capazes de engendrar uma estética do frio que revelasse a nossa própria face."

* Texto escrito para uma conferência em Genebra. Fonte: http://www.vitorramil.com.br

julho 14, 2010

Itália I

A placa indicativa do Gemellaggio (cidades irmãs)

O albergue The New Station: não recomendo este lugar!

Cornedo Vicentino: uma vista da cidade

Não sei por onde começar...
E eis o início.
Fiz três viagens maravilhosas no mês de junho.
Após grandes percursos, tenho muitas histórias para contar... Entretanto, retornei ao trabalho em ritmo frenético em busca de mais clientes e com esta crise que tem praticamente "expulsado" os imigrantes para seus países de origem...se quisermos ficar mais uns meses por aqui temos que batalhar até cansar, dia após dia.
E o que apetece-me mesmo é escrever até cansar.
Mas por onde começar, das tantas experiências que vivi... acho que todas merecem um breve relato...
Pudera se tivesse a disciplina de escrever algo no meu sketchbook em cada cidade por onde passei.
Mas as experiências sugaram-me toda a energia, as decisões que tinha de tomar e tanta coisa para ver... os olhos cansados no final do dia só queriam dormir para o dia seguinte.
Inicio o meu breve relato por onde?
Pelo dia em que parti.
Após esta metareflexão de viajante, vou seguindo pelo caminho, com alguns tropeços nesta escrita preguiçosa.
Sigam-me.
.........
Dia 26 de junho parti da cidade do Porto com destino à cidade de Bergamo... num vôo lowcost da Raynair.
:::::::::..........
A primeira impressão que tive, desde o aeroporto, era de um bocado de apreensão. Sentia uma certa responsabilidade porque apenas eu falava um pouco o idioma italiano e entendia o inglês...consigo me arranjar, mas preciso estudar mais para me aperfeiçoar... e também porque não tinha muita convicção de que me safaria em todas as ocasiões. O que é esperado de um viajante. Afinal, tudo pode acontecer. E este sentimento em relação ao desconhecido é que faz a viagem ter alguma graça.

O roteiro da Viagem pela Itália:
26 de maio - Partida do Porto para Milão - trem para Vicenza - carro para Cornedo Vicentino (cidade irmã ou cidade gémea de Sobradinho - RS- Brasil - lugar onde nasci)
27 de maio - Cornedo Vicentino - Valli del Pasubio (terra onde nasceu meu bisavô)
28 de maio - Verona
29 de maio - Sirmione - Lago di Garda
30 de maio - Veneza
31 de maio - Veneza
01 de junho - Roma
02 de junho - Retorno a Lisboa (Portugal)

Chegamos em Bergamo às 13h20min, horário local. Perguntei no aeroporto como chegar até o centro da cidade, onde pegaríamos o trem na estação até Vicenza. Tudo muito simples, tranquilo.
O trem que vai até Vicenza passa por várias cidades, dentre elas, Brescia, Peschiera del Garda (uma cidade de veraneio, onde visitaríamos depois o Lago di Garda), passando por Verona..e chegando finalmente ao destino: Vicenza.
O custo da passagem de avião para 3 pessoas em vôo lowcost (baixo custo) do Porto para Lisboa é mais barato (54 euros) do que uma passagem de trem (comboio) de Bergamo a Vicenza (69 euros) da estação de Bergamo. Veja como andar de trem na Itália: http://www.trenitalia.com.
Em geral, viajar pela Europa é mais barato de avião, com passagens lowcost, compradas com muita antecedência, sempre há promoções, entretanto, se tiveres menos de 26 anos e fizeres o InterRail, provavelmente sairá mais barato.
No caminho vimos videiras belíssimas, plantações de milho e feno, muitas indústrias, cidades próximas uma da outra, não há grandes distâncias a percorrer como no Brasil, parece-se bastante com Portugal.
Tínhamos feito uma reserva de locação de um carro pela empresa EuropCar, mas tivemos um problema com o cartão de crédito e tivemos que ir para Cornedo Vicentino de ônibus (autocarro).
O primeiro imprevisto da viagem e eu diria que o único mais grave foi este. Tive que discutir em italiano com uma moça (rapariga) chamada Francesca. Foi muio engraçado e ao mesmo tempo chato, porque não conseguimos locar o carro que já estava pago, mesmo fazendo ofertas de deixarmos o dinheiro referente à caução... ela não aceitou fazer nenhuma exceção aos procedimentos da empresa. E como já eram 19h da noite... tivemos que pegar um ônibus (autocarro).
Ainda bem que ainda havia horários de ônibus para a tal cidadezinha de Cornedo Vicentino.
Que nomezinho estranho este, não é mesmo? Bem, fazia parte do nosso roteiro, porque meu pai queria conhecer a tal cidade de Cornedo Vicentino que possui um laço de cooperação internacional com o município onde nasci. Que aliás também não tem um nome nada coloquial...Sobradinho. Tudo bem pequenino, combinadinho.
De Vicenza a Cornedo Vicentino viajamos 31km, chegamos às 21h. Cansadíssimos.
E lá vai eu como o meu italiano básico... tratar da entrada no "albergo" The New Station.
Que lugar básico. Horrível. O quarto ficava no último andar, com janelas para frente do albergue, onde passava uma avenida com carros, barulhento...
O banheiro (casa de banho) não tinha um local apropriado para tomar banho, ou seja, havia chuveiro, mas a água escorria até a o vaso sanitário (sanita).
Fiquei totalmente chateada com a situação, entretanto, tinha que segurar a minha onda pois estava com os meus pais e não queria estragar o clima com a minha preocupação. Ainda mais que o meu pai no dia seguinte conheceria a cidade onde nasceu o seu avô (meu bisavô).
Mesmo assim não conseguia esconder a frustração, pois havia reservado aquele lugar com a lembrança vaga de como tinha sido atendida em 2006.
Naquela altura, fiquei num quarto normal e correu tudo dentro do esperado, tinha feito uma viagem a trabalho, como assessora de imprensa, representante do município de Sobradinho numa feira internacional em Cornedo Vicentino.
Desta vez senti-me totalmente frustrada, desde o atendimento, o local, tudo. Um horror!
Uma senhora que ficava fumando e jogando numas máquinas de cassino o dia todo era a dona do albergue... um negócio familiar... entretanto, parecia tudo muito suspeito. Essas coisas acontecem nas viagens, temos boas e más surpresas. Faz parte de ser viajante.
Então, dormimos uma noite de sono interrompido com o barulho dos carros..pensando inevitavelmente que tínhamos reservado aquele quarto por 4 dias...até o dia 3o de junho.
Sem carro não conseguiríamos fazer os roteiros pretendidos. Tínhamos que resolver isto no dia seguinte. Mas se a sorte estava conosco....haveríamos de encontrar uma forma de resolver isto. Tudo porque a EuropCar não aceitou um cartão de crédito sem os números sobressalientes. Tenham isso em conta quando fizerem uma reserva internacional. Eles somente aceitam locar um carro utilizando o seu cartão de crédito para fazer uma caução, é a segurança deles caso devolveres o carro com algum prejuízo. Entretanto, se não tiveres o mesmo cartão que efetuaste a reserva, levares um outro, como foi o nosso caso, que não tem números sobressalientes (porque era um cartão da Copa bem bonito o layout). Provavelmente terás problemas.
Dito isto, depois das chatices. Sempre vem o dia de amanhã que sempre nos surpreende. Positiva ou negativamente. Basta dormir, relaxar, se não conseguir como foi o meu caso, espere o dia nascer...
Amanhã continuo o relato com grandes emoções. ;-)

maio 25, 2010

Porto em poucas palavras

Rio Douro, passeio sob nuvens cinzentas, do barco transporto-me para o indescritível.
Sou parte do rio e nele refaço-me mil vezes. Sou mil mulheres de tantas faces todas refletidas neste espelho verde escuro, na água profunda do meu ser.
Dura o instante.
25 de maio é brindado com um cálice de vinho do Porto que acompanha-me no cruzeiro, assim como a companhia de quem fui, de quem sou e quem eu almejo ser.
;-)
Adorei esta cidade, fui bem recebida no Hotel Peninsular, tive bons momentos ao lado dos meus pais. Comi muito bem e tomei muito vinho do Porto!
Amanhã partimos para Milão e começamos a nossa jornada pela região de Vêneto...
Logo escrevo mais impressões por aqui.

maio 16, 2010

É hora de partir

Há momentos que sinto-me mais desperta para o mundo. Como se pudesse ouvir aquilo que apenas os cegos escutam.
Não ignoro aqueles que falam... Ouço-os como se estivesse interessada, mas os meus pensamentos estão muito longe.
Vivo um tempo impreciso, como todos, aliás. A consciência da efemeridade causa-me uma liberdade mental incrível, entretanto, pode paralisar-me. É o tempo psicológico que não acompanha o tempo cronológico.
Os segundos são da respiração, os minutos são de meditação, a hora é de paciência. Comunico-me comigo mesma para ouvir o batimento do meu coração e sentir apenas... Nenhuma ilusão é capaz de tirar-me do meu eixo. Se estiver desperta para o que realmente me faz bem e respeitar-me, aceitar-me simplesmente como uma sobrevivente.
:..:
Sinto vontade de viajar, conhecer novas culturas, sentir novos aromas, tocar novas texturas, libertar-me do cotidiano, ouvir outro idioma, beber, rir, cantar, andar pela rua sem destino... perceber outros contextos e rever-me (como sempre) a partir disto.
Logo estarei embarcando...

Confiram aqui alguma escrita de viagem no final de maio.
Norte de Itália, Madrid e Paris..

maio 13, 2010

Assim, louca


Nós nunca nos realizamos.

Somos dois abismos - um poço fitando o céu.

O livro do Desassossego - Bernardo Soares.


Sensível, inútil, perplexa. Desço mais dois degraus e penso. Ridícula, afoita, ansiosa. Suspiro profundamente e deixo uma pequena lágrima cair. Segue o teu caminho. Óculos escuros, mais um passo em direção à rua, onde mesmo? O que será que me espera lá fora? Será algo melhor do que o que me consome por dentro? Não sei nada ao certo. E ainda bem que tento. Mais do que faço...será possível...o tormento.
Talvez se pudesse agir mais do que pensar sairia da perfeição do círculo. Mas que ilusão é esta de que nada acontece?
A mulher entra no seu mercedes, o síndico fala do telhado. As crianças jogam bola na rua. Eu jogo com as ideias. Parar de pensar e agir. Faço ligações, corro atrás de uma solução para este caos que fodeu este país.
Será que há algo para além do saldo da conta no banco?
Do que faço guardo a vaga impressão do que passou... e que bom...mas passou... e já vem outra sensação, uma razão ilusória para existir...trabalhar...fazer...ser mais uma laborandi person.
E o que vem depois desta angústia?
O mercado cai...tudo cai... Voltar pro Brasil. E sobreviver, mas sou uma estrangeira para sempre. Há uma borboleta que insiste em entrelaçar-se nos meus cabelos.
A minha respiração fica mais ofegante. Mesmo que siga, tome o meu café e volte para o trabalho... há sempre algo que falta.
Um som, uma nota qualquer que interrompe o meu sono. Só quero dormir um sono calmo, reparador. Tirem-me daqui. Quero ser uma pessoa melhor. Menos ansiosa. A inquietação faz parte de mim.
Aceito-me. Ainda bem.
Assim, louca.

março 30, 2010

Baco é o meu Deus predileto


O Porto é lindo. Uma cidade tão diferente de Lisboa, aliás como os portuenses fazem questão mesmo de salientar, mas muito bonita...



Um final de semana bem passado, com as bênçãos do Deus Baco, regado a muito vinho e muitas risadas, foi o suficiente para tirar as teias de aranha que cobriam-me disfarçadamente.
Devota a Baco que sou, não pude deixar de provar o produto mais famoso de Portugal, a perder para o azeite de oliva talvez. Provei alguns cálices de Ruby, LBV, Vintage, mas o meu predileto é o Tawny, sem dúvida.



E a luz da Primavera a salientar as cores do rio Douro, as caves com o seu néctar divino... Que delícia! Tanto entusiasmo ainda é pouco.



Ficamos no Porto Riad Guest House, dá pra fazer a reserva pelo Booking.
O Hotel tem um estilo interessante, com uma decoração oriental.
O atendimento é muito bom e o pequeno-almoço no jardim é revigorante. Não fosse o azar do nosso quarto estar próximo da entrada do hotel, seria perfeito. Escutamos todos os que chegavam na madrugada, após as baladas na noite do Porto.
Dos deuses foi andar de carro pela região de Passo da Régua e poder observar os patamares, as vinhas e os trabalhadores a podá-las tão cuidadosamente. Caminhar e sentir o cheiro da terra, observar os reflexos do rio e um pôr-do-sol tímido com uma vista espectacular do Alto do Douro, em São Leonardo, Gafeira.
Viver em Portugal tem destas delícias, essas escapadinhas maravilhosas que podemos fazer por um preço acessível aos bolsos dos pobres viventes. Ainda mais divertida foi a viagem por estar na companhia dos amigos, que por sinal, podem ser surpresas maravilhosas na vida da gente. Momentos raros de diversão e muitas risadas.
Eu já era adepta do vinho do Porto, agora tornei-me simplesmente fã.
E Baco....bem, este sempre presente nas minhas aventuras...

março 03, 2010

Descansar, pensar, passear...


Este tempinho horroroso deixa-me mais deprimida do que o habitual. Gostaria de descansar, pensar e passear com o sol a bater na cabeça. Lembram-se daquela música linda do Lô Borges, conhecida pelo Clube da Esquina... "você pega o trem azul, o sol na cabeça..." "o sol pega o trem azul, você na cabeça..." Adoro essa bela canção...
Quisera eu ser um daqueles pássaros abençoados que cantam lá fora, neste final de tarde lilás, parecem tão alegres com a chuva. Mas eu sou uma mulher reclamilda. Vivo no país dos "queixinhas", como ouvi estes dias num depoimento de um membro da PSP no telejornal, e lamento o tempo ruim, aliás como toda a gente...
No tempo cronológico, perdemos 1,26 milonésimos de segundo por dia, ou seja, os dias estão mais curtos. Isto depois do terremoto (terramoto) do Chile. Quem falou isto, um tal cientista da Nasa, também afirmou que o eixo da rotação da Terra alterou-se em 8 centímetros, em decorrência do sismo.
E eu preocupo-me com a minha crise existencial, enquanto morreram 795 pessoas neste último sábado no Chile. Será egoísmo meu? Mas o que hei de fazer por tudo isto?
Todos vão às compras e logo se vê...afinal, é início do mês, rs.
Tantos questionamentos enquanto o pão quentinho espera-me na cozinha...depois a aula de pilates...e tudo fica mais calmo e parece que vou passear, descansar e pensar...pensar...pensar... e continuar a escrever, bem haja!
Ilustrando o post, fotografia de uma sinalização (sinalética) para os visitantes, muito gira (legal) por sinal na entrada do Museu Berardo, Centro Cultural de Belém, Lisboa.

fevereiro 26, 2010

O fado é mais excitante


Ainda sobrevivo.
Nostálgica e um bocado trágica como sempre.
Tenho me dedicado à fotografia, boas leituras, alguma ginástica cotidiana.
Devo agradecer pois estou a trabalhar muito. Há quem não consiga sair da crise que lixou (fodeu) tudo em 2008, assolou 2009 e ainda arrasta-se por 2010.
Atónita (atônita), tenho observado os movimentos da natureza. Terramoto (terremoto) no Haiti, enchentes no Brasil e na Ilha da Madeira...
Ano passado caiu uma ponte por causa de uma enchente, transbordou o Rio Jacuí, no estado onde nasci...Rio Grande do Sul (Brasil). Recentemente foi a tragédia na ilha da Madeira. Uma grande tragédia. Hoje vi na tv todos a unirem-se, em solidariedade, a limpar os restos e reconstruir as suas vidas.
O mundo está a se rebelar, ou a se revelar...quem sabe.
Às vezes chego a pensar que muita gente ainda não percebeu nada. (será que não é melhor assim?)
Os reflexos do aquecimento global serão cada vez mais evidentes.
E então a crise não será apenas económica (econômica) nem de valores. Será "terrena"?
Catástrofes naturais, os maias, o tal "segredo" que eu ainda estou tentando descobrir. Viva as profecias, eu prefiro Pessoa e os seus heterónimos, eles dizem-me o caminho. rs.
Eu, cá comigo (bem redundante), no meu canto luso-brasileiro em Algés, sigo a navegar conforme a maré, olhando para o Tejo, a fazer a ginástica na vida.
Por ora...
Cansei até das minhas palavras vãs. "Terrenos", que raio é isto? Perdemos o contacto (contato) com a natureza, com o modo simples de viver, não temos mais a intuição da sobrevivência. Somos desumanos.
Tenho escrito pouco, porque observar a "desumanidade" e alguma humanidade (ufa!) que brota nos sítios (lugares) mais improváveis basta-me...seja aqui ou qualquer lugar, é geral....
Trabalhar bastante, ganhar dinheiro para viajar e fotografar. Ô vidinha intelectual burguesa. Mas é uma granda (grande) estupidez citar sempre qualquer coisa para tentar ser feliz.
Aliás, viver entre tanta estupidez é deveras cansativo. Até eu já tornei-me estúpida.
O desastre está dentro de cada um de nós. O trágico guarda algo demasiadamente belo para abdicarmos...mentes crentes, insanas, regatas soltas a navegar....
Pessoas sensíveis. É disto..contacto (contato) com gente que sorri e chora, tem medo, sofre, alenta.
Se debater, por tão pouco... tantas discussões baratas, politicagem de merda (vão aprender a ser maus políticos no Brasil, hehe).
Há tanta coisa boa, tantas pessoas inteligentes escondidas atrás do Doutor. Destronem-se umas às outras até não sobrar resto de nada. Estou a ver, apenas, de camarote.
Cansa-me imenso essa parvoíce (não vou traduzir) colectiva. Impregna-me o espírito, disseca-me os ossos, esfria-me as têmporas.
Afinal... conversar, traçar um caminho, respeitar, trabalhar, amar e sorrir.. é tão difícil assim?
O fado é, sem dúvida nenhuma, mais excitante.
Ilustrando o post, fotografia de minha autoria no Centro Cultural de Belém.